domingo, 4 de outubro de 2015

Gostei

Gostei.
Convivi com Edgard Allan, o Poe.
O que estragou foi Charles-Pierre, o Baudelaire,
com tradução de canoa sem seiva de cannabis,
em espécie de périplo paraguaio de Pedro Juan Caballero
com crianças babacas a bordo,
traindo o amante leminskiano de Rimbaud
que nunca se iludiu quanto a aicai ser verso livre.

Gostei, gostei mermo
quando Charles-Pierre, o Baudelaire, quebrou
a perna do albatroz, perfeito poeta em performance perfeita.
Só não gostei porque sei que Charles, o Pierre, comeu uma negra
e Rimbaud foi muito mal comido pelo amante leminskiano,
e assim a poesia ganhou Oswald de Andrade
na Semana de Arte Moderna
e Guilherme de Almeida traduzindo algumas flores, digamos
do mal.


25/9/2015
(Hamilton Carvalho)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Shakespeare, uma nota poética

William Shakespeare nasceu em 23 de abril de 1564 e morreu em 23 de abril de 1616, em Stratford-upon-Avon. Eis um velho poema e alguma referência:

RETORNO
Ah-ah, o outro que se vire
nas mãos do agiota Shakespeare.
Will, Will, que Stratford recolha
teus cansados gonococos,
porque ficamos blasés.
Um dia ela acorda, Will,
a exalar o ácido graxo
de um estômago senil.
Então dirás: “Sou palhaço.”
Como somos imbecis.
Era preciso que houvesse
uma bicota no escuro,
sem dentes e devaneios,
em teatro de bonecos:
o tálamo como palco.
Há toda uma estrada real
entre nós. E o vinho adúltero
alterado da estalagem.
E a peste. E o fogo e o feto,
e o fantasma de meu pai.
Somos como por acaso
no pátio escuso do mundo,
nas estrebarias de Áugias,
sob as vestes fedorentas
e mecenas da rainha.
Acaso. Nos bastidores o verso
incinerado. Eu me compro
ao preço vil do retorno,
mesmo no medo das pontas
atadas do vão destino.
Um dia ela acorda, Will,
e toda crepuscular,
à luz do longo abandono,
te ofertará tua, a própria
caveira.
(Hamilton Carvalho)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Idealismo e democracia

No início de fevereiro, uma garota me calçou depois de ler uma de minhas intervenções inconsequentes no Twitter. Ela teclou:

 Temos que ter em mente que o PT está no governo, mas não tem o poder. Este continua com a elite.

Tropiquei, no sentido baiano do termo, e fui no embalo:

– Exato. Não tenho ilusão de classe. O que quer dizer que o PT no poder não é o povo no poder.

Ela foi enfática, em caixa-alta:

– EU NÃO DISSE QUE O PT ESTÁ NO PODER. Ele está APENAS NO GOVERNO e tenta fazer o que pode pelo povo.

Com aquele jeito falso (e irritante) de quem concorda, e escrevendo classe no singular para economizar caráter (sem trocadilho), pontifiquei:

– Exato. O PT apenas administra para a classe que está no poder.

Mas as coisas não devem ser reduzidas a tuítes e retuítes, como papeizinhos presos em pernas de pombo-correio para determinar o rumo de uma ação imediata.

Apesar do exuberante idealismo, a moça não tinha como explicar a que diabo de poder ela se referia, nem muito menos como exercê-lo. Disse poder em geral, como poderia ter dito democracia em geral, pois não suponho, de forma nenhuma, que ela almeje, conscientemente, uma ditadura em particular, um tipo de Estado. O partido que ela tão ardorosamente defende está “apenas” no governo.

E aqui voltamos ao texto anterior. Ou melhor: ao desejo expresso nele.

Ter posição definida ao lado dos explorados não é fácil. Você chama para a briga aqueles que têm longa, secular experiência na dominação, que envolve a exploração do trabalho, a repressão aberta ou dissimulada em “segurança pública”, o acesso ao conhecimento e aos meios usados em benefício dessa dominação e crenças e preconceitos inculcados cotidianamente, criando a ilusão de que as artes e as ciências e o bem-estar são bens universais ao alcance de todos. Ou seja, a democracia tem valor universal, porque engloba tudo isso e mais alguma coisa a que todos, igualmente, têm direito, mesmo que, de fato, a maioria não tenha direito a porra nenhuma ou se veja constantemente ameaçada de perder algumas das poucas conquistas alcançadas a duras penas.

Ora, ter posição definida na luta de classes ao lado dos oprimidos, sentindo-se um deles ou não, é ser claramente a favor de uma ditadura em particular: a democracia proletária. Isto é – para não irritar aqueles que possam alegar que não existem mais pessoas úteis tão somente para procriar –, a democracia dos pobres, daqueles que, hoje, não são donos do que produzem.

