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| [Ricardo Geier] |
1
A ponte pertinho da água
tão perto que espremia a
sombra
a sombra cada vez mais densa
mas a água tinha pontinhas de
luz
a água enrugando-se tem luz.
E até onde a ponte não permite
a queda,
segurando-nos pelo peito,
eu não fazia o poema.
Eu nem sequer chorava.
O vento secava a saliva de
meus lábios
a palavra seca estalava
feito galho pisado numa
floresta incinerada.
Eu dizia: Amor me toma pelos
braços
mas na verdade sentia a morte
nas pernas
uma dor aguda me arrancava a
próstata
e eu tinha vontade de comer
jabuticaba
à margem do córrego.
Eu não queria saltar a
balaustrada
a água estava muito perto
e com a aparência fria de
noite que chega ao ar livre.
1
O homem pisa no concreto
nem sabe que existe
faz conjeturas e ousa
devaneios
curva-se diante duma planta
e a esmaga depois com as mãos.
Na virilha dos dedos a seiva
um verde que adentra poros e
veias.
O homem redivive no crime
nem se soubera morto ou fraco
nem se soubera finito ou gente
apenas carrega o medo
um encontro no dia seguinte.
Mas o homem não larga a ponte
e consigo tem a saudade da
planta
porque ele fez o estar e o que
passou.
O homem cimenta as próprias
emoções
mas também faz pontes
e também procura plantas
só que para no meio da ponte
e esmaga a planta.
E ei-lo que se esquece se esquecendo
pelo medo mediterrâneo de ser.
2
Não faço o poema
nem sequer me imagino em
pranto.
Edito uma postura e saio
ato as palavras e as atiro ao
fundo.
Ao fundo de quê? Do nada
que multiplico e deduzo de
mim.
As palavras tecidas compõem a
antenoite
fluem como o escuro
ou como a água embaixo da
ponte
como o escuro que chega
como a água que passa
ou como o que sou e se acaba.
Foi sonho querer inovar
o gesto é lento e maduro
é o mesmo bordado
é o mesmo traçado
mas a cor uma só
um vermelho de sangue e carne
crua.
Nem sequer imagino o poema
ele é uma gengiva impregnada
de ideias
com uma risca de sangue
que o dentifrício adultera.
2
O homem é tão real quanto uma
lágrima
mas sonha impossível o
impossível
e quase grita de desespero
quando não encontra no finito
a saída.
Frio de existir
água gelada nas têmporas
há uma chuva fininha no vento.
Perfume de ervas arrancadas
pelo dente dos animais
um ruminar vivências e
desaconchegos
as estradas são opção no corpo
do medo.
A mão próxima que escapa
o galvanizar dos desencontros
na mesma ponte do viver
porque o ser se estratifica
para além do ser
e se mira ruínas de si e do
outro
pois o homem não é só
uma coluna que resiste única
no tempo.
O homem é a ponte para o outro
e para si.
O homem é mais real que o
mundo.
3
Meus dedos estão lívidos no
parapeito
a poesia não existe
gaze na ferida recém-aberta.
Logo me vejo ali e me sinto
entre mesas
minha geração na voz dos
Beatles
nascente feito sangue aos
borbotões.
Alguém me bolina nos rins
esqueço o choro que me coça o
nariz
e me ergo como o pênis numa
ereção sem promessa.
Não peço nada além de um canto
os olhos porém são ávidos de
resposta
e as mãos procuram o copo
a garganta quer um gole e um
grito.
E eu grito acima da ponte e de
mim
sou tão pequeno e a ponte sem
trânsito.
Todas as insuficiências me
chegam
infladas de hipocrisia alheia
e me premiam com afável
sorriso
quando o que quero é carne,
sangue
algo violentamente humano e
próximo
em que a gente toca e ao qual se
transporta.
3
O homem é a concreção de si
um cruzamento de estrias e
passos
um caminho desandado
um ermo.
O homem é o homem sem
propósito
um pedaço de ponte caído na
água
a palavra errada nos lábios
mais certos.
O homem é um sacolejar de
vísceras
promessa de amor promessa de
amor
e um repente de solidão e
agonia
a única arma é o suicídio
que repousa inquieto nas mãos.
Um dito sem resposta é o homem
o poema é o dito impossível
e o verso está na conta do
sonho
e nada é como é: sério.
E o homem brinca consigo
crê apenas que morre um dia
mas a dor em ser é a maior
e é ao mesmo tempo a quimera.
