Textos variados de Hamilton Carvalho. (Só crônicas: vidacambaia.blogspot.com. Só poesia: subversos-subversos.blogspot.com e antecipada.blogspot.com)
terça-feira, 22 de novembro de 2016
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Pernambués
A voz e as vozes na noite
com certa alegria. O chão
sobe como um corcoveio.
A moça de saltos altos
é mais leve que o estrangeiro
e seus sapatos cambaios.
Uma cachaça no aguardo,
a amizade como antiga,
o vibrar do ar musical
sob os sovacos, a argila
das paredes milagrosas:
inaugura-se o convívio,
o insuspeitado convívio.
A noite é de todo dia.
2
Onde estariam os gatos,
os cães? Onde os percevejos,
as libélulas, o medo
atento dos socavões?
Hamilton Carvalho
(in subversos-subversos.blogspot.com)terça-feira, 25 de outubro de 2016
De pé quebrado
Não tenho fixação por métrica. Mas, antes que eu passasse a escrever
aquilo que poderia considerar poesia, me impus um “treinamento” mais ou menos
longo: conhecer, em regra, o “martírio” de bater os dedos a contar sílabas. A
tal ponto que cheguei a não precisar mais contar sílabas em poemas curtos ou no
início de alguns mais longos, embora procurasse, às vezes, ajustá-las: os
versos saíam medidos, por hábito ou “de ouvido”, por causa do ritmo viciado.
Não é o caso do poema abaixo; pouquíssimas vezes usei o hendecassílabo.
Escrevi
o poema sentado num banco da Praça Cívica voltado para a descida da Avenida Araguaia, em Goiânia. Depois de ter andado quilômetros a pé, por ruas e avenidas de
Goiânia e de Aparecida de Goiânia, saltei de um ônibus na Praça Cívica. (Narraria
essa experiência em crônica com cara de ficção.) Já ao me levantar do assento, senti que o pé
direito não obedecia ao comando do cérebro. Tinha “esfriado”. Arrastando o pé
morto, aos pulos, cheguei ao banco da praça. Escrevi o poema, para “dar um tempo”.
Fiquei
em dúvida com relação à métrica. Versos de 11 sílabas têm a acentuação tônica
nas segunda, quinta, oitava e décima primeira sílabas, se você for rigoroso. Eu
não tinha condições, ali, bestamente, de ser rigoroso. Optei pela lição, mais
flexível, do gramático Domingos Paschoal Cegalla – juntei mais duas opções: quinta e décima
primeira; terceira, sétima e décima primeira. Mesmo assim, o último verso
seria pé-quebrado, isto é, não se enquadraria nos cânones.
Mas
era exatamente o que eu queria dizer, sem inversões, adaptações, contorções. A
métrica que se foda. Era a queda de duas personagens masculinas marcantes de
Victor Hugo fundidas numa só. Quebre a métrica, eu me disse. Mas deixe a
Esmeralda de fora. Foi o que fiz. E hoje me ocorre que então me sentia com o pé
quebrado. Fechou.
Por
que me lembro agora desse poema? Não vem ao caso.
