terça-feira, 13 de julho de 2021

Em memória de Lênin




 Há quase um século me boto de olho
nesse futuro, o mesmo.
(O não se arrepender do vir é assim,
nos passos de vem menos e vai mais,
passos em frente e atrás.)
 
Nos hemisférios tudo é convenção,
como orquídeas suarentas nas estufas.
Guatemalas frutíferas e weekends
e outras coisas de Asturias
são descontinuação que continua.
 
Como morrer, se não temos mais tempo?
Como preencher os vácuos da memória
se não há mais espaço?
E como agasalhar todos os sonhos
se somos indigentes?
 
Não, não nos reneguemos, camaradas.
Pois a festa de pão e rosas urge,
necessidade histórica.
E sonhar sem escrúpulos
é ter que perseguir cada um dos sonhos.
 
Hamilton Carvalho
(12/7/2021)

domingo, 4 de julho de 2021

Tua voz

 Não, não é que eu não goste de te ouvir;

é que é direito meu não te escutar.

A voz me absurda por tanto estupor,

mas o que dizes não é o que me podes.

 

Porque não me conjugo, e és o perdido

verbo amar. E não te ouço nem te escuto

ou te ouço por amor, inadequado.

Sou o mais que perfeito no gerúndio.

 

Sim. O tempo nos rege ao jeito dele,

e o verbo é tua boca antes do beijo

eternamente por vir que não vem.

 

Tua voz basta de sublime, amada.

Não me exijas, ou culpes, ou canceles.

É tua voz agora ou não é nada.

 

 

Hamilton Carvalho

(2/7/2021)