PULO DO GATO
(grátis)
Um dos recursos
formais de que gosto na elaboração de poema metrificado (nos não metrificados
isso é muito fácil) é usar, conscientemente, rimas que não têm cara de rimas, e
nem digo das toantes, que por hábito ou instinto, sei lá, vêm no embalo das
palavras e da possível emoção que elas buscam transmitir. Apesar de gostar
delas, não abuso delas, para não banalizá-las no conjunto de meus escritos. Há
um tipo, em especial, que sobrevive apenas em uns três pequenos poemas menores
(não anoto quando esse tipo de rima me ocorre ou, quando anoto, elimino
depois). Tenho certeza de dois desses poemas, publicados em blogs que mantenho.
Em vez de usar a tônica da rima na última palavra do verso, uso na penúltima
palavra. Por força, a última palavra é uma sílaba átona. O leitor sente “algo”, mesmo sem identificar o recurso. Eis as estrofes em que isso ocorre
(observem: “vendo as” com “amêndoas” e “cáqui” com “há que”).
Do livro Subversos:
Engulo imagens
dissímeis
e sofro mais que ela
vendo as
fotos de veias
rompidas
e de pânicas
amêndoas.
Do livro A Canção Antecipada:
Não, mas não ainda as
chamas
de um ateneu
deletério.
Porque se faz
necessário
andar, atravessar
praças
e sentir o brim da
roupa
em seu aroma e em seu
cáqui.
Porque há o
impositivo,
a irredutibilidade.
Não, mas ainda não.
Há que
se ter domínio das
chamas.
(Hamilton Carvalho)
(15/5/2016)