terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Sartriana


Que me importa eu
se o outro é você?
Que me importa a merda,
se estamos nela você e eu?

Não é fácil, amiga,
nunca poderia ser fácil.

Eu me curvo,
e culpo você.
Qual é a graça
de me culpar
se a culpa é de todo eu?

Hamilton Carvalho
(9/12/2014)

sábado, 16 de agosto de 2014

Soneto

Não é que eu fique triste, ou me deprima.
É que às vezes me curvo sobre mim,
e você, que venero, está acima
do que não tem começo nem tem fim.

Não é que eu me exiba ou que faça esgrima.
É que às vezes você não é um sim,
nem pode ser não, nem mesmo uma rima,
algo que justifique amor assim.

Mas não estou no meio ou no dilema.
Estou posto no âmago da vida,
que se resolve e em si já é suprema.

É que vejo você acontecida,
não como a chave de ouro de um poema,
mas o peso de noite maldormida.

(13/8/2014)

domingo, 18 de maio de 2014

Direitos autorais, morais etc.


Descumprir leis, tudo bem. Em certos casos, a gente faz que não vê, porque são “tantas coisinhas miúdas”, soterradas pela vida, que não tem sentido brigar por causa delas. Ser legalista às vezes dói. Sem falar que legislador tem mania de ao pé da letra, mas sempre faz uma contrapartidazinha para a letra ficar com uma perna maior e precisar de muleta do outro lado. Tacam lá: “Caracteriza-se como tal coisa a ação tal, desde que...” O desde-que deixa tamanha brecha que há quem acredite que o melhor é “administrar” as coisas e tirar proveito delas, pois, sem-vergonhamente, caráter existe mesmo é para se ausentar.
Mas façamos “de conta que o tempo passou”, e passou tão bem que endireitou toda a legislação do planeta, ajustando-a primorosamente à vida, à realidade, às necessidades humanas. É então que nos damos conta de que existe, chamejante como a espada do rei Artur, uma lei chamada “do direito autoral”, a navegar, soberana, no éter dos céus do Brasil (sem, todavia, ser etérea).
Agora, sim, nada de descumprir lei. Os músicos – antigamente “esses moços, pobres moços” – estão garantidos. Não são mais (só) românticos, nem diletantes, nem pedintes de “incentivos culturais”. São “operários em construção” – embora o termo operário pegue muito mal em intelectual e avacalhe com os calos alheios.
Suponhamos que tudo seja de fato assim mesmo: músicos produzindo e recebendo pelo que produzem. A cultura se enriquece, o espírito das massas se amplia e o povo passa a “cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”, ainda que pague imposto e tenha de tolerar Djavan (que não é o autor do trecho entre aspas).
Eis a viger, em toda a plenitude, a augusta Lei do Direito Autoral.
Só que, admitamos, ela é um tanto presunçosa. Quer ir além do estômago dos autores e passa a tratar também da parte moral. A lei chegou até aqui todo-poderosa; agora não o é mais. Ela é durona – ainda de acordo com a nossa suposição, que está mais para cínica do que para cênica – quanto aos aspectos materiais, mas não pode fazer nada no que diz respeito à moralidade dos tempos e das têmperas.
Um dos direitos morais do criador preconizados pela 9.610 é “o de ter seu nome, pseudônimo ou sinal convencional indicado ou anunciado, como sendo o do autor, na utilização de sua obra”. Afora o horrível “como sendo”, o tempero moral não chega a arder ou fazer que a pressão arterial suba.
Acontece que moral não se bota, feito ovo. Não há decreto que faça canalha moralizar-se. Não há dever moral que se determine por lei. Então, cria-se jurisprudência. E, assim, todos nós, transgressores e transgredidos, ficamos numa boa, na harmonia do deixa pra lá.
As rádios – particularmente as FMs ditas de classe A ou classes A e B – não informam o nome dos autores das músicas, nem antes nem depois da execução, muito menos anunciam, o que pressupõe a informação antes da execução. Depois que são tocadas três ou quatro músicas, irrompe em nossos ouvidos a voz cavernosa de um homem ou a xaroposa de uma mulher informando o nome dos intérpretes – a começar pela derradeira executada, o que endoidece qualquer entendimento. E isso, ainda por cima, só até determinada hora da noite. A partir daí – e nos fins de semana –, nem autores nem intérpretes têm o direito moral respeitado. Antes da lei, bem antes, o nome dos autores – que raramente gravavam as próprias músicas – era reconhecido pelo público.
Até hoje se ouve falar de Evaldo Gouveia, Jair Amorim, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Cartola, Pixinguinha – e mais um punhado. Antigamente, anunciava-se a canção de um desconhecido Tom Jobim em parceria com Dolores Duran, uma estrela, sem o menor constrangimento. Sabia-se até o nome de autor de marcha de carnaval, que, pelo fato de arrastar multidão nos salões e nas ruas, caía facilmente no domínio público, e público festivo não se preocupa com memória. Mas era sabido: “Ó abre alas” foi composta por Chiquinha Gonzaga.
Sem rigor de lei, os comunicadores daqueles tempos pareciam cultivar a honestidade intelectual, ou mesmo – vá lá – a ética.
Hoje, dono de veículo de comunicação não respeita compositor. Assim, o público não pode respeitar compositor. Não se pode respeitar o que não se conhece. Nesse caso, descumprir lei não dói. Fica a dormência da omissão.

