domingo, 27 de agosto de 2023

A carga


                                                                                   [Jens Rademacher/Unsplash]


  

 

Estou que me escondo contrabando.

 

Sim, Cassandra,

não mais predigo catástrofes,

estamos gastos.

Já fui gângster em Detroit

e viajei

até Monterey,

estive de passagem

na rua das ilusões perdidas,

ali no bairro da lata,

e sei como seria foda

morrer de overdose em Nova York,

não na Califórnia de Steinbeck.

 

Com o olhar para além da popa

tudo o que levo

é de amor a granel

distribuído em contêineres,

inexpressivo,

sem trademark

e sem destino.

 

 

(21/8/2023)

 

 Hamilton Carvalho

 

 

———
O romance Cannery Row (1945), do estadunidense John Steinbeck (1902-1968), tem tradução brasileira, com o título A Rua das Ilusões Perdidas (A. B. Pinheiro de Lemos), e portuguesa, com o título Bairro da Lata (Luiza Maria de Eça Leal).

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Pacto de sangue

                                                             [imagem Depositphotos]


Teus pulsos pusilânimes

me suprem de sangue morno.

A grama seca, o funchal, o pântano,

qualquer canto

em que me escorra e seja plasma morto

bebido em mandacarus.

 

Nem teus olhos,

nem teu nariz.

Tudo é deserto

em luxúria única,

com urubus e bundas

ou o perfume

da boca que não engulo.

Tudo no seu tudo

deserto

e sem vez.

 

Te amo de te amar,

embora me morda vampiro de mim.

E me encontro e me masturbo

quando a estrada que sigo não me segue,

e persegue.

 

E é quando não quero

a não ser tu.

 

O teu sangue morno

que me arranca do que serei.

 

 

22/6/2023

Hamilton Carvalho

domingo, 4 de junho de 2023

Platônica

                                                      [imagem: Vangelis Aragiannis | Dreamstime.com]


Não vai rolar, amiga.
Dói dizer.
Levo uma vida do meu tamanho,
você seria excesso.
 
Dói dizer que desejo e não quero,
embora seja pelo desejo aquilo que me vejo,
pois sem ele o presente é nulo
e a minha sobrevida será um gole de café.
 
Você me inferniza sem ser o meu inferno,
e eu me sonharia o albatroz de Baudelaire.
 
Estou cercado de sós.
 
Não rola, amada.
Nem Platão platonizou.
 
 
Hamilton Carvalho
(2/6/2023)

quarta-feira, 15 de março de 2023

Gilson, 14 de março de 2023

                                                                                            [Divulgação]


Ano passado escrevi, quase brincando, como comentário a uma postagem feita por ele no Facebook:

 

 

PARA GILSON CAVALCANTE

 

 

A vida é o meu lugar,

ele diz (exorcista

e possuído, poeta

e panteísta, fauno)

porque a vida é o lugar.

 

Ele diz porque sabe,

e sábio é viver

como raiz de vida,

não bastará morrer.

Viver é habitar

 

o que perdura e fica

um pouco para sempre

sem ser definitivo.

Então se justifica:

a vida é um lugar.

 

 

6/2/2022

Hamilton Carvalho