Artigo
de apenas quatro calibrados parágrafos me transformou em cronista regular de
jornal. Eu disse várias vezes (e acredito que até por escrito) que não sou
muito chegado a crônicas. Respeitava dois ou três autores nos meus tempos de
garotão no Rio de Janeiro. Aqui, em Goiás, viria a dar a publicar dois ou três
textos que poderiam ser qualificados de crônicas – e os textos só chegaram ao
editor do caderno cultural do diário porque ele se sentava não muito longe de
onde eu labutava com assuntos do cotidiano.
Claro, há exagero aí em cima, no começo. O pequeno artigo –
publicado no n.º 28 de um semanário – só chamou a atenção do dono do jornal em
razão da dificuldade que já enfrentava com a folha de pagamento. O engraçado é
que ficou agradavelmente surpreso ao descobrir na Redação alguém que sabia
escrever. Ora, carambolas. Ele vinha pagando um casal de cronistas (como naqueles anúncios, um casal casado) para
poetizar o caderno voltado para artes e variedades.
O proprietário da empresa (novinha e à beira da falência) mandou
que sondassem este ser insubmisso. Eu me esquivava, até que me enchi e disse a
um preposto: “Não sou diletante, não escrevo de graça.” Encolhi no meu canto,
mas não pude impedir que o casal de cronistas fosse dispensado e os espaços
dele preenchidos com frivolidades de agência. Aproveitaram para dispensar,
também, um articulista de opinião remunerado (“ecológico demais”).
Senti que a coisa ficaria feia para o meu lado quando, certo dia,
o patrão irrompeu na Redação. Sem olhar para ninguém – muito menos para mim –,
engrossou alto: “Jornal sem crônica não é jornal; pra mim não dá, não dá!”
Girou nos calcanhares e rumou para a saída. Ao chegar à porta parou e, sem
olhar para trás: “Não dá.” E sumiu de vez.
Prometeram-me, para quando o semanário se equilibrasse
financeiramente, “um extra” pelas crônicas. A promessa serviu para manter a
minha bruxuleante dignidade. O semanário cresceu, transformou-se em diário, e
nada de extra.
O que me levou a escrever o famigerado artigo?
O editor de política era um sujeitinho chato, superficial e
incompetente. Em dia de fechamento de edição, o desgraçado começava a se coçar
para ir embora às 5 horas da tarde. Quando se tratava de entrevista, por
exemplo, largava gravador e fita com o digitador e se mandava. Em seguida, eu
tinha que fazer a edição, montando a entrevista e reescrevendo o texto de
abertura que o vil elemento deixava como se fosse um favor.
Naquele dia, durante bate-boca dele com o editor de arte,
responsável pela diagramação, percebi que o embromador queria ir embora sem
completar o fechamento da página 2. “Faz qualquer coisa aí pra tapar o buraco”,
pedia o editor de arte. O malcagado relutava.
Peguei a oportunidade para me ver livre dele e do texto que faria.
Era incrivelmente mais fácil e rápido produzir um do que reescrever o dele.
“Pode deixar que resolvo isso.” E, assim, improvisei o artigo da página 2 da
edição de 12 de outubro de 1997 da Gazeta
de Goiás. Ei-lo:
Golpe
de um crônico
Todas
as qualidades do mundo concentram-se numa só pessoa: Fernando Collor de Mello.
Esta é a impressão que poderia ficar (se as pessoas fossem tão imbecis) depois
da leitura do primeiro capítulo do livro Crônica
de um Golpe – A versão de quem viveu o fato. Mas a aversão pelo que viveu o
fato se acentua com a catadupa de adjetivos, arroubos de bravura, “nobreza” de
sentimentos e megalomania derramados em linguagem que pretende ser a de um
“estadista”. (Segundo um editor da Gazeta,
a linguagem do ex-presidente parece a de quem teve formação literária
unicamente à base de “best sellers norte-americanos de banca de jornal”.)
O capítulo foi publicado pela revista Veja, na edição do dia 1.º, que,
por erro de avaliação, tem como destaque de capa João Paulo II. Collor deve
ter-se sentido injustiçado. “Fez-se escuro”, proclamaria. Mas não se dobraria,
pois é um bravo, e manteria aquela postura rígida, como se estivesse empalado.
E Rosane estaria ali, leal e firme, porque nela “se alevantara a tal valentia
sertaneja”, enquanto ambos, de mãos dadas, seguiriam “imparáveis”. (Aliás, já
desconfio que Magri se apossou daquele “imexível”, que, pelo estilão, deve ter
sido criado pelo chefe.)
Não há no texto a mais leve sombra de autocrítica, mesmo daquelas
parciais, oportunistas. E lá se vão adjetivos para reduzir os inimigos a vermes
e “alevantar” às alturas o gênio da Casa da Dinda. Ele consegue ir além do
ridículo em seus delírios de estadista: “O seu comportamento (de Ulysses Guimarães) mudaria quando se iniciou as
articulações para garantir a tomada do poder através de um golpe de mão.” (A
revisão aqui do jornal se sentiu tentada a corrigir: “... quando se iniciaram
as...”.)
A impressão que fica mesmo é a de que Collor é um mal crônico. Os
sintomas de que ele não vai desistir de “chegar lá” são assustadores. O livro
em si é um golpe besta, como jogada de marketing, mas um golpe significativo na
revelação de uma mente doentia, obsessiva pelo poder. É de meter medo; afinal,
o homem é imparável. Se não voltar à Presidência da República, vai chegar à
Academia Brasileira de Letras.