Quasímodo
Enigma será a palavra que gravo
na parede antiga de intensos silêncios
quando já não há nem pátios nem milagres
nem o carrilhão louco nas altas torres
Turbilhão alegre do povo na praça
e eu patético me embeveço olhando a dança
e no desengonço meu divirto a massa
Depois mudo e só cruzo sombrios átrios
para viver meu tormento e minha dor
Tudo é grande e lancinante aqui no peito
em que ecoa como os sinos a paixão
Sinto ainda o morno corpo nos meus braços
e há uma vontade tanta que machuca
Subo então às altas torres sempre minhas
nas ásperas pedras inscrevo este nome
este nome trágico que me resume
eu Quasímodo numa queda absoluta
Hamilton Carvalho
(24/10/2016)quarta-feira, 5 de outubro de 2016
É preciso ser justo
Poema “renegado”, escrito há séculos, que às vezes me
vem à cabeça
É preciso ser justo
na medida implacável do tempo
presente
Não apenas colher frutos
mas também compreender
a existência das sementes
o gesto
a elaboração
o movimento da matéria
Proclamar princípios
não é ainda
mover a pedra fundamental
muito menos
encaixá-la com as demais peças
do edifício solto no ar
Semear não basta
há o momento da rega
E um gesto
não é o significado
do outro gesto
na medida do tempo presente
Se compreendo porém
a espiral deste mundo no espaço
em algum ponto da vida
gesta-se o futuro
de mim
que venho lá de trás
de outra geração
noutra hora do cultivo
terça-feira, 13 de setembro de 2016
Poeta é fingidor
Finge tão
completamente, claro. Hoje, ao procurar na bagunça de casa um jornal com a
entrevista que fiz há anos com um dos atuais candidatos a prefeito de Goiânia
(não achei), dei de cara com velho caderninho. Nele um (sofrido) soneto datado de outubro
de 1973 que fala em rugas. Poesia é ficção.
No circo
Tuas mãos neste
rosto que sofreu
não contam rugas,
acarinham só.
Teus dedos rasgam
o suor e o pó
mas a máscara
ainda não cedeu.
No picadeiro busco
algo de meu,
não acho, o riso
está no povo só.
A serragem amarga,
o amargo pó
em que piso, o meu
ser ela sorveu.
Por detrás da
cortina tu me esperas:
mas a máscara eu
trago ao bastidor
e insisto em ser
palhaço para ti.
É que lá fico
ainda, exposto às feras
e às cadeiras
vazias... E só a dor
e a amargura te
fazem rir aqui.
segunda-feira, 20 de junho de 2016
A foto
A foto não é
feia, gripada,
e desgrenhada, e
suja das ruas.
E não tem nada
disso ou daquilo.
É só ela, com o sorriso dela.
Hamilton Carvalho
(20/6/2016)domingo, 15 de maio de 2016
[No Facebook]
PULO DO GATO
(grátis)
Um dos recursos
formais de que gosto na elaboração de poema metrificado (nos não metrificados
isso é muito fácil) é usar, conscientemente, rimas que não têm cara de rimas, e
nem digo das toantes, que por hábito ou instinto, sei lá, vêm no embalo das
palavras e da possível emoção que elas buscam transmitir. Apesar de gostar
delas, não abuso delas, para não banalizá-las no conjunto de meus escritos. Há
um tipo, em especial, que sobrevive apenas em uns três pequenos poemas menores
(não anoto quando esse tipo de rima me ocorre ou, quando anoto, elimino
depois). Tenho certeza de dois desses poemas, publicados em blogs que mantenho.
Em vez de usar a tônica da rima na última palavra do verso, uso na penúltima
palavra. Por força, a última palavra é uma sílaba átona. O leitor sente “algo”, mesmo sem identificar o recurso. Eis as estrofes em que isso ocorre
(observem: “vendo as” com “amêndoas” e “cáqui” com “há que”).
Do livro Subversos:
Engulo imagens
dissímeis
e sofro mais que ela
vendo as
fotos de veias
rompidas
e de pânicas
amêndoas.
Do livro A Canção Antecipada:
Não, mas não ainda as
chamas
de um ateneu
deletério.
Porque se faz
necessário
andar, atravessar
praças
e sentir o brim da
roupa
em seu aroma e em seu
cáqui.
Porque há o
impositivo,
a irredutibilidade.
Não, mas ainda não.
Há que
se ter domínio das
chamas.
(Hamilton Carvalho)
(15/5/2016)sábado, 9 de abril de 2016
O nome dela
O nome dela é
como se fosse
palavra obscena.
O nome dela
exclui o corpo dela,
o que é dela.
O nome dela é palavra
obscena,
não diz da mente
dela.
Não posso dizer
o nome dela.
Mas abraço o
corpo dela
e não digo o
nome dela,
é palavra
obscena.
Hamilton Carvalho
(9/4/2016)
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