sexta-feira, 14 de março de 2014

Estou assim como se no patíbulo / O homem é uma fruta


                                                                                                      [Ricardo Geier]

           
                1

A ponte pertinho da água
tão perto que espremia a sombra
a sombra cada vez mais densa
mas a água tinha pontinhas de luz
a água enrugando-se tem luz.
E até onde a ponte não permite a queda,
segurando-nos pelo peito,
eu não fazia o poema.
Eu nem sequer chorava.
O vento secava a saliva de meus lábios
a palavra seca estalava
feito galho pisado numa floresta incinerada.
Eu dizia: Amor me toma pelos braços
mas na verdade sentia a morte nas pernas
uma dor aguda me arrancava a próstata
e eu tinha vontade de comer jabuticaba
à margem do córrego.
Eu não queria saltar a balaustrada
a água estava muito perto
e com a aparência fria de noite que chega ao ar livre.


                    1

O homem pisa no concreto
nem sabe que existe
faz conjeturas e ousa devaneios
curva-se diante duma planta
e a esmaga depois com as mãos.
Na virilha dos dedos a seiva
um verde que adentra poros e veias.
O homem redivive no crime
nem se soubera morto ou fraco
nem se soubera finito ou gente
apenas carrega o medo
um encontro no dia seguinte.
Mas o homem não larga a ponte
e consigo tem a saudade da planta
porque ele fez o estar e o que passou.
O homem cimenta as próprias emoções
mas também faz pontes
e também procura plantas
só que para no meio da ponte
e esmaga a planta.
E ei-lo que se esquece se esquecendo
pelo medo mediterrâneo de ser.


                               2

Não faço o poema
nem sequer me imagino em pranto.
Edito uma postura e saio
ato as palavras e as atiro ao fundo.
Ao fundo de quê? Do nada
que multiplico e deduzo de mim.
As palavras tecidas compõem a antenoite
fluem como o escuro
ou como a água embaixo da ponte
como o escuro que chega
como a água que passa
ou como o que sou e se acaba.
Foi sonho querer inovar
o gesto é lento e maduro
é o mesmo bordado
é o mesmo traçado
mas a cor uma só
um vermelho de sangue e carne crua.
Nem sequer imagino o poema
ele é uma gengiva impregnada
de ideias
com uma risca de sangue
que o dentifrício adultera.


                               2

O homem é tão real quanto uma lágrima
mas sonha impossível o impossível
e quase grita de desespero
quando não encontra no finito a saída.
Frio de existir
água gelada nas têmporas
há uma chuva fininha no vento.
Perfume de ervas arrancadas
pelo dente dos animais
um ruminar vivências e desaconchegos
as estradas são opção no corpo do medo.
A mão próxima que escapa
o galvanizar dos desencontros
na mesma ponte do viver
porque o ser se estratifica para além do ser
e se mira ruínas de si e do outro
pois o homem não é só
uma coluna que resiste única no tempo.
O homem é a ponte para o outro e para si.
O homem é mais real que o mundo.



                               3


Meus dedos estão lívidos no parapeito
a poesia não existe
gaze na ferida recém-aberta.
Logo me vejo ali e me sinto entre mesas
minha geração na voz dos Beatles
nascente feito sangue aos borbotões.
Alguém me bolina nos rins
esqueço o choro que me coça o nariz
e me ergo como o pênis numa ereção sem promessa.
Não peço nada além de um canto
os olhos porém são ávidos de resposta
e as mãos procuram o copo
a garganta quer um gole e um grito.
E eu grito acima da ponte e de mim
sou tão pequeno e a ponte sem trânsito.
Todas as insuficiências me chegam
infladas de hipocrisia alheia
e me premiam com afável sorriso
quando o que quero é carne, sangue
algo violentamente humano e próximo
em que a gente toca e ao qual se transporta.



                               3

O homem é a concreção de si
um cruzamento de estrias e passos
um caminho desandado
um ermo.
O homem é o homem sem propósito
um pedaço de ponte caído na água
a palavra errada nos lábios mais certos.
O homem é um sacolejar de vísceras
promessa de amor promessa de amor
e um repente de solidão e agonia
a única arma é o suicídio
que repousa inquieto nas mãos.
Um dito sem resposta é o homem
o poema é o dito impossível
e o verso está na conta do sonho
e nada é como é: sério.
E o homem brinca consigo
crê apenas que morre um dia
mas a dor em ser é a maior
e é ao mesmo tempo a quimera.
O homem é uma merda qualquer
e vale por si a grandeza de tudo
até a luz no fim do túnel.


