No meio da folia
Antes que coleguinha
sádico me venha perguntar como foi meu carnaval, vou desconcertá-lo: caí na
folia. Como de paraquedas. Na verdade, não fui atrás do carnaval. Foi ele que
veio até mim. Ou, digamos, nos encontramos por acaso. Eu me vi no meio do
carnaval, ainda que na periferia.
Nem me lembrava dessa festa pagã. Só pensava que não deveria pensar em
nada. Saí à procura de um boteco mixuruca, que não tivesse muito
movimento, para lavar a caveira e dar sumiço em tenebrosas teias de aranha
cerebrais.
Havia muitas mesas na calçada, mas apenas uma estava ocupada. Com três
mulheres mais deprimentes que sala de espera de posto de saúde e um sujeito
mais chato – se possível – que líder de excursão, daqueles que ficam cantando
“Índia teus cabelos, índia teus cabelos, índia teus cabelos” a viagem inteira.
Por incrível que pareça, nessa noite eu não estava com muito espírito de
caçador. Estava mesmo era blasé, enjoado, tanto que nem liguei em ficar exposto
naquela cadeira à beira de avenida de subúrbio, engolindo fuligem e ouvindo
ronco de moto velha, eu, que gosto de cantos escusos, meia-luz, música em
surdina e, principalmente, cheiro e gosto de mulher boa.
Nem me ocorria que era antevéspera de carnaval. De repente, uma
caminhonete para e o motorista começa a descarregar aparelhos de som.
Com inacreditável lerdeza de raciocínio fui-me desentorpecendo até ficar
zonzo com a rapidez com que as mesas foram tomadas. Uma barulheira infernal
começou e arrebatadíssimas garotas pularam para a pista improvisada. Continuei
imóvel, sem vontade até mesmo de ir embora. Afinal, sou bom voyeur, e ali havia
farto material para ser apreciado.
Imagine, leitor desmotivado, no meio daquela explosiva, sensual e
arrebatadora alegria, esta sóbria e pálida figura, vestida de preto, barba por
fazer, faltando apenas óculos escuros para que a indumentária de funeral
ficasse completa...
Sentado ali, cercado de shortinhos meia-bunda, seios trepidantes, odor
de mulher molhadinha, mas molhadinha mesmo, de suor, sentado ali deixei o tempo
correr. Mas devia ser bem estranho aquele sujeito magro, sisudo, imóvel,
bebendo Bavária e fumando Bill (marca de cigarro).
Repentinamente, o som foi interrompido. É que, lá de baixo, na avenida,
vinha – acredite – uma escola de samba. Escola de samba com carro alegórico,
cabrochas, tudo, até uma esfuziante imitação de Joãozinho Trinta. [O
autor acha que “Joãosinho”, com esse, é muita veadagem.]
Em cima de estrado colocado numa caminhonete da década de 60 ou 70 três
garotas acenavam gloriosamente para um público deslumbrado. Nesse momento me
levantei. Afinal, era preciso reverenciar aqueles bumbuns que faziam sumir a
roupa que vestiam.
Em seguida, mais friamente, passei a analisar os frenéticos bumbuns. Um,
macérrimo, era jovem e rebolava duro. Outro, já meio para o idoso, era caidaço
e rebolava mole. Mas se comportava com muito brio e, como é de preceito,
frequentemente se jogava na direção do público. E todas as vezes que isso
ocorria eu tinha a impressão de que enorme buldogue me olhava.
Ah, já o terceiro bumbum, este sim. Tem 25 anos de idade e sua dona fuma
com moderação e bebe um pouco para o demais, e fala, fala muito, que é para
explorar a voz rouquinha, sensual.
Como é que sei disso tudo? Ora, leitor intrometido, o carnaval apenas
começava.
A escola se foi avenida afora e o boteco voltou a funcionar a todo o
vapor. Com o sangue mais ativo nas veias e nos corpos cavernosos, fui retomando
os ímpetos de caçador compulsivo. Passei a observar as cercanias.