Hamilton Carvalho
(Notícias de Goiás, n.º 27, 28/12/2006)

sexta-feira, 14 de março de 2014

Estou assim como se no patíbulo / O homem é uma fruta


                                                                                                      [Ricardo Geier]

           
                1

A ponte pertinho da água
tão perto que espremia a sombra
a sombra cada vez mais densa
mas a água tinha pontinhas de luz
a água enrugando-se tem luz.
E até onde a ponte não permite a queda,
segurando-nos pelo peito,
eu não fazia o poema.
Eu nem sequer chorava.
O vento secava a saliva de meus lábios
a palavra seca estalava
feito galho pisado numa floresta incinerada.
Eu dizia: Amor me toma pelos braços
mas na verdade sentia a morte nas pernas
uma dor aguda me arrancava a próstata
e eu tinha vontade de comer jabuticaba
à margem do córrego.
Eu não queria saltar a balaustrada
a água estava muito perto
e com a aparência fria de noite que chega ao ar livre.


                    1

O homem pisa no concreto
nem sabe que existe
faz conjeturas e ousa devaneios
curva-se diante duma planta
e a esmaga depois com as mãos.
Na virilha dos dedos a seiva
um verde que adentra poros e veias.
O homem redivive no crime
nem se soubera morto ou fraco
nem se soubera finito ou gente
apenas carrega o medo
um encontro no dia seguinte.
Mas o homem não larga a ponte
e consigo tem a saudade da planta
porque ele fez o estar e o que passou.
O homem cimenta as próprias emoções
mas também faz pontes
e também procura plantas
só que para no meio da ponte
e esmaga a planta.
E ei-lo que se esquece se esquecendo
pelo medo mediterrâneo de ser.


                               2

Não faço o poema
nem sequer me imagino em pranto.
Edito uma postura e saio
ato as palavras e as atiro ao fundo.
Ao fundo de quê? Do nada
que multiplico e deduzo de mim.
As palavras tecidas compõem a antenoite
fluem como o escuro
ou como a água embaixo da ponte
como o escuro que chega
como a água que passa
ou como o que sou e se acaba.
Foi sonho querer inovar
o gesto é lento e maduro
é o mesmo bordado
é o mesmo traçado
mas a cor uma só
um vermelho de sangue e carne crua.
Nem sequer imagino o poema
ele é uma gengiva impregnada
de ideias
com uma risca de sangue
que o dentifrício adultera.


                               2

O homem é tão real quanto uma lágrima
mas sonha impossível o impossível
e quase grita de desespero
quando não encontra no finito a saída.
Frio de existir
água gelada nas têmporas
há uma chuva fininha no vento.
Perfume de ervas arrancadas
pelo dente dos animais
um ruminar vivências e desaconchegos
as estradas são opção no corpo do medo.
A mão próxima que escapa
o galvanizar dos desencontros
na mesma ponte do viver
porque o ser se estratifica para além do ser
e se mira ruínas de si e do outro
pois o homem não é só
uma coluna que resiste única no tempo.
O homem é a ponte para o outro e para si.
O homem é mais real que o mundo.