                               4

Não é preciso ter-me beijado
para saber do amargo.
Basta um olhar ou um verso de soslaio
uma letra numa cripta ou um exame de urina
um calendário marcado
uns lábios que não aceitam compromissos falsos.
Nem é preciso buscar-me à ponte
para saber da inclinação à morte
não cultivo estações nem gozo nas coxas
sou agudo nas intenções concretas
já pronto para as recusas querentes.
Não é preciso ter-me encontrado bêbado
para saber da embriaguez
acumulo porres e vômitos históricos
minha filosofia está grudada nos dedos
e não se pode esperar que eu a traia num brado alcoólico.
Não é preciso querer-me beijar
só quero curtir uma vulva intumescida.



                               4

O homem se pôs concreto na pista
visualizou-se maneiras e tiques
esborrachou a cara do terror sob os pneus
internou-se na clínica
comeu alface e fez metafísica.
O homem estalou feito coração envenenado
o ar da cidade é pior que o de insolência
havia um punhado de coisas para fazer
inclusive uma mentira e um gesto premeditado
como verso largamente esperado.
O homem é a redundância das comparações
um ônibus lotado que se inclina na beirada da rua
um urubu visto agasalhado no passado chuvoso.
O homem é uma brita mordida.



                               5

Prefiro falar de mim na curva
porque a derrapada é iminente
e prefiro falar de mim à janela
porque posso me fechar de repente.
Fui animal repulsivo
agora me fito no espelho do rio
sou vaso oblíquo para a bundona do burguês
e sou cacófaton bem posto
e sou piolho no saco
sou punheta dantesca
e sou desprezo aceito e fichado em meu arquivo
mas sou sobretudo um jeito.
Prefiro falar de mim no casulo
porque ainda não tenho asas
e prefiro falar de mim sobre o penhasco
porque o salto é a única coisa palpável.
Fui misteriozinho frívolo
agora sou engano que não se decifra.



                               5


O homem é sonho de mar em alto-mar
e é o desinquieto das sobrancelhas
e o sinaleiro da encruzilhada.
Mas é o desvario da posse
e o irresponsável da paz
e o ruído de um copo quebrando-se.
O homem é a silhueta na ponte
e um sapato na correnteza
um rio abaixo
um fio de leite nos lábios
uma coisa antes do trago
um arrepio insolúvel da carne
o que não devia e não o devir.
O homem é um ser encurralado
a ânsia do retorno e a predisposição do fumo.
Mas é a permanência do outro
e a consciência do que é futuro
e a consequência do que é remédio
e é sobretudo o veneno da demência
e a dissolução do pacto.
O homem é o bode expiatório de si
e um pato.


                               6

Estou é na ponte e não em mim
estou fora de mim com as mãos no bolso
uma sensação de orgasmo na boca
e uma frieza descarada nos pés.
Estou assim como se no patíbulo
e miro a água fragmentando-se em luz rápida
impressão inumana de poesia conceitual
falta de crença e de filosofia
reivindicando o nonsense pelo amor de deus
sou uma espécie de vácuo vestido de negro
talhado como terno torto no cabide
uma claraboia imersa no pranto.
Estou e sou tão desencanto
um faxineiro bebendo à porta do bar e pensando no amanhã.
Vou engolir a ponte.


                               6

O homem é fácil
qualquer algo que se move
um caminhão de mudanças
um animal domesticado.
O homem se espelha na árvore podada
e na poluição dos afogados.
Há dias em que o homem tem repentes
mas é a mesma coisa de sempre
a imobilidade
a estatueta de bronze.
Por incrível o homem é mulher
e tem mania de colecionar selos
e escolher ditaduras.
O homem é uma lágrima na gravura
um espinho na unha
um pontapé nos testículos.
O homem é necessário
é aquilo que se ama
uma imensa ternura
um choque tremendo na nuca.
O homem é uma fruta
a boca que ele mesmo colhe e chupa.

Hamilton Carvalho
(Agosto de 1978 Vida Cultural, órgão do Clube Luso-Brasileiro da Universidade do Colorado em Boulder, EUA, n.os 35, 36 e 37)