domingo, 19 de dezembro de 2021

Para Elza

 


 









porque não tem sido fácil

te levo de mim pedaços

a cada tempo da vida

de agora, não do passado,

que é um mosaico quebrado

(sem rejunte que restaure).

 

vão uma palavra, um gesto,

um esgar talvez sorriso

ou mesmo uma gargalhada,

algo que acolhas, suave,

em casual tête-à-tête

entre sucos e confeitos.

 

o amor não está em nada

e nos cobre como tenda

no tempo todo de agora,

feito abrigo ou lucidez

em minhas vãs tempestades

ou lutas contra moinhos.

 

e tudo me vale a pena

quando me comparto assim,

à luz de íntegra beleza.

e parto para as batalhas,

e dou o melhor de mim,

e já não será difícil.

 

 

18/12/2021

Hamilton Carvalho

domingo, 31 de outubro de 2021

Sede













espremer versos não é bom

saem ácidos

como se o cérebro fosse limão

 

ponho na cachaça e bebo

e os esqueço

os versos liquefeitos

 

mas não é bom

 

faço que me amanheça de ressaca

e desentranho versos tristes e longos

 

é quando escrevo com o estômago

e suas lembranças de fome

e chãos degradados

e pessoas que amei e ainda amo

 

e não é bom

 

então devoro versos aleatórios

de outros ou do que me resto

fragmentado

grafite em pontes e viadutos

ou quadro restaurado

Dorian Gray em leilão

subtraído de acervo clandestino

de dores e paixões

 

escrevo como quem fui

 

e isso não é bom e é falso

 

e o soslaio sou eu

vulto tombado sobre o ego

com sede de mim

 

 

31/10/2021

Hamilton Carvalho

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Paralelas

 


 

tua rua não é a que trafego

nem onde me trafico ao infinito,

sob neblinas e sóis.

tua rua é de um mundo paralítico,

a minha é o movimento da matéria:

 

não se esgota no topo dos objetos

nem dos arranha-céus,

tem voz e tem comando,

seu fim não é o vislumbre de uma esquina,

pois busca o vasto céu hegeliano

que se pressente para além das nuvens.

 

a tua só ocorre se não chove,

e sempre meramente paralela.

 

 

Hamilton Carvalho

(31/8/2021)

terça-feira, 13 de julho de 2021

Em memória de Lênin




 Há quase um século me boto de olho
nesse futuro, o mesmo.
(O não se arrepender do vir é assim,
nos passos de vem menos e vai mais,
passos em frente e atrás.)
 
Nos hemisférios tudo é convenção,
como orquídeas suarentas nas estufas.
Guatemalas frutíferas e weekends
e outras coisas de Asturias
são descontinuação que continua.
 
Como morrer, se não temos mais tempo?
Como preencher os vácuos da memória
se não há mais espaço?
E como agasalhar todos os sonhos
se somos indigentes?
 
Não, não nos reneguemos, camaradas.
Pois a festa de pão e rosas urge,
necessidade histórica.
E sonhar sem escrúpulos
é ter que perseguir cada um dos sonhos.
 
Hamilton Carvalho
(12/7/2021)

domingo, 4 de julho de 2021

Tua voz

 Não, não é que eu não goste de te ouvir;

é que é direito meu não te escutar.

A voz me absurda por tanto estupor,

mas o que dizes não é o que me podes.

 

Porque não me conjugo, e és o perdido

verbo amar. E não te ouço nem te escuto

ou te ouço por amor, inadequado.

Sou o mais que perfeito no gerúndio.

 

Sim. O tempo nos rege ao jeito dele,

e o verbo é tua boca antes do beijo

eternamente por vir que não vem.

 

Tua voz basta de sublime, amada.

Não me exijas, ou culpes, ou canceles.

É tua voz agora ou não é nada.

 

 

Hamilton Carvalho

(2/7/2021)

terça-feira, 9 de março de 2021

Mensagem



Não é você quem redige

nem é você quem envia.

Você se lembra da fonte

sem passado e sem presente

(vem de trás como futuro)

que você nega lembrar

e é fato que persevera.

 

Nem é você quem recebe

nem é você que a faz cinzas.

Você é sem fatos e atos

meramente quer sofrer

como se fosse do acaso

o gesto de receber.

 

 

Hamilton Carvalho

9/3/2021

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Há muito


 

há muito que eu queria dizer

muito tempo e muitas coisas

se esperei tanto espero mais

se tento engolir o bocado que me engasgue

você se borra de maquiagem na calçada porque chove

e a chuva é de nada porque você chora

 

amei você de doer com minhas cachaças e meus sonrisais

amei assim porque só sei fazer besteira em vez de abraçar

e quando abraço não abarco

 

porque amei no barraco mofado

porque comemos no bandejão do RU terceirizado

porque pichamos descalços para não deixar marcas no keds

e para depois esquentar nossos pés juntos indigentes

 

amei porque não havia alternativa

há muito quero dizer

 

 

21/2/2021

Hamilton Carvalho

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Todo dizer


Todo dizer é sem medo,

me medo quando te digo.

Te digo fica comigo,

e vem um desassossego.

Então não te digo e digo,

estou meio que no meio.

 

Eu.

 

Todo dizer tem resposta,

menos quando me respondes.

E respondes vai embora,

e não sei por que caminho.

Então te digo e não digo,

fazendo ares de complexo.

 

 

Hamilton Carvalho

(6/2/2021)