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| [Karl Marx Stencil by LinkTheMissing on DeviantArt] |
“De boas intenções”,
dizia Marx, com seu jeito manso, “o caminho do inferno está calçado.” Em 2015
escrevi e publiquei no blog Tiro na Vidraça dois pequenos textos,
para tentar responder a velhas questões (resolvidas para os marxistas de luta), em
momento de “atordoamento” de alguns jovens. Por sua circunstancialidade, não
receberam tratamento aprofundado, nem cito neles nenhum autor para dar suporte
aos argumentos, embora esteja clara a orientação marxista-leninista. São textos
leves, quase brincalhões. Mas não são motivados apenas por alguma inefável boa
intenção. Nem com o objetivo de “ganhar” as pessoas (como se expressavam há
algumas décadas antigos ativistas que pretendiam organizar um partido
revolucionário “de massas”, com evidente desprezo aos trabalhadores, vagas
entidades passivas e burras) dando suavidade ao marxismo, dourando a luta de
classes, iludindo com a melhoria dos instrumentos perpétuos de dominação. Isso
é coisa de oportunista, não de revolucionário. O revolucionário busca o caminho
árduo da conscientização, ao tempo em que combate, com persistência e senso de oportunidade, as ilusões referendadas e reforçadas pela hipocrisia ou pela boa-fé de quem não
assimilou a teoria que diz defender e leva à prática de militante algo
aceitável para as classes dominantes e para aqueles ideologicamente cativos
delas. [H.C., 30/1/2022]
A pressão ideológica
Seria preciso que me detivesse mais
sobre o tema que pretendo (não sei se vou conseguir) abordar aqui, e refletisse
mais sobre ele, para que o texto fosse conciso e objetivo, e justificasse o
artigo definido do título, tão absoluto.
O caminho mais fácil
é, sem dúvida, começar pela experiência pessoal. Mas, no meu caso, isso não
funcionaria. Tive o “privilégio” de iniciar a militância política durante a
ditadura militar no Brasil. É claro que a ditadura estava ali para defender os
interesses das classes dominantes e do imperialismo, era um estado-maior da
concentração ideológica pela manutenção do capitalismo.
No entanto, os grupos
revolucionários, mesmo com divergências significativas entre si, e apesar do caráter
pequeno-burguês predominante neles, eram “amarrados” pelo fio da luta pela
democracia.
Que democracia?
Veremos depois.
A questão ideológica
não era tão crucial como agora, embora sempre e necessariamente presente.
Eu, por exemplo, não
tinha que me debater com colegas de trabalho e com a família quanto à minha
posição na luta de classes. Dado o secretismo da atuação organizada, o que se
via, no máximo, principalmente na efervescência do movimento estudantil, era
“coisa de jovens” que, com a idade, “sossegariam”. Havia certa tolerância
melosa por parte dos que nos amavam ou daqueles com quem partilhávamos a vida
“normal”.
Ou seja, o “abaixo a
ditadura”, ainda que pudesse resultar em morte, era aceitável. Dizer hoje “viva
a luta pelo socialismo” é coisa de velhos, de dinossauros, de gente perdida no
passado. A pressão ideológica sobre a juventude é tremenda.
O problema é mais
acentuado quando se trata da militância política organizada. A sociedade
burguesa é permeada de organizações – sindicais, religiosas, de jovens, de
mulheres, de minorias em geral. Aceitam-se tais organizações, desde que não
avancem o sinal da ideologia burguesa e mesmo que elas defendam algumas
conquistas que só se efetivarão no socialismo.
Participar de uma
organização ideologicamente definida pode ser motivo de vergonha. A ironia, o
escárnio, o conselheirismo também são armas das classes dominantes, empunhadas
garbosamente pela pequena burguesia “culta”. Aqui se reproduz, mesmo
inconscientemente, uma das características do capitalismo que intimida a
iniciativa, embota a capacidade de discernimento das pessoas, o poder de
decisão delas, seu “livre-arbítrio”.
