Nada de
mágico nas palavras
nada
de mágica
com
o estertor
A
dor sobe ao palco
e
rouba a cena
o
cenário
o
mágico
e
ainda leva de quebra
o
contrarregra
que
volta para casa
na
mortalha da tragédia
2
Num
canto de cozinha
assoma
a ponta dura
dos
joelhos de um menino
com
um prato de nada no colo.
É
meio tarde na noite
mas
há um cadáver na sala.
No
quarto
brinquedos
quebrados
estuque
úmido
e
o cheiro remoto da urina
impregnada
no colchão.
Mais
nada
além
do retrato amarelo
e
inútil
numa
carteira de trabalho.
3
A
crise é mesmo assim
dona
menina:
a
banca é rota
e
não advoga nada
os
bastidores eram tudo
mas
não alimentavam
A
vida é assim
esse
menino:
os
brinquedos envelhecem
mas
ainda se brinca
e
se enche o prato
com
sonhos de vitrine
4
Não
há mágica nas palavras
não
há Shakespeare
em
boca atropelada
Não
há mágico
no
espelho trágico
do
palco saqueado
silhueta
contra o pano
(que
esconde a realidade do trabalho)
Mas
o viver ainda escorre
das
cidades ilhadas
no
coração da metrópole
feito
sangue espesso de facada
ou
lágrimas de chumbo
A
dor prepara o cenário do dilúvio
Hamilton Carvalho
(in Subversos, 2012)
