domingo, 15 de maio de 2016

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PULO DO GATO (grátis)

Um dos recursos formais de que gosto na elaboração de poema metrificado (nos não metrificados isso é muito fácil) é usar, conscientemente, rimas que não têm cara de rimas, e nem digo das toantes, que por hábito ou instinto, sei lá, vêm no embalo das palavras e da possível emoção que elas buscam transmitir. Apesar de gostar delas, não abuso delas, para não banalizá-las no conjunto de meus escritos. Há um tipo, em especial, que sobrevive apenas em uns três pequenos poemas menores (não anoto quando esse tipo de rima me ocorre ou, quando anoto, elimino depois). Tenho certeza de dois desses poemas, publicados em blogs que mantenho. Em vez de usar a tônica da rima na última palavra do verso, uso na penúltima palavra. Por força, a última palavra é uma sílaba átona. O leitor sente “algo”, mesmo sem identificar o recurso. Eis as estrofes em que isso ocorre (observem: “vendo as” com “amêndoas” e “cáqui” com “há que”).

Do livro Subversos:

Engulo imagens dissímeis
e sofro mais que ela vendo as
fotos de veias rompidas
e de pânicas amêndoas.

Do livro A Canção Antecipada:

Não, mas não ainda as chamas
de um ateneu deletério.
Porque se faz necessário
andar, atravessar praças
e sentir o brim da roupa
em seu aroma e em seu cáqui.
Porque há o impositivo,
a irredutibilidade.
Não, mas ainda não. Há que
se ter domínio das chamas.

(Hamilton Carvalho)
(15/5/2016)