                               3


Meus dedos estão lívidos no parapeito
a poesia não existe
gaze na ferida recém-aberta.
Logo me vejo ali e me sinto entre mesas
minha geração na voz dos Beatles
nascente feito sangue aos borbotões.
Alguém me bolina nos rins
esqueço o choro que me coça o nariz
e me ergo como o pênis numa ereção sem promessa.
Não peço nada além de um canto
os olhos porém são ávidos de resposta
e as mãos procuram o copo
a garganta quer um gole e um grito.
E eu grito acima da ponte e de mim
sou tão pequeno e a ponte sem trânsito.
Todas as insuficiências me chegam
infladas de hipocrisia alheia
e me premiam com afável sorriso
quando o que quero é carne, sangue
algo violentamente humano e próximo
em que a gente toca e ao qual se transporta.



                               3

O homem é a concreção de si
um cruzamento de estrias e passos
um caminho desandado
um ermo.
O homem é o homem sem propósito
um pedaço de ponte caído na água
a palavra errada nos lábios mais certos.
O homem é um sacolejar de vísceras
promessa de amor promessa de amor
e um repente de solidão e agonia
a única arma é o suicídio
que repousa inquieto nas mãos.
Um dito sem resposta é o homem
o poema é o dito impossível
e o verso está na conta do sonho
e nada é como é: sério.
E o homem brinca consigo
crê apenas que morre um dia
mas a dor em ser é a maior
e é ao mesmo tempo a quimera.
O homem é uma merda qualquer
e vale por si a grandeza de tudo
até a luz no fim do túnel.


                               4

Não é preciso ter-me beijado
para saber do amargo.
Basta um olhar ou um verso de soslaio
uma letra numa cripta ou um exame de urina
um calendário marcado
uns lábios que não aceitam compromissos falsos.
Nem é preciso buscar-me à ponte
para saber da inclinação à morte
não cultivo estações nem gozo nas coxas
sou agudo nas intenções concretas
já pronto para as recusas querentes.
Não é preciso ter-me encontrado bêbado
para saber da embriaguez
acumulo porres e vômitos históricos
minha filosofia está grudada nos dedos
e não se pode esperar que eu a traia num brado alcoólico.
Não é preciso querer-me beijar
só quero curtir uma vulva intumescida.



                               4

O homem se pôs concreto na pista
visualizou-se maneiras e tiques
esborrachou a cara do terror sob os pneus
internou-se na clínica
comeu alface e fez metafísica.
O homem estalou feito coração envenenado
o ar da cidade é pior que o de insolência
havia um punhado de coisas para fazer
inclusive uma mentira e um gesto premeditado
como verso largamente esperado.
O homem é a redundância das comparações
um ônibus lotado que se inclina na beirada da rua
um urubu visto agasalhado no passado chuvoso.
O homem é uma brita mordida.



                               5

Prefiro falar de mim na curva
porque a derrapada é iminente
e prefiro falar de mim à janela
porque posso me fechar de repente.
Fui animal repulsivo
agora me fito no espelho do rio
sou vaso oblíquo para a bundona do burguês
e sou cacófaton bem posto
e sou piolho no saco
sou punheta dantesca
e sou desprezo aceito e fichado em meu arquivo
mas sou sobretudo um jeito.
Prefiro falar de mim no casulo
porque ainda não tenho asas
e prefiro falar de mim sobre o penhasco
porque o salto é a única coisa palpável.
Fui misteriozinho frívolo
agora sou engano que não se decifra.



                               5


O homem é sonho de mar em alto-mar
e é o desinquieto das sobrancelhas
e o sinaleiro da encruzilhada.
Mas é o desvario da posse
e o irresponsável da paz
e o ruído de um copo quebrando-se.
O homem é a silhueta na ponte
e um sapato na correnteza
um rio abaixo
um fio de leite nos lábios
uma coisa antes do trago
um arrepio insolúvel da carne
o que não devia e não o devir.
O homem é um ser encurralado
a ânsia do retorno e a predisposição do fumo.
Mas é a permanência do outro
e a consciência do que é futuro
e a consequência do que é remédio
e é sobretudo o veneno da demência
e a dissolução do pacto.
O homem é o bode expiatório de si
e um pato.


