terça-feira, 25 de outubro de 2016

De pé quebrado


Não tenho fixação por métrica. Mas, antes que eu passasse a escrever aquilo que poderia considerar poesia, me impus um “treinamento” mais ou menos longo: conhecer, em regra, o “martírio” de bater os dedos a contar sílabas. A tal ponto que cheguei a não precisar mais contar sílabas em poemas curtos ou no início de alguns mais longos, embora procurasse, às vezes, ajustá-las: os versos saíam medidos, por hábito ou “de ouvido”, por causa do ritmo viciado. Não é o caso do poema abaixo; pouquíssimas vezes usei o hendecassílabo.
Escrevi o poema sentado num banco da Praça Cívica voltado para a descida da Avenida Araguaia, em Goiânia. Depois de ter andado quilômetros a pé, por ruas e avenidas de Goiânia e de Aparecida de Goiânia, saltei de um ônibus na Praça Cívica. (Narraria essa experiência em crônica com cara de ficção.) Já ao me levantar do assento, senti que o pé direito não obedecia ao comando do cérebro. Tinha “esfriado”. Arrastando o pé morto, aos pulos, cheguei ao banco da praça. Escrevi o poema, para “dar um tempo”.
Fiquei em dúvida com relação à métrica. Versos de 11 sílabas têm a acentuação tônica nas segunda, quinta, oitava e décima primeira sílabas, se você for rigoroso. Eu não tinha condições, ali, bestamente, de ser rigoroso. Optei pela lição, mais flexível, do gramático Domingos Paschoal Cegalla – juntei mais duas opções: quinta e décima primeira; terceira, sétima e décima primeira. Mesmo assim, o último verso seria pé-quebrado, isto é, não se enquadraria nos cânones.
Mas era exatamente o que eu queria dizer, sem inversões, adaptações, contorções. A métrica que se foda. Era a queda de duas personagens masculinas marcantes de Victor Hugo fundidas numa só. Quebre a métrica, eu me disse. Mas deixe a Esmeralda de fora. Foi o que fiz. E hoje me ocorre que então me sentia com o pé quebrado. Fechou.
Por que me lembro agora desse poema? Não vem ao caso.


Quasímodo

Enigma será a palavra que gravo
na parede antiga de intensos silêncios
quando já não há nem pátios nem milagres
nem o carrilhão louco nas altas torres
Turbilhão alegre do povo na praça
e eu patético me embeveço olhando a dança
e no desengonço meu divirto a massa
Depois mudo e só cruzo sombrios átrios
para viver meu tormento e minha dor
Tudo é grande e lancinante aqui no peito
em que ecoa como os sinos a paixão
Sinto ainda o morno corpo nos meus braços
e há uma vontade tanta que machuca
Subo então às altas torres sempre minhas
nas ásperas pedras inscrevo este nome
este nome trágico que me resume
eu Quasímodo numa queda absoluta

Hamilton Carvalho
(24/10/2016)

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

É preciso ser justo

Poema “renegado”, escrito há séculos, que às vezes me vem à cabeça

É preciso ser justo
na medida implacável do tempo presente

Não apenas colher frutos
mas também compreender
a existência das sementes
o gesto
a elaboração
o movimento da matéria

Proclamar princípios
não é ainda
mover a pedra fundamental
muito menos
encaixá-la com as demais peças
do edifício solto no ar

Semear não basta
há o momento da rega

E um gesto
não é o significado
do outro gesto
na medida do tempo presente

Se compreendo porém
a espiral deste mundo no espaço
em algum ponto da vida
gesta-se o futuro
de mim
que venho lá de trás
de outra geração
noutra hora do cultivo

(Hamilton Carvalho)