Não se pode falar de democracia para todos numa sociedade dividida em classes, em explorados e exploradores. E não se poderá falar de democracia para ninguém quando não houver classes. Isso é mais do que reconhecido e discutido – e mais do que sentido pelos oprimidos –, mas muita gente não entende o seu alcance porque não se pergunta: democracia para quem?

A minha idealista contraditora do início deste texto intuiu a essência do problema, ao situar, de um lado, um partido político de extração popular e, de outro, os exploradores, a “elite”. Apenas intuiu. Porque as classes sociais são representadas por partidos, e é por meio dos partidos que elas chegam ao poder, ou seja, só assim elas governam. Para isso, o partido tem que expressar a ideologia dominante, e os partidos pequeno-burgueses fazem isso muito bem, e em alguns momentos até se superam nesse papel coadjutor.

Governar sem estar no poder, fazendo “o que pode”, só mesmo se Deus ou a burguesia quiser. Puro, puríssimo idealismo.

 

Hamilton Carvalho

(3/4/2015)

domingo, 29 de março de 2015

A pressão ideológica

Seria preciso que me detivesse mais sobre o tema que pretendo (não sei se vou conseguir) abordar aqui, e refletisse mais sobre ele, para que o texto fosse conciso e objetivo, e justificasse o artigo definido do título, tão absoluto.
O caminho mais fácil é, sem dúvida, começar pela experiência pessoal. Mas, no meu caso, isso não funcionaria. Tive o “privilégio” de iniciar a militância política durante a ditadura militar no Brasil. É claro que a ditadura estava ali para defender os interesses das classes dominantes e do imperialismo, era um estado-maior da concentração ideológica pela manutenção do capitalismo.
No entanto, os grupos revolucionários, mesmo com divergências significativas entre si, e apesar do caráter pequeno-burguês predominante neles, eram “amarrados” pelo fio da luta pela democracia.
Que democracia? Veremos depois.
A questão ideológica não era tão crucial como agora, embora sempre e necessariamente presente.
Eu, por exemplo, não tinha que me debater com colegas de trabalho e com a família quanto à minha posição na luta de classes. Dado o secretismo da atuação organizada, o que se via, no máximo, principalmente na efervescência do movimento estudantil, era “coisa de jovens” que, com a idade, “sossegariam”. Havia certa tolerância melosa por parte dos que nos amavam ou daqueles com quem partilhávamos a vida “normal”.
Ou seja, o “abaixo a ditadura”, ainda que pudesse resultar em morte, era aceitável. Dizer hoje “viva a luta pelo socialismo” é coisa de velhos, de dinossauros, de gente perdida no passado. A pressão ideológica sobre a juventude é tremenda.
O problema é mais acentuado quando se trata da militância política organizada. A sociedade burguesa é permeada de organizações – sindicais, religiosas, de jovens, de mulheres, de minorias em geral. Aceitam-se tais organizações, desde que não avancem o sinal da ideologia burguesa e mesmo que elas defendam algumas conquistas que só se efetivarão no socialismo.
Participar de uma organização ideologicamente definida pode ser motivo de vergonha. A ironia, o escárnio, o conselheirismo também são armas das classes dominantes, empunhadas garbosamente pela pequena burguesia “culta”. Aqui se reproduz, mesmo inconscientemente, uma das características do capitalismo que intimida a iniciativa, embota a capacidade de discernimento das pessoas, o poder de decisão delas, seu “livre-arbítrio”.
É assim a “democracia para todos” – expressão que, em si, já é um contrassenso. Para falar com propriedade sobre pressão ideológica seria preciso abordar a questão da democracia “em geral”, a que abstrai a existência da luta de classes. Veremos depois.

Hamilton Carvalho
(29/3/2015)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Sartriana


Que me importa eu
se o outro é você?
Que me importa a merda,
se estamos nela você e eu?

Não é fácil, amiga,
nunca poderia ser fácil.

Eu me curvo,
e culpo você.
Qual é a graça
de me culpar
se a culpa é de todo eu?

Hamilton Carvalho
(9/12/2014)

sábado, 16 de agosto de 2014

Soneto

Não é que eu fique triste, ou me deprima.
É que às vezes me curvo sobre mim,
e você, que venero, está acima
do que não tem começo nem tem fim.

Não é que eu me exiba ou que faça esgrima.
É que às vezes você não é um sim,
nem pode ser não, nem mesmo uma rima,
algo que justifique amor assim.

Mas não estou no meio ou no dilema.
Estou posto no âmago da vida,
que se resolve e em si já é suprema.