As três feias da mesa do chato não eram do tamanho que eu calço. Sem
falar que o chato, alternadamente (já que não podia ser simultaneamente), as
beijava o tempo todo. E aí, meu irmão, não sou de bater soro nem em saliva.
Como nada neste mundo está perdido, comecei a ser retribuído com alguns
olhares. Elas, que dizem que só gostam de “filezinhos”, na prática não sabem
dispensar um maduro, porém elegante, cavalheiro solitário.
É claro que eu, que já provoquei muita discórdia entre casais e procuro
me regenerar, estava com muito cuidado para não ferir os sentimentos de algum
namorado incompetente. Mesmo assim, estava quase sucumbindo ao charme de uma
dama acompanhada. O casal acabou brigando. Enquanto ela me lançava olhares, ele
me fitava com aquela cara de ejaculação precoce.
Depois o indivíduo passou a tentar a reconciliação, mas não conseguia
sequer segurar a mãozinha da amada. Foi então que apareceu, toda saracoteante,
a bicha mais tresloucada do pedaço.
“Ela” me conhecia apenas de vista, mas veio com tudo para
o meu lado. E me cumprimentou com tanta efusão, como se me conhecesse de
intimidades que só reservo para as amadas, que me deixou desarmado. Quando se
afastou, vi que o casal, à mesa próxima, bem abraçadinho, olhava para mim rindo
sem nenhum pudor.
A garota, acreditando que perdia tempo com suposto enrustido, se
reconciliou com o namorado, favas contadas. Disfarcei um pouco e logo me mandei
dali. Para não frustrar de todo a minha noite, subi a avenida à procura da
dispersão da escola de samba. Mas o que aconteceu depois é outra história, e
essa eu não conto.
Hamilton Carvalho
(Gazeta
de Goiás, n.º 48, 1.º/3/1998)
Garoto de aluguel
Sem ressaca, de alma
limpa (mais ou menos), entro no início de curta semana meio de cintura dura. É
que escrevo esta bendita na quarta-feira depois do carnaval, e ainda tenho que
dar conta de outros recadinhos.
Estivesse de ressaca, tudo seria mais fácil. Sentiria as vibrações da
folia – animadíssimo, portanto, para o cumprimento do dever.
O leitor de memória grata a este cronista de subúrbio sabe que o meu
carnaval do ano passado não foi de todo mau. Quebrei umas, entortei outras,
apreciei até desfile de escola de samba.
Este ano, zerei-me no catre, livro em punho (livro), e joguei-me
em reflexões.
Ora, esse negócio de reflexões é pura frescura. Fiquei mesmo foi
pensando (não é o lugar-comum) em outros carnavais. Não tive muitos, o que quer
dizer que não pensei muito. Aliás, pensar é hábito besta de quem tem preguiça
de produzir.
Lembrei-me, por exemplo, de certo entardecer de carnaval. Sentadão em
boteco virado para o poente, pálido e sem perspectiva, arriava-me na
melancolia. Além de mim, nada de freguês.
O dono do bar sintonizou uma FM, que naquele tempo somente tocava música, música popular brasileira. [Rádio FM era como TV paga hoje, mas
sem “comerciais”; um luxo.] Àquele som, eu modornava com o diabo do
solzinho me comendo pelas pernas.
Não tinha apetite nem para a cerva, cuja temperatura subia a olhos
vistos. Eu sentia cada centígrado. E o gosto de barata falecida na véspera.
O fato é que estávamos ali, a cerveja e eu, ambos imprestáveis para o
carnaval.
Eis que figurinha me cai diante dos olhos e arrasta cadeira e senta.
“Oi, belezinha.” Teria preferido que ela dissesse “bonitão”, mas vai ver não
captara a essência máscula de minha alma.
Era uma vizinha. Prestava completos e variados serviços na Boate Cafona.
Naquele momento, roupinha simples e sem maquiagem, estava mais deliciosa do que
quando de plantão.
Não, leitor depravado, nunca a havia derrubado. Na Cafona, eu fazia
apenas turismo visual, a recolher “subsídios” para romance que jamais seria
escrito. Acredite...
