Dizia velho camarada: o parlamentarismo burguês amolece os ossos. Neste início de conversa, seria aceitável alguma complacência com as pessoas de boa-fé que se deixam levar na onda suave das que defendem a acolhida de adversários não de ontem, mas de agorinha mesmo, