terça-feira, 25 de outubro de 2022

Pouco antes

  

Vou às escuras.

 

O último dos derrotados.

 

Vou sem intuito,

e sem intuitos

não busco nem faço.

 

Porque não há o meu querer,

serão apenas os fatos.

 

Mas fiquei.

Mas em minhas medidas lutei,

e morro como quem quase venceu.

 

Vou às escuras,

mas sempre tenho um pouco mais.

Exijo tempo para morrer,

porque serei aquilo

que faltou sangrar.

 

E fico.

 

E voo.

 

Um pouco mais.

 

 

Hamilton Carvalho

(19/10/2022)

domingo, 30 de janeiro de 2022

Marxismo “na prática”

 

[Karl Marx Stencil by LinkTheMissing on DeviantArt]

 

De boas intenções”, dizia Marx, com seu jeito manso, “o caminho do inferno está calçado.” Em 2015 escrevi e publiquei no blog Tiro na Vidraça dois pequenos textos, para tentar responder a velhas questões (resolvidas para os marxistas de luta), em momento de “atordoamento” de alguns jovens. Por sua circunstancialidade, não receberam tratamento aprofundado, nem cito neles nenhum autor para dar suporte aos argumentos, embora esteja clara a orientação marxista-leninista. São textos leves, quase brincalhões. Mas não são motivados apenas por alguma inefável boa intenção. Nem com o objetivo de “ganhar” as pessoas (como se expressavam há algumas décadas antigos ativistas que pretendiam organizar um partido revolucionário “de massas”, com evidente desprezo aos trabalhadores, vagas entidades passivas e burras) dando suavidade ao marxismo, dourando a luta de classes, iludindo com a melhoria dos instrumentos perpétuos de dominação. Isso é coisa de oportunista, não de revolucionário. O revolucionário busca o caminho árduo da conscientização, ao tempo em que combate, com persistência e senso de oportunidade, as ilusões referendadas e reforçadas pela hipocrisia ou pela boa-fé de quem não assimilou a teoria que diz defender e leva à prática de militante algo aceitável para as classes dominantes e para aqueles ideologicamente cativos delas. [H.C., 30/1/2022]

 

A pressão ideológica

 

Seria preciso que me detivesse mais sobre o tema que pretendo (não sei se vou conseguir) abordar aqui, e refletisse mais sobre ele, para que o texto fosse conciso e objetivo, e justificasse o artigo definido do título, tão absoluto.

O caminho mais fácil é, sem dúvida, começar pela experiência pessoal. Mas, no meu caso, isso não funcionaria. Tive o “privilégio” de iniciar a militância política durante a ditadura militar no Brasil. É claro que a ditadura estava ali para defender os interesses das classes dominantes e do imperialismo, era um estado-maior da concentração ideológica pela manutenção do capitalismo.

No entanto, os grupos revolucionários, mesmo com divergências significativas entre si, e apesar do caráter pequeno-burguês predominante neles, eram “amarrados” pelo fio da luta pela democracia.

Que democracia? Veremos depois.

A questão ideológica não era tão crucial como agora, embora sempre e necessariamente presente.

Eu, por exemplo, não tinha que me debater com colegas de trabalho e com a família quanto à minha posição na luta de classes. Dado o secretismo da atuação organizada, o que se via, no máximo, principalmente na efervescência do movimento estudantil, era “coisa de jovens” que, com a idade, “sossegariam”. Havia certa tolerância melosa por parte dos que nos amavam ou daqueles com quem partilhávamos a vida “normal”.

Ou seja, o “abaixo a ditadura”, ainda que pudesse resultar em morte, era aceitável. Dizer hoje “viva a luta pelo socialismo” é coisa de velhos, de dinossauros, de gente perdida no passado. A pressão ideológica sobre a juventude é tremenda.

O problema é mais acentuado quando se trata da militância política organizada. A sociedade burguesa é permeada de organizações – sindicais, religiosas, de jovens, de mulheres, de minorias em geral. Aceitam-se tais organizações, desde que não avancem o sinal da ideologia burguesa e mesmo que elas defendam algumas conquistas que só se efetivarão no socialismo.