Se quiser. Não estou aqui para dar conta de minha vida privada.
A mocinha, deliciosa, puxou conversinha. Fiquei meio desconfiado com
seus modos afáveis, até mesmo aconchegantes. Ela nunca daria bola para
sujeitinho inexpressivo como eu. Estava interessada em alguma coisa.
Bebida? Meu deus, ela era puta fina, tinha dinheiro e gosto. Sexo? Ora,
sem comentário.
Depois de oferecer e ela aceitar, mandei servir cerveja saidinha do
congelador. Não ofereci mais nada, viu?
A bela tomou elegante gole, com dedinho levantado, acendeu um Hollywood,
olhou-me pensativamente, boca aberta, da qual escapava lenta e grossa espiral
de fumaça, e mandou: “Quero alugar você.”
É claro que a moça teve que repetir a pretensão, e eu tive que rir.
Disse-lhe que fizesse a proposta à minha proprietária, que, caso aceitasse,
haveria de desalojar-se do meu coração.
Aí ela explicou, sem sequer levar em conta a suposta existência de
alguém na minha vida: “É só para brincar o carnaval, só esta noite.” E fez a
ressalva: “Nada de sexo, nadinha de sexo, faço questão.”
Mesmo que eu fizesse questão da coisa, aceitei a
proposta e todos os seus termos. Ela pagaria as despesas, que representariam o
preço do “aluguel”, e eu me comportaria como bom menino, sem pensar em
besteira.
O bom menino queria apenas aventura, e à noite estava no boteco,
cheiroso e arrumadinho, embora não se vestisse muito adequadamente para cair na
folia. Esperou.
E ela apareceu, saia curta e folgada, barriguinha de fora, com ares e
jeito de mocinha de família discretamente preparada para o carnaval. Pegamos um
táxi, cuja corrida seria paga por ela, e fomos parar num clube distante.
A noite inteira brincamos e suamos de mãozinhas dadas, sem malícia
aparente. Éramos irmãos. Até fomos convidados para mesa “de família”, fizemos
amizades, e com novos amigos participamos de um cordão de foliões que evoluía
pelo salão e liderava a festa.
Ah, leitor carnavalesco, desde certo baile, na infância, não ousava
entrar em pista de dança daquele tipo. A dama da noite transformou meu trauma
em confete e serpentina. Sacudi o saco pra valer.
Não permiti que ela pagasse despesa. Nós, com nossas carências, nos
completamos e fomos felizes por uma noite sem mercantilismo.
Voltamos para nosso bairro de ônibus, diazão comendo solto, nós irmãos
no cansaço gostoso e na alegria pura.
Com os sacolejos do veículo por ruas esburacadas, com a sonolência que
me desarmava, com a proximidade da garota que cheirava a promessas implícitas,
senti o inconfundível formigar. A ereção.
Por um instante, senti-me infame incestuoso. Por um breve instante.
Hamilton Carvalho
(Gazeta de Goiás, n.º
85, 21/2/1999)
Líquido e certo
Ao pé do balcão do Bar
e Mercearia Silva, parolava eu com o dono do estabelecimento. O leitor já
conhece Tiãozinho, e deve deduzir, de má vontade, que daqui não sairá nada de
relevante. “É líquido e certo que lá vem besteira”, dirá a si mesmo. Ora, é
carnaval. Um pouco de paciência não custará nada ao leitor solitário que não
tem quem o arraste para a folia.
Aproveitei o fim de um dos casos longos e repetitivos do dono do bar
para provocá-lo. Lembrei-lhe de fato ocorrido ali em carnaval passado. Para
minha surpresa, dessa vez Tiãozinho não se sentiu provocado. Pelo contrário:
não me deixou continuar, assenhorando-se da história. Daí a pouco, dois ou três
frequentadores do bar entraram na conversa.
Seres humanos costumam formar estranhas confrarias.
