Dois sonetos me
marcaram. Tomei conhecimento deles em pequeno livro de ensaios encontrado num
porão (e posteriormente resgatado de um incêndio): Camões, o Bruxo, de Augusto Meyer (1902-1970). A edição é de 1958 (Livraria
São José, Rio).
São
cinco ensaios, a começar pelo que traz o nome do livro, em que o autor comenta,
entre outras coisas, o jogo de combinações vocálicas em ai, io, au, eu,
ei, ou e ia no soneto “Náiades,
vós, que os rios habitais”, assinalando em nota de rodapé que seguia a lição de
Costa Pimpão (1902-1984) para o primeiro verso do primeiro terceto:
Náiades,
vós, que os rios habitais
Que
os saudosos campos vão regando,
De
meus olhos vereis estar manando
Outros,
que quase aos vossos são iguais.
Dríades,
vós, que as setas atirais,
Os
fugitivos cervos derrubando,
Outros
olhos vereis, que triunfando
Derrubam
corações, que valem mais.
Deixai
a aljava logo, e as águas frias,
E
vinde, Ninfas minhas, se quereis
Saber
como de uns olhos nascem mágoas.
Vereis
como se passam em vão os dias;
Mas
não vireis em vão, que cá achareis
Nos
seus as setas, e nos meus as águas.
O
último estudo do livro é todo dedicado a um soneto de Sá de Miranda (1481-1558).
Para a análise, Meyer segue integralmente a lição de Rodrigues Lapa (1897-1989),
embora apresente mais quatro versões do poema, comentando-as. Ele observa: “A
hesitação das lições reproduz de algum modo a própria hesitação do autor, que
enveredava pelos atalhos das variantes, numa verdadeira doença de escrúpulos.”
Apoiando-me na edição de 1960 de Poesias
Escolhidas (Editora Itatiaia, Belo Horizonte), com seleção, prefácio e
notas do professor Rodrigues Lapa, coloquei “sombras” no primeiro verso do primeiro
terceto e ponto e vírgula no fim do segundo verso do último terceto, em vez de,
respectivamente, “sombra”, no singular, e dois-pontos, como está em Meyer.
O
sol é grande, caem co’a calma as aves,
do
tempo em tal sazão, que soe ser fria;
esta
água que d’alto cai acordar-m’-ia
do
sono não, mas de cuidados graves.
Ó
cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual
é tal coração qu’em vós confia?
Passam
os tempos, vai dia trás dia,
incertos
muito mais que ao vento as naves.
Eu
vira já aqui sombras, vira flores,
vi
tantas águas, vi tanta verdura,
as
aves todas cantavam d’amores.
Tudo
é seco e mudo; e, de mestura,
também
mudando-m’eu fiz doutras cores;
e
tudo o mais renova, isto é sem cura!
É
verdade: estes poemetos (com decassílabos que fariam arrepiar um bom parnasiano)
marcaram a minha vida de versejador. Nunca diria – nem saberia dizer, se isso
fosse possível – quais são os meus autores favoritos em toda a literatura que
cabe no mundo, ou apenas no meu pequeno universo. Não para ocultar de eventual leitor
alguma influência. É que realmente não sei. Agora, não tenho receio de dar,
aqui e ali, uma ou outra pista do pouco que li, como se isso tivesse
importância para quem quer que seja. Então? Há indícios de Sá de Miranda e Luís
de Camões na composição abaixo, retirada do meu livrinho (inédito em papel) Subversos. O poema se chama “No côncavo da noite”.
Estrelas estalactites
no côncavo da noite
Uma nave navega feito besouro
e meu coração é uma Beirute
e partilha seus conflitos
nos subúrbios em ruína
Ficar triste faz parte de mim
meus momentos de bomba H me redimem
Mas então amo a noite
sem qualquer razão
e faço minha Baixa Idade Média
para renascer de repente
Meus dentes sorriem sorrisos de séculos
e não duram mais que minutos
apenas para romper a pátina
de meus velhos objetos
Há um brilho intenso entre as sombras
as sombras frias dos corredores da
história
onde um Colombo louco
encontra uma pedra américa
pedra nel mezzo
e minhas Índias ficam para outrora
Mas circum-navego para aqui
e aqui é meu destino depois do mar
Um sonho guardo na raiz das pirâmides
amar as tágides de Camões
às margens transbordantes do Nilo
náiades vós que os rios habitais
e fazer um discurso triunfal de posse
antes que os faraós votem meu
impeachment
e Rosencreutz desapareça
nas ruas lisboetas
Fiat lux com fósforo multimídia
que fascina meus olhos de hipnose
e transmigro tal a pomba da paz
para uma interdita Palestina
e não adianta nada que Kissinger
trace os destinos econômicos da China
pois que falo português brasileiro
e não sei traduzir o paideuma de Pound
Mas ando solitário
por Matacavalos
capitulado por um beijo na nuca
Passo uma noite na taverna
e escrevo ao escrivão Isaías
que leu sem avidez meus cadernos de
poesia
E caem com tal calma as aves
que a vida me parece fria