Participar de uma organização ideologicamente definida pode ser motivo de vergonha. A ironia, o escárnio, o conselheirismo também são armas das classes dominantes, empunhadas garbosamente pela pequena burguesia “culta”. Aqui se reproduz, mesmo inconscientemente, uma das características do capitalismo que intimida a iniciativa, embota a capacidade de discernimento das pessoas, o poder de decisão delas, seu “livre-arbítrio”.

É assim a “democracia para todos” – expressão que, em si, já é um contrassenso. Para falar com propriedade sobre pressão ideológica seria preciso abordar a questão da democracia “em geral”, a que abstrai a existência da luta de classes. Veremos depois.

 

Hamilton Carvalho

(29/3/2015)




 













Idealismo e democracia

 

No início de fevereiro, uma garota me calçou depois de ler uma de minhas intervenções inconsequentes no Twitter. Ela teclou:

 Temos que ter em mente que o PT está no governo, mas não tem o poder. Este continua com a elite.

Tropiquei, no sentido baiano do termo, e fui no embalo:

– Exato. Não tenho ilusão de classe. O que quer dizer que o PT no poder não é o povo no poder.

Ela foi enfática, em caixa-alta:

– EU NÃO DISSE QUE O PT ESTÁ NO PODER. Ele está APENAS NO GOVERNO e tenta fazer o que pode pelo povo.

Com aquele jeito falso (e irritante) de quem concorda, e escrevendo classe no singular para economizar caráter (sem trocadilho), pontifiquei:

– Exato. O PT apenas administra para a classe que está no poder.

Mas as coisas não devem ser reduzidas a tuítes e retuítes, como papeizinhos presos em pernas de pombo-correio para determinar o rumo de uma ação imediata.

Apesar do exuberante idealismo, a moça não tinha como explicar a que diabo de poder ela se referia, nem muito menos como exercê-lo. Disse poder em geral, como poderia ter dito democracia em geral, pois não suponho, de forma nenhuma, que ela almeje, conscientemente, uma ditadura em particular, um tipo de Estado. O partido que ela tão ardorosamente defende está “apenas” no governo.

E aqui voltamos ao texto anterior. Ou melhor: ao desejo expresso nele.

Ter posição definida ao lado dos explorados não é fácil. Você chama para a briga aqueles que têm longa, secular experiência na dominação, que envolve a exploração do trabalho, a repressão aberta ou dissimulada em “segurança pública”, o acesso ao conhecimento e aos meios usados em benefício dessa dominação e crenças e preconceitos inculcados cotidianamente, criando a ilusão de que as artes e as ciências e o bem-estar são bens universais ao alcance de todos. Ou seja, a democracia tem valor universal, porque engloba tudo isso e mais alguma coisa a que todos, igualmente, têm direito, mesmo que, de fato, a maioria não tenha direito a porra nenhuma ou se veja constantemente ameaçada de perder algumas das poucas conquistas alcançadas a duras penas.

Ora, ter posição definida na luta de classes ao lado dos oprimidos, sentindo-se um deles ou não, é ser claramente a favor de uma ditadura em particular: a democracia proletária. Isto é – para não irritar aqueles que possam alegar que não existem mais pessoas úteis tão somente para procriar –, a democracia dos pobres, daqueles que, hoje, não são donos do que produzem.

Não se pode falar de democracia para todos numa sociedade dividida em classes, em explorados e exploradores. E não se poderá falar de democracia para ninguém quando não houver classes. Isso é mais do que reconhecido e discutido – e mais do que sentido pelos oprimidos –, mas muita gente não entende o seu alcance porque não se pergunta: democracia para quem?

A minha idealista contraditora do início deste texto intuiu a essência do problema, ao situar, de um lado, um partido político de extração popular e, de outro, os exploradores, a “elite”. Apenas intuiu. Porque as classes sociais são representadas por partidos, e é por meio dos partidos que elas chegam ao poder, ou seja, só assim elas governam. Para isso, o partido tem que expressar a ideologia dominante, e os partidos pequeno-burgueses fazem isso muito bem, e em alguns momentos até se superam nesse papel coadjutor.

Governar sem estar no poder, fazendo “o que pode”, só mesmo se Deus ou a burguesia quiser. Puro, puríssimo idealismo.

 

Hamilton Carvalho

(3/4/2015)