sexta-feira, 3 de abril de 2015

Idealismo e democracia

No início de fevereiro, uma garota me calçou depois de ler uma de minhas intervenções inconsequentes no Twitter. Ela teclou:

 Temos que ter em mente que o PT está no governo, mas não tem o poder. Este continua com a elite.

Tropiquei, no sentido baiano do termo, e fui no embalo:

– Exato. Não tenho ilusão de classe. O que quer dizer que o PT no poder não é o povo no poder.

Ela foi enfática, em caixa-alta:

– EU NÃO DISSE QUE O PT ESTÁ NO PODER. Ele está APENAS NO GOVERNO e tenta fazer o que pode pelo povo.

Com aquele jeito falso (e irritante) de quem concorda, e escrevendo classe no singular para economizar caráter (sem trocadilho), pontifiquei:

– Exato. O PT apenas administra para a classe que está no poder.

Mas as coisas não devem ser reduzidas a tuítes e retuítes, como papeizinhos presos em pernas de pombo-correio para determinar o rumo de uma ação imediata.

Apesar do exuberante idealismo, a moça não tinha como explicar a que diabo de poder ela se referia, nem muito menos como exercê-lo. Disse poder em geral, como poderia ter dito democracia em geral, pois não suponho, de forma nenhuma, que ela almeje, conscientemente, uma ditadura em particular, um tipo de Estado. O partido que ela tão ardorosamente defende está “apenas” no governo.

E aqui voltamos ao texto anterior. Ou melhor: ao desejo expresso nele.

Ter posição definida ao lado dos explorados não é fácil. Você chama para a briga aqueles que têm longa, secular experiência na dominação, que envolve a exploração do trabalho, a repressão aberta ou dissimulada em “segurança pública”, o acesso ao conhecimento e aos meios usados em benefício dessa dominação e crenças e preconceitos inculcados cotidianamente, criando a ilusão de que as artes e as ciências e o bem-estar são bens universais ao alcance de todos. Ou seja, a democracia tem valor universal, porque engloba tudo isso e mais alguma coisa a que todos, igualmente, têm direito, mesmo que, de fato, a maioria não tenha direito a porra nenhuma ou se veja constantemente ameaçada de perder algumas das poucas conquistas alcançadas a duras penas.

Ora, ter posição definida na luta de classes ao lado dos oprimidos, sentindo-se um deles ou não, é ser claramente a favor de uma ditadura em particular: a democracia proletária. Isto é – para não irritar aqueles que possam alegar que não existem mais pessoas úteis tão somente para procriar –, a democracia dos pobres, daqueles que, hoje, não são donos do que produzem.

Não se pode falar de democracia para todos numa sociedade dividida em classes, em explorados e exploradores. E não se poderá falar de democracia para ninguém quando não houver classes. Isso é mais do que reconhecido e discutido – e mais do que sentido pelos oprimidos –, mas muita gente não entende o seu alcance porque não se pergunta: democracia para quem?

A minha idealista contraditora do início deste texto intuiu a essência do problema, ao situar, de um lado, um partido político de extração popular e, de outro, os exploradores, a “elite”. Apenas intuiu. Porque as classes sociais são representadas por partidos, e é por meio dos partidos que elas chegam ao poder, ou seja, só assim elas governam. Para isso, o partido tem que expressar a ideologia dominante, e os partidos pequeno-burgueses fazem isso muito bem, e em alguns momentos até se superam nesse papel coadjutor.

Governar sem estar no poder, fazendo “o que pode”, só mesmo se Deus ou a burguesia quiser. Puro, puríssimo idealismo.

 

Hamilton Carvalho

(3/4/2015)

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Dias atrás, um ano depois da postagem deste artigo, a moça voltou ao assunto no Twitter. Escrevi algo assim, não sei bem como foi: "De novo?" E mandei o link desta página.

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