O bar do Tião, na parte em que ficam os diminutos balcões e prateleiras,
é pequeno e abafado. Do lado de fora há ampla e arejada área com mesas (e
cadeiras, claro) que era, naturalmente, o lugar preferido dos fregueses. Eu –
como faço sempre que me acontece de cair em bar frequentado quase
exclusivamente por machos – ficava junto do balcão, sem intenção de me demorar.
Houve uma inversão. Hoje não é mais assim.
Antes, as pessoas se sentavam do lado fora e faziam seus pedidos aos
berros, até perceberem definitivamente que Tião é lerdo e costuma fingir que
não ouve enquanto não terminar um caso. Fregueses impacientes passaram, eles
mesmos, a vir buscar a cerveja e o tira-gosto. E começou a inversão.
Quando chegava da área para arrancar do comerciante mais uma cerveja ou
uma tira de pele de porco, o cliente tinha de esperar o desfecho de um caso que
ele era de início obrigado a ouvir. Não adiantava que eu fizesse gestos para
que Tião desse uma pausa e atendesse o freguês, que passava a prestar atenção
nas babaquices e a rir delas.
Hoje, lá fora, as mesas vivem literalmente às moscas, com exceção de uma
ou outra, geralmente quando há mulher. Dentro, homens se amontoam diante dos
dois pequenos balcões, plateia ativa e cativa do vendeiro. Já eu passei a ficar
mais do lado de fora, empurrado pelo fedor de homem e pela fumaça de WS.
Acredito que, se não fosse pela mulher, que o ajuda no atendimento
quando não está na cozinha da casa que fica atrás da mercearia, Tião teria que
montar circo para sobreviver ou se dedicar exclusivamente ao pedaço de terra e
às vacas que possui.
Por falar em circo, parece que a briga acabou. Até ontem havia dois
circos “luxuosamente” armados em meu bairro. Um deles anunciava, por meio de
fanhoso alto-falante instalado em Kombi de provecta idade: “Crianças e adultos
só paga 5 reais.”
O concorrente, que instalara aparelho de som em algo semelhante a uma
Parati, apelou. Ontem, que seria o último dia de ambos os circos na cidade
(outra coincidência?), declarava o massacre ao garantir espetáculo “totalmente
grátis”.
Confesso que vibrava quando via os carros se cruzarem. Os gritos
esganiçados que saíam com entusiasmo sofrido dos alto-falantes davam a
impressão de ser da mesma pessoa.
Onde é que eu estava mesmo? Ah, sim.
Em carnaval passado notei quando um casal se sentou a uma mesa. O homem
era um solteirão que morava ali perto. Não reconheci a garota. Os dois estavam
com os cabelos úmidos, como se tivessem tomado banho juntos. Ele não esperou
muito. Já conhecia o modus operandi do dono do lugar. Veio
para dentro e aproximou o rosto do de Tião, como se fosse dizer um segredo. Mas
todos que estavam no recinto ouvimos.
“Tiãozinho, veja que gata peguei ontem”, disse com um sorrisão, a jogar
um polegar por cima do ombro. Depois pediu: “Antes da cerveja, dois Engov, pois
neste carnaval vou arrasar.” Meu amigo serviu meio copo de água (ele é
econômico) e descascou os comprimidos que havia tirado da gaveta. O homem os
colocou na boca, despejou água por cima, engoliu, fechou as mãos e sacudiu os
punhos como se comemorasse um gol.
Enquanto me falava do tempo em que trabalhou em fazenda de gado, o
botequeiro ia brincando com um dos invólucros do medicamento que lhe ficara
entre os dedos. De repente, parou a brincadeira e pronunciou meu nome em tom de
alarme. Olhei para o papelzinho. “Lactopurga”.
Tiãozinho ficou apavorado. “E agora, o que é que eu faço?” Retruquei:
“Nada; espera pra ver.” Virei-me de costas, apoiei os cotovelos no balcão e
olhei para o casal sentado à mesa lá fora, ele com um sorrisão nos lábios.
Deliciado (ou invejoso), ainda sentenciei: “É líquido e certo que ele não vai
arrastar a moça para a folia.”
Hamilton Carvalho
(Vida
Cambaia, 22/2/2012)