sábado, 18 de outubro de 2025

Cenários

 

Nada de mágico nas palavras

nada de mágica

com o estertor

 

A dor sobe ao palco

e rouba a cena

o cenário

o mágico

e ainda leva de quebra

o contrarregra

que volta para casa

na mortalha da tragédia

 

2

Num canto de cozinha

assoma a ponta dura

dos joelhos de um menino

com um prato de nada no colo.

É meio tarde na noite

mas há um cadáver na sala.

No quarto

brinquedos quebrados

estuque úmido

e o cheiro remoto da urina

impregnada no colchão.

Mais nada

além do retrato amarelo

e inútil

numa carteira de trabalho.

 

3

A crise é mesmo assim

dona menina:

a banca é rota

e não advoga nada

os bastidores eram tudo

mas não alimentavam

 

A vida é assim

esse menino:

os brinquedos envelhecem

mas ainda se brinca

e se enche o prato

com sonhos de vitrine

 

4

Não há mágica nas palavras

não há Shakespeare

em boca atropelada

 

Não há mágico

no espelho trágico

do palco saqueado

silhueta contra o pano

 

(que esconde a realidade do trabalho)

 

Mas o viver ainda escorre

das cidades ilhadas

no coração da metrópole

feito sangue espesso de facada

ou lágrimas de chumbo

 

A dor prepara o cenário do dilúvio

 

 

Hamilton Carvalho

(in Subversos, 2012)