                               6

Estou é na ponte e não em mim
estou fora de mim com as mãos no bolso
uma sensação de orgasmo na boca
e uma frieza descarada nos pés.
Estou assim como se no patíbulo
e miro a água fragmentando-se em luz rápida
impressão inumana de poesia conceitual
falta de crença e de filosofia
reivindicando o nonsense pelo amor de deus
sou uma espécie de vácuo vestido de negro
talhado como terno torto no cabide
uma claraboia imersa no pranto.
Estou e sou tão desencanto
um faxineiro bebendo à porta do bar e pensando no amanhã.
Vou engolir a ponte.


                               6

O homem é fácil
qualquer algo que se move
um caminhão de mudanças
um animal domesticado.
O homem se espelha na árvore podada
e na poluição dos afogados.
Há dias em que o homem tem repentes
mas é a mesma coisa de sempre
a imobilidade
a estatueta de bronze.
Por incrível o homem é mulher
e tem mania de colecionar selos
e escolher ditaduras.
O homem é uma lágrima na gravura
um espinho na unha
um pontapé nos testículos.
O homem é necessário
é aquilo que se ama
uma imensa ternura
um choque tremendo na nuca.
O homem é uma fruta
a boca que ele mesmo colhe e chupa.

Hamilton Carvalho
(Agosto de 1978 Vida Cultural, órgão do Clube Luso-Brasileiro da Universidade do Colorado em Boulder, EUA, n.os 35, 36 e 37)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Três crônicas de carnaval


No meio da folia
            
Antes que coleguinha sádico me venha perguntar como foi meu carnaval, vou desconcertá-lo: caí na folia. Como de paraquedas. Na verdade, não fui atrás do carnaval. Foi ele que veio até mim. Ou, digamos, nos encontramos por acaso. Eu me vi no meio do carnaval, ainda que na periferia.
Nem me lembrava dessa festa pagã. Só pensava que não deveria pensar em nada. Saí à procura de um boteco mixuruca, que não tivesse muito movimento, para lavar a caveira e dar sumiço em tenebrosas teias de aranha cerebrais.
Havia muitas mesas na calçada, mas apenas uma estava ocupada. Com três mulheres mais deprimentes que sala de espera de posto de saúde e um sujeito mais chato – se possível – que líder de excursão, daqueles que ficam cantando “Índia teus cabelos, índia teus cabelos, índia teus cabelos” a viagem inteira.
Por incrível que pareça, nessa noite eu não estava com muito espírito de caçador. Estava mesmo era blasé, enjoado, tanto que nem liguei em ficar exposto naquela cadeira à beira de avenida de subúrbio, engolindo fuligem e ouvindo ronco de moto velha, eu, que gosto de cantos escusos, meia-luz, música em surdina e, principalmente, cheiro e gosto de mulher boa.
Nem me ocorria que era antevéspera de carnaval. De repente, uma caminhonete para e o motorista começa a descarregar aparelhos de som.
Com inacreditável lerdeza de raciocínio fui-me desentorpecendo até ficar zonzo com a rapidez com que as mesas foram tomadas. Uma barulheira infernal começou e arrebatadíssimas garotas pularam para a pista improvisada. Continuei imóvel, sem vontade até mesmo de ir embora. Afinal, sou bom voyeur, e ali havia farto material para ser apreciado.
Imagine, leitor desmotivado, no meio daquela explosiva, sensual e arrebatadora alegria, esta sóbria e pálida figura, vestida de preto, barba por fazer, faltando apenas óculos escuros para que a indumentária de funeral ficasse completa...