O homem é uma merda qualquer
e vale por si a grandeza de
tudo
até a luz no fim do túnel.
4
Não é preciso ter-me beijado
para saber do amargo.
Basta um olhar ou um verso de
soslaio
uma letra numa cripta ou um
exame de urina
um calendário marcado
uns lábios que não aceitam
compromissos falsos.
Nem é preciso buscar-me à
ponte
para saber da inclinação à
morte
não cultivo estações nem gozo
nas coxas
sou agudo nas intenções
concretas
já pronto para as recusas
querentes.
Não é preciso ter-me
encontrado bêbado
para saber da embriaguez
acumulo porres e vômitos
históricos
minha filosofia está grudada
nos dedos
e não se pode esperar que eu a
traia num brado alcoólico.
Não é preciso querer-me beijar
só quero curtir uma vulva
intumescida.
4
O homem se pôs concreto na
pista
visualizou-se maneiras e
tiques
esborrachou a cara do terror
sob os pneus
internou-se na clínica
comeu alface e fez metafísica.
O homem estalou feito coração
envenenado
o ar da cidade é pior que o de
insolência
havia um punhado de coisas
para fazer
inclusive uma mentira e um
gesto premeditado
como verso largamente
esperado.
O homem é a redundância das
comparações
um ônibus lotado que se
inclina na beirada da rua
um urubu visto agasalhado no
passado chuvoso.
O homem é uma brita mordida.
5
Prefiro falar de mim na curva
porque a derrapada é iminente
e prefiro falar de mim à
janela
porque posso me fechar de
repente.
Fui animal repulsivo
agora me fito no espelho do
rio
sou vaso oblíquo para a
bundona do burguês
e sou cacófaton bem posto
e sou piolho no saco
sou punheta dantesca
e sou desprezo aceito e
fichado em meu arquivo
mas sou sobretudo um jeito.
Prefiro falar de mim no casulo
porque ainda não tenho asas
e prefiro falar de mim sobre o
penhasco
porque o salto é a única coisa
palpável.
Fui misteriozinho frívolo
agora sou engano que não se
decifra.
5
O homem é sonho de mar em
alto-mar
e é o desinquieto das
sobrancelhas
e o sinaleiro da encruzilhada.
Mas é o desvario da posse
e o irresponsável da paz
e o ruído de um copo
quebrando-se.
O homem é a silhueta na ponte
e um sapato na correnteza
um rio abaixo
um fio de leite nos lábios
uma coisa antes do trago
um arrepio insolúvel da carne
o que não devia e não o devir.
O homem é um ser encurralado
a ânsia do retorno e a
predisposição do fumo.
Mas é a permanência do outro
e a consciência do que é
futuro
e a consequência do que é
remédio
e é sobretudo o veneno da
demência
e a dissolução do pacto.
O homem é o bode expiatório de
si
e um pato.
6
Estou é na ponte e não em mim
estou fora de mim com as mãos
no bolso
uma sensação de orgasmo na
boca
e uma frieza descarada nos
pés.
Estou assim como se no
patíbulo
e miro a água fragmentando-se
em luz rápida
impressão inumana de poesia
conceitual
falta de crença e de filosofia
reivindicando o nonsense pelo
amor de deus
sou uma espécie de vácuo
vestido de negro
talhado como terno torto no
cabide
uma claraboia imersa no
pranto.
Estou e sou tão desencanto
um faxineiro bebendo à porta
do bar e pensando no amanhã.
Vou engolir a ponte.
6
O homem é fácil
qualquer algo que se move
um caminhão de mudanças
um animal domesticado.
O homem se espelha na árvore
podada
e na poluição dos afogados.
Há dias em que o homem tem repentes
mas é a mesma coisa de sempre
a imobilidade
a estatueta de bronze.
Por incrível o homem é mulher
e tem mania de colecionar
selos
e escolher ditaduras.
O homem é uma lágrima na
gravura
um espinho na unha
um pontapé nos testículos.
O homem é necessário
é aquilo que se ama
uma imensa ternura
um choque tremendo na nuca.
O homem é uma fruta
a boca que ele mesmo colhe e
chupa.
Hamilton Carvalho
Hamilton Carvalho
(Agosto de 1978 – Vida Cultural, órgão do Clube
Luso-Brasileiro da Universidade do Colorado em Boulder, EUA, n.os
35, 36 e 37)