É que vejo você acontecida,
não como a chave de ouro de um poema,
mas o peso de noite maldormida.

(13/8/2014)

domingo, 18 de maio de 2014

Direitos autorais, morais etc.


Descumprir leis, tudo bem. Em certos casos, a gente faz que não vê, porque são “tantas coisinhas miúdas”, soterradas pela vida, que não tem sentido brigar por causa delas. Ser legalista às vezes dói. Sem falar que legislador tem mania de ao pé da letra, mas sempre faz uma contrapartidazinha para a letra ficar com uma perna maior e precisar de muleta do outro lado. Tacam lá: “Caracteriza-se como tal coisa a ação tal, desde que...” O desde-que deixa tamanha brecha que há quem acredite que o melhor é “administrar” as coisas e tirar proveito delas, pois, sem-vergonhamente, caráter existe mesmo é para se ausentar.
Mas façamos “de conta que o tempo passou”, e passou tão bem que endireitou toda a legislação do planeta, ajustando-a primorosamente à vida, à realidade, às necessidades humanas. É então que nos damos conta de que existe, chamejante como a espada do rei Artur, uma lei chamada “do direito autoral”, a navegar, soberana, no éter dos céus do Brasil (sem, todavia, ser etérea).
Agora, sim, nada de descumprir lei. Os músicos – antigamente “esses moços, pobres moços” – estão garantidos. Não são mais (só) românticos, nem diletantes, nem pedintes de “incentivos culturais”. São “operários em construção” – embora o termo operário pegue muito mal em intelectual e avacalhe com os calos alheios.
Suponhamos que tudo seja de fato assim mesmo: músicos produzindo e recebendo pelo que produzem. A cultura se enriquece, o espírito das massas se amplia e o povo passa a “cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”, ainda que pague imposto e tenha de tolerar Djavan (que não é o autor do trecho entre aspas).
Eis a viger, em toda a plenitude, a augusta Lei do Direito Autoral.
Só que, admitamos, ela é um tanto presunçosa. Quer ir além do estômago dos autores e passa a tratar também da parte moral. A lei chegou até aqui todo-poderosa; agora não o é mais. Ela é durona – ainda de acordo com a nossa suposição, que está mais para cínica do que para cênica – quanto aos aspectos materiais, mas não pode fazer nada no que diz respeito à moralidade dos tempos e das têmperas.
Um dos direitos morais do criador preconizados pela 9.610 é “o de ter seu nome, pseudônimo ou sinal convencional indicado ou anunciado, como sendo o do autor, na utilização de sua obra”. Afora o horrível “como sendo”, o tempero moral não chega a arder ou fazer que a pressão arterial suba.
Acontece que moral não se bota, feito ovo. Não há decreto que faça canalha moralizar-se. Não há dever moral que se determine por lei. Então, cria-se jurisprudência. E, assim, todos nós, transgressores e transgredidos, ficamos numa boa, na harmonia do deixa pra lá.
As rádios – particularmente as FMs ditas de classe A ou classes A e B – não informam o nome dos autores das músicas, nem antes nem depois da execução, muito menos anunciam, o que pressupõe a informação antes da execução. Depois que são tocadas três ou quatro músicas, irrompe em nossos ouvidos a voz cavernosa de um homem ou a xaroposa de uma mulher informando o nome dos intérpretes – a começar pela derradeira executada, o que endoidece qualquer entendimento. E isso, ainda por cima, só até determinada hora da noite. A partir daí – e nos fins de semana –, nem autores nem intérpretes têm o direito moral respeitado. Antes da lei, bem antes, o nome dos autores – que raramente gravavam as próprias músicas – era reconhecido pelo público.
Até hoje se ouve falar de Evaldo Gouveia, Jair Amorim, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Cartola, Pixinguinha – e mais um punhado. Antigamente, anunciava-se a canção de um desconhecido Tom Jobim em parceria com Dolores Duran, uma estrela, sem o menor constrangimento. Sabia-se até o nome de autor de marcha de carnaval, que, pelo fato de arrastar multidão nos salões e nas ruas, caía facilmente no domínio público, e público festivo não se preocupa com memória. Mas era sabido: “Ó abre alas” foi composta por Chiquinha Gonzaga.
Sem rigor de lei, os comunicadores daqueles tempos pareciam cultivar a honestidade intelectual, ou mesmo – vá lá – a ética.
Hoje, dono de veículo de comunicação não respeita compositor. Assim, o público não pode respeitar compositor. Não se pode respeitar o que não se conhece. Nesse caso, descumprir lei não dói. Fica a dormência da omissão.

Hamilton Carvalho
(Notícias de Goiás, n.º 27, 28/12/2006)