Sentado ali, cercado de shortinhos meia-bunda, seios trepidantes, odor de mulher molhadinha, mas molhadinha mesmo, de suor, sentado ali deixei o tempo correr. Mas devia ser bem estranho aquele sujeito magro, sisudo, imóvel, bebendo Bavária e fumando Bill (marca de cigarro).
Repentinamente, o som foi interrompido. É que, lá de baixo, na avenida, vinha – acredite – uma escola de samba. Escola de samba com carro alegórico, cabrochas, tudo, até uma esfuziante imitação de Joãozinho Trinta. [O autor acha que “Joãosinho”, com esse, é muita veadagem.]
Em cima de estrado colocado numa caminhonete da década de 60 ou 70 três garotas acenavam gloriosamente para um público deslumbrado. Nesse momento me levantei. Afinal, era preciso reverenciar aqueles bumbuns que faziam sumir a roupa que vestiam.
Em seguida, mais friamente, passei a analisar os frenéticos bumbuns. Um, macérrimo, era jovem e rebolava duro. Outro, já meio para o idoso, era caidaço e rebolava mole. Mas se comportava com muito brio e, como é de preceito, frequentemente se jogava na direção do público. E todas as vezes que isso ocorria eu tinha a impressão de que enorme buldogue me olhava.
Ah, já o terceiro bumbum, este sim. Tem 25 anos de idade e sua dona fuma com moderação e bebe um pouco para o demais, e fala, fala muito, que é para explorar a voz rouquinha, sensual.
Como é que sei disso tudo? Ora, leitor intrometido, o carnaval apenas começava.
A escola se foi avenida afora e o boteco voltou a funcionar a todo o vapor. Com o sangue mais ativo nas veias e nos corpos cavernosos, fui retomando os ímpetos de caçador compulsivo. Passei a observar as cercanias.
As três feias da mesa do chato não eram do tamanho que eu calço. Sem falar que o chato, alternadamente (já que não podia ser simultaneamente), as beijava o tempo todo. E aí, meu irmão, não sou de bater soro nem em saliva.
Como nada neste mundo está perdido, comecei a ser retribuído com alguns olhares. Elas, que dizem que só gostam de “filezinhos”, na prática não sabem dispensar um maduro, porém elegante, cavalheiro solitário.
É claro que eu, que já provoquei muita discórdia entre casais e procuro me regenerar, estava com muito cuidado para não ferir os sentimentos de algum namorado incompetente. Mesmo assim, estava quase sucumbindo ao charme de uma dama acompanhada. O casal acabou brigando. Enquanto ela me lançava olhares, ele me fitava com aquela cara de ejaculação precoce.
Depois o indivíduo passou a tentar a reconciliação, mas não conseguia sequer segurar a mãozinha da amada. Foi então que apareceu, toda saracoteante, a bicha mais tresloucada do pedaço.
“Ela” me conhecia apenas de vista, mas veio com tudo para o meu lado. E me cumprimentou com tanta efusão, como se me conhecesse de intimidades que só reservo para as amadas, que me deixou desarmado. Quando se afastou, vi que o casal, à mesa próxima, bem abraçadinho, olhava para mim rindo sem nenhum pudor.
A garota, acreditando que perdia tempo com suposto enrustido, se reconciliou com o namorado, favas contadas. Disfarcei um pouco e logo me mandei dali. Para não frustrar de todo a minha noite, subi a avenida à procura da dispersão da escola de samba. Mas o que aconteceu depois é outra história, e essa eu não conto.

