Textos variados de Hamilton Carvalho. (Só crônicas: vidacambaia.blogspot.com. Só poesia: subversos-subversos.blogspot.com e antecipada.blogspot.com)
sexta-feira, 10 de abril de 2026
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Uma canção antecipada
Primeiro prêmio (em dinheiro, ufa!) de concurso da UCG (hoje PUC-GO) e publicado no Diário da Manhã na ocasião, talvez início de 1990. Eu não era aluno nem funcionário da UCG. Encenado no teatro de arena da universidade por um grupo do qual, infelizmente, não me lembro do nome.
Uma canção para
nada
O sonho está sentado na praça
comigo sob a árvore.
Na árvore nodosa as formigas sobem
estão quase sem destino
na árvore sem frutos.
Mas há sombra
a sombra ganha a tarde inteira
o que só interessa a mim
e ao sonho que sonha em mim.
Não estou muito para nada
pensativo demais para nada
nada em excesso para nada.
O sol caustica e daqui
é como se estivesse lá fora.
O sol caustica e aqui
é um dentro aconchegante.
Meu sonho tem uma árvore inteira
nele atravessada
a árvore com seus galhos
e seus pássaros empalhados.
O sonho sofre na praça
cada galho é uma forca
cada folha um bilhete sem desígnios
eu mesmo me componho
assim para uma foto ou uma notícia
assim a espera na antessala.
O sonho é apenas algo que se tem
e é quando o sonho é tudo.
O sonho é só todo um mergulho
nada mais o sonho pode ser
nada mais se pode ser.
A árvore sofre a minha presença na
praça
a passagem da tarde sofre
tal uma eternidade.
Cada pássaro canta
a cor cinza de cada nota.
A gota inopinada
será sem dúvida
uma lágrima.
A sombra esfria súbito
feito um calafrio.
No meu abraço não há ninguém
além de mim.
Na forca dos galhos
não há ninguém além de mim
nas folhas e seus oráculos
não há senão o vácuo
que se apossa de mim
que se assenta na praça
que sonha por mim
que canta ante o silêncio
repentino dos pássaros.
Hamilton Carvalho
