terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Uma canção antecipada

 Primeiro prêmio (em dinheiro, ufa!) de concurso da UCG (hoje PUC-GO) e publicado no Diário da Manhã na ocasião, talvez início de 1990. Eu não era aluno nem funcionário da UCG. Encenado no teatro de arena da universidade por um grupo do qual, infelizmente, não me lembro do nome.

 

Uma canção para nada

 

 

O sonho está sentado na praça

comigo sob a árvore.

Na árvore nodosa as formigas sobem

estão quase sem destino

na árvore sem frutos.

Mas há sombra

a sombra ganha a tarde inteira

o que só interessa a mim

e ao sonho que sonha em mim.

 

Não estou muito para nada

pensativo demais para nada

nada em excesso para nada.

O sol caustica e daqui

é como se estivesse lá fora.

O sol caustica e aqui

é um dentro aconchegante.

Meu sonho tem uma árvore inteira

nele atravessada

a árvore com seus galhos

e seus pássaros empalhados.

 

O sonho sofre na praça

cada galho é uma forca

cada folha um bilhete sem desígnios

eu mesmo me componho

assim para uma foto ou uma notícia

assim a espera na antessala.

O sonho é apenas algo que se tem

e é quando o sonho é tudo.

O sonho é só todo um mergulho

nada mais o sonho pode ser

nada mais se pode ser.

A árvore sofre a minha presença na praça

a passagem da tarde sofre

tal uma eternidade.

Cada pássaro canta

a cor cinza de cada nota.

A gota inopinada

será sem dúvida

uma lágrima.

A sombra esfria súbito

feito um calafrio.

No meu abraço não há ninguém

além de mim.

Na forca dos galhos

não há ninguém além de mim

nas folhas e seus oráculos

não há senão o vácuo

que se apossa de mim

que se assenta na praça

que sonha por mim

que canta ante o silêncio

repentino dos pássaros.

 

 

Hamilton Carvalho

sábado, 18 de outubro de 2025

Cenários

 

Nada de mágico nas palavras

nada de mágica

com o estertor

 

A dor sobe ao palco

e rouba a cena

o cenário

o mágico

e ainda leva de quebra

o contrarregra

que volta para casa

na mortalha da tragédia

 

2

Num canto de cozinha

assoma a ponta dura

dos joelhos de um menino

com um prato de nada no colo.

É meio tarde na noite

mas há um cadáver na sala.

No quarto

brinquedos quebrados

estuque úmido

e o cheiro remoto da urina

impregnada no colchão.

Mais nada

além do retrato amarelo

e inútil

numa carteira de trabalho.

 

3

A crise é mesmo assim

dona menina:

a banca é rota

e não advoga nada

os bastidores eram tudo

mas não alimentavam

 

A vida é assim

esse menino:

os brinquedos envelhecem

mas ainda se brinca

e se enche o prato

com sonhos de vitrine

 

4

Não há mágica nas palavras

não há Shakespeare

em boca atropelada

 

Não há mágico

no espelho trágico

do palco saqueado

silhueta contra o pano

 

(que esconde a realidade do trabalho)

 

Mas o viver ainda escorre

das cidades ilhadas

no coração da metrópole

feito sangue espesso de facada

ou lágrimas de chumbo

 

A dor prepara o cenário do dilúvio

 

 

Hamilton Carvalho

(in Subversos, 2012)

domingo, 25 de maio de 2025

Nós e ao redor de nós

 

                                                                                                        [Blog Farpas Pombalinas (Portugal)]

Entre você e mim

há o melhor de nós;

ao redor de nós,

outros melhores que não somos

nos destecem,

e não somos nó dos outros

para que nos desatem

ou apertem.

 

Você difere de mim na essência,

que bom,

e é por isso que somos cada um,

e cada um ama cada um

em tecedura,

inteiros apartados,

e nosso encontro é agendado

para todos os dias,

quando pego um pouco

e você pega um pouco do melhor 

(bom ou nem tanto)

que faz liga

e exubera entre nós.

 

 

23/5/2025
Hamilton Carvalho

terça-feira, 15 de abril de 2025

Ipasgo: privatiza que melhora

Cara de Bruno Magalhães D'Abadia no site do instituto


O presidente do Ipasgo Saúde, Bruno Magalhães D'Abadia, mente descaradamente em documento oficial (“Carta ao beneficiário, em que estabelece que o pagamento das coparticipações ESTARÁ restabelecido em 4 de abril em e-mail enviado no dia 12, querendo enganar com a volta no tempo) ao afirmar que, “... com relação às coparticipações referentes a 2024 e INÍCIO de 2025, OS VALORES SERÃO COBRADOS DE FORMA PARCELADA”. (Os destaques em maiúsculas são meus.) Ele afirma isso ao tratar da coparticipação em consultas e exames que o Ipasgo teria deixado de cobrar desde agosto de 2024, com a “competência” de um serviço público privatizado.

Assinei autorização de débito em conta de mensalidades para o dia 10 de cada mês. A cobrança de consultas e exames médicos é feita individualmente, na medida em que tais consultas e exames são realizados e informados pelas clínicas, que pedem confirmação de débito em conta da parte que cabe ao “beneficiário”, que tem a opção de pagar no ato de atendimento.

Pois mandaram um pacote de coparticipações de JANEIRO (que, suponho, é início de ano) para os lançamentos futuros do banco, pacote a ser debitado AMANHÃ, dia 15, inclusive a cobrança de um exame feito em NOVEMBRO, o que, por si só, determina a nulidade de toda essa palhaçada. Inviabilizam o pagamento de um erro que não foi meu: não encontrarão saldo. Outra mentira do deslumbrado presidente: “As parcelas estarão disponíveis a partir de 5 de MAIO de 2025 COM PAGAMENTO A PARTIR DO DIA 15.”

Entrei em contato com o Ipasgo por meio dos canais a que pude ter acesso e me informaram, coerentemente, apenas o que podia ser informado, ou seja, em conformidade com a “Carta” do aéreo e desinformado presidente. Fui empurrado até a Ouvidoria, que me abriu um corredor polonês de burocracia de volta aos mesmos “canais” que já havia consultado, porque assim são os “procedimentos”.

Vejam os prints, se tiverem paciência.

 

 

14/4/2025

Hamilton Carvalho