É assim a “democracia
para todos” – expressão que, em si, já é um contrassenso. Para falar com
propriedade sobre pressão ideológica seria preciso abordar a questão da
democracia “em geral”, a que abstrai a existência da luta de classes. Veremos
depois.
Hamilton Carvalho
(29/3/2015)
Idealismo e democracia
No início de fevereiro, uma garota me calçou depois de ler uma de minhas
intervenções inconsequentes no Twitter. Ela teclou:
– Temos
que ter em mente que o PT está no governo, mas não tem o poder. Este continua
com a elite.
Tropiquei,
no sentido baiano do termo, e fui no embalo:
–
Exato. Não tenho ilusão de classe. O que quer dizer que o PT no poder não é o
povo no poder.
Ela
foi enfática, em caixa-alta:
–
EU NÃO DISSE QUE O PT ESTÁ NO PODER. Ele está APENAS NO GOVERNO e tenta fazer o
que pode pelo povo.
Com
aquele jeito falso (e irritante) de quem concorda, e escrevendo classe no
singular para economizar caráter (sem trocadilho), pontifiquei:
– Exato. O PT apenas administra para a classe que está no
poder.
Mas as coisas não devem ser reduzidas a tuítes e
retuítes, como papeizinhos presos em pernas de pombo-correio para determinar o
rumo de uma ação imediata.
Apesar do exuberante
idealismo, a moça não tinha como explicar a que diabo de poder ela se referia, nem
muito menos como exercê-lo. Disse poder em geral, como poderia ter
dito democracia em geral, pois não suponho, de forma nenhuma, que
ela almeje, conscientemente, uma ditadura em particular, um tipo de
Estado. O partido que ela tão ardorosamente defende está “apenas” no governo.
E aqui voltamos ao texto anterior. Ou melhor: ao
desejo expresso nele.
Ter posição definida ao lado dos explorados não é
fácil. Você chama para a briga aqueles que têm longa, secular experiência na
dominação, que envolve a exploração do trabalho, a repressão aberta ou
dissimulada em “segurança pública”, o acesso ao conhecimento e aos meios usados
em benefício dessa dominação e crenças e preconceitos inculcados
cotidianamente, criando a ilusão de que as artes e as ciências e o bem-estar
são bens universais ao alcance de todos. Ou seja, a democracia tem valor
universal, porque engloba tudo isso e mais alguma coisa a que todos,
igualmente, têm direito, mesmo que, de fato, a maioria não tenha direito a
porra nenhuma ou se veja constantemente ameaçada de perder algumas das poucas
conquistas alcançadas a duras penas.
Ora, ter posição definida na luta de classes ao
lado dos oprimidos, sentindo-se um deles ou não, é ser claramente a
favor de uma ditadura em particular: a democracia proletária. Isto
é – para não irritar aqueles que possam alegar que não existem mais pessoas
úteis tão somente para procriar –, a democracia dos pobres, daqueles que, hoje, não
são donos do que produzem.
Não se pode falar de democracia para todos numa
sociedade dividida em classes, em explorados e exploradores. E não se poderá
falar de democracia para ninguém quando não houver classes. Isso é mais do
que reconhecido e discutido – e mais do que sentido pelos oprimidos –, mas muita gente não
entende o seu alcance porque não se pergunta: democracia para quem?
A minha idealista contraditora do início deste
texto intuiu a essência do problema, ao situar, de um lado, um partido político
de extração popular e, de outro, os exploradores, a “elite”. Apenas
intuiu. Porque as classes sociais são representadas por partidos, e é por meio
dos partidos que elas chegam ao poder, ou seja, só assim elas governam. Para
isso, o partido tem que expressar a ideologia dominante, e os partidos
pequeno-burgueses fazem isso muito bem, e em alguns momentos até se superam
nesse papel coadjutor.
Governar sem estar no poder, fazendo “o que pode”,
só mesmo se Deus ou a burguesia quiser. Puro, puríssimo idealismo.
Hamilton Carvalho
(3/4/2015)