Hamilton Carvalho
(Gazeta de Goiás, n.º 48, 1.º/3/1998)


Garoto de aluguel

Sem ressaca, de alma limpa (mais ou menos), entro no início de curta semana meio de cintura dura. É que escrevo esta bendita na quarta-feira depois do carnaval, e ainda tenho que dar conta de outros recadinhos.
Estivesse de ressaca, tudo seria mais fácil. Sentiria as vibrações da folia – animadíssimo, portanto, para o cumprimento do dever.
O leitor de memória grata a este cronista de subúrbio sabe que o meu carnaval do ano passado não foi de todo mau. Quebrei umas, entortei outras, apreciei até desfile de escola de samba.
Este ano, zerei-me no catre, livro em punho (livro), e joguei-me em reflexões.
Ora, esse negócio de reflexões é pura frescura. Fiquei mesmo foi pensando (não é o lugar-comum) em outros carnavais. Não tive muitos, o que quer dizer que não pensei muito. Aliás, pensar é hábito besta de quem tem preguiça de produzir.
Lembrei-me, por exemplo, de certo entardecer de carnaval. Sentadão em boteco virado para o poente, pálido e sem perspectiva, arriava-me na melancolia. Além de mim, nada de freguês.
O dono do bar sintonizou uma FM, que naquele tempo somente tocava música, música popular brasileira. [Rádio FM era como TV paga hoje, mas sem “comerciais”; um luxo.] Àquele som, eu modornava com o diabo do solzinho me comendo pelas pernas.
Não tinha apetite nem para a cerva, cuja temperatura subia a olhos vistos. Eu sentia cada centígrado. E o gosto de barata falecida na véspera.
O fato é que estávamos ali, a cerveja e eu, ambos imprestáveis para o carnaval.
Eis que figurinha me cai diante dos olhos e arrasta cadeira e senta. “Oi, belezinha.” Teria preferido que ela dissesse “bonitão”, mas vai ver não captara a essência máscula de minha alma.
Era uma vizinha. Prestava completos e variados serviços na Boate Cafona. Naquele momento, roupinha simples e sem maquiagem, estava mais deliciosa do que quando de plantão.
Não, leitor depravado, nunca a havia derrubado. Na Cafona, eu fazia apenas turismo visual, a recolher “subsídios” para romance que jamais seria escrito. Acredite...
Se quiser. Não estou aqui para dar conta de minha vida privada.
A mocinha, deliciosa, puxou conversinha. Fiquei meio desconfiado com seus modos afáveis, até mesmo aconchegantes. Ela nunca daria bola para sujeitinho inexpressivo como eu. Estava interessada em alguma coisa.
Bebida? Meu deus, ela era puta fina, tinha dinheiro e gosto. Sexo? Ora, sem comentário.
Depois de oferecer e ela aceitar, mandei servir cerveja saidinha do congelador. Não ofereci mais nada, viu?
A bela tomou elegante gole, com dedinho levantado, acendeu um Hollywood, olhou-me pensativamente, boca aberta, da qual escapava lenta e grossa espiral de fumaça, e mandou: “Quero alugar você.”
É claro que a moça teve que repetir a pretensão, e eu tive que rir. Disse-lhe que fizesse a proposta à minha proprietária, que, caso aceitasse, haveria de desalojar-se do meu coração.
Aí ela explicou, sem sequer levar em conta a suposta existência de alguém na minha vida: “É só para brincar o carnaval, só esta noite.” E fez a ressalva: “Nada de sexo, nadinha de sexo, faço questão.”
Mesmo que eu fizesse questão da coisa, aceitei a proposta e todos os seus termos. Ela pagaria as despesas, que representariam o preço do “aluguel”, e eu me comportaria como bom menino, sem pensar em besteira.
O bom menino queria apenas aventura, e à noite estava no boteco, cheiroso e arrumadinho, embora não se vestisse muito adequadamente para cair na folia. Esperou.
E ela apareceu, saia curta e folgada, barriguinha de fora, com ares e jeito de mocinha de família discretamente preparada para o carnaval. Pegamos um táxi, cuja corrida seria paga por ela, e fomos parar num clube distante.
A noite inteira brincamos e suamos de mãozinhas dadas, sem malícia aparente. Éramos irmãos. Até fomos convidados para mesa “de família”, fizemos amizades, e com novos amigos participamos de um cordão de foliões que evoluía pelo salão e liderava a festa.
Ah, leitor carnavalesco, desde certo baile, na infância, não ousava entrar em pista de dança daquele tipo. A dama da noite transformou meu trauma em confete e serpentina. Sacudi o saco pra valer.
Não permiti que ela pagasse despesa. Nós, com nossas carências, nos completamos e fomos felizes por uma noite sem mercantilismo.
Voltamos para nosso bairro de ônibus, diazão comendo solto, nós irmãos no cansaço gostoso e na alegria pura.
Com os sacolejos do veículo por ruas esburacadas, com a sonolência que me desarmava, com a proximidade da garota que cheirava a promessas implícitas, senti o inconfundível formigar. A ereção.
Por um instante, senti-me infame incestuoso. Por um breve instante.

Hamilton Carvalho
(Gazeta de Goiás, n.º 85, 21/2/1999)


Líquido e certo

Ao pé do balcão do Bar e Mercearia Silva, parolava eu com o dono do estabelecimento. O leitor já conhece Tiãozinho, e deve deduzir, de má vontade, que daqui não sairá nada de relevante. “É líquido e certo que lá vem besteira”, dirá a si mesmo. Ora, é carnaval. Um pouco de paciência não custará nada ao leitor solitário que não tem quem o arraste para a folia.
Aproveitei o fim de um dos casos longos e repetitivos do dono do bar para provocá-lo. Lembrei-lhe de fato ocorrido ali em carnaval passado. Para minha surpresa, dessa vez Tiãozinho não se sentiu provocado. Pelo contrário: não me deixou continuar, assenhorando-se da história. Daí a pouco, dois ou três frequentadores do bar entraram na conversa.
Seres humanos costumam formar estranhas confrarias.
O bar do Tião, na parte em que ficam os diminutos balcões e prateleiras, é pequeno e abafado. Do lado de fora há ampla e arejada área com mesas (e cadeiras, claro) que era, naturalmente, o lugar preferido dos fregueses. Eu – como faço sempre que me acontece de cair em bar frequentado quase exclusivamente por machos – ficava junto do balcão, sem intenção de me demorar.
Houve uma inversão. Hoje não é mais assim.
Antes, as pessoas se sentavam do lado fora e faziam seus pedidos aos berros, até perceberem definitivamente que Tião é lerdo e costuma fingir que não ouve enquanto não terminar um caso. Fregueses impacientes passaram, eles mesmos, a vir buscar a cerveja e o tira-gosto. E começou a inversão.
Quando chegava da área para arrancar do comerciante mais uma cerveja ou uma tira de pele de porco, o cliente tinha de esperar o desfecho de um caso que ele era de início obrigado a ouvir. Não adiantava que eu fizesse gestos para que Tião desse uma pausa e atendesse o freguês, que passava a prestar atenção nas babaquices e a rir delas.
Hoje, lá fora, as mesas vivem literalmente às moscas, com exceção de uma ou outra, geralmente quando há mulher. Dentro, homens se amontoam diante dos dois pequenos balcões, plateia ativa e cativa do vendeiro. Já eu passei a ficar mais do lado de fora, empurrado pelo fedor de homem e pela fumaça de WS.
Acredito que, se não fosse pela mulher, que o ajuda no atendimento quando não está na cozinha da casa que fica atrás da mercearia, Tião teria que montar circo para sobreviver ou se dedicar exclusivamente ao pedaço de terra e às vacas que possui.
Por falar em circo, parece que a briga acabou. Até ontem havia dois circos “luxuosamente” armados em meu bairro. Um deles anunciava, por meio de fanhoso alto-falante instalado em Kombi de provecta idade: “Crianças e adultos só paga 5 reais.”
O concorrente, que instalara aparelho de som em algo semelhante a uma Parati, apelou. Ontem, que seria o último dia de ambos os circos na cidade (outra coincidência?), declarava o massacre ao garantir espetáculo “totalmente grátis”.
Confesso que vibrava quando via os carros se cruzarem. Os gritos esganiçados que saíam com entusiasmo sofrido dos alto-falantes davam a impressão de ser da mesma pessoa.
Onde é que eu estava mesmo? Ah, sim.
Em carnaval passado notei quando um casal se sentou a uma mesa. O homem era um solteirão que morava ali perto. Não reconheci a garota. Os dois estavam com os cabelos úmidos, como se tivessem tomado banho juntos. Ele não esperou muito. Já conhecia o modus operandi do dono do lugar. Veio para dentro e aproximou o rosto do de Tião, como se fosse dizer um segredo. Mas todos que estavam no recinto ouvimos.
“Tiãozinho, veja que gata peguei ontem”, disse com um sorrisão, a jogar um polegar por cima do ombro. Depois pediu: “Antes da cerveja, dois Engov, pois neste carnaval vou arrasar.” Meu amigo serviu meio copo de água (ele é econômico) e descascou os comprimidos que havia tirado da gaveta. O homem os colocou na boca, despejou água por cima, engoliu, fechou as mãos e sacudiu os punhos como se comemorasse um gol.
Enquanto me falava do tempo em que trabalhou em fazenda de gado, o botequeiro ia brincando com um dos invólucros do medicamento que lhe ficara entre os dedos. De repente, parou a brincadeira e pronunciou meu nome em tom de alarme. Olhei para o papelzinho. “Lactopurga”.
Tiãozinho ficou apavorado. “E agora, o que é que eu faço?” Retruquei: “Nada; espera pra ver.” Virei-me de costas, apoiei os cotovelos no balcão e olhei para o casal sentado à mesa lá fora, ele com um sorrisão nos lábios. Deliciado (ou invejoso), ainda sentenciei: “É líquido e certo que ele não vai arrastar a moça para a folia.”

Hamilton Carvalho
(Vida Cambaia, 22/2/2012)