Finge tão
completamente, claro. Hoje, ao procurar na bagunça de casa um jornal com a
entrevista que fiz há anos com um dos atuais candidatos a prefeito de Goiânia
(não achei), dei de cara com velho caderninho. Nele um (sofrido) soneto datado de outubro
de 1973 que fala em rugas. Poesia é ficção.
No circo
Tuas mãos neste
rosto que sofreu
não contam rugas,
acarinham só.
Teus dedos rasgam
o suor e o pó
mas a máscara
ainda não cedeu.
No picadeiro busco
algo de meu,
não acho, o riso
está no povo só.
A serragem amarga,
o amargo pó
em que piso, o meu
ser ela sorveu.
Por detrás da
cortina tu me esperas:
mas a máscara eu
trago ao bastidor
e insisto em ser
palhaço para ti.
É que lá fico
ainda, exposto às feras
e às cadeiras
vazias... E só a dor
e a amargura te
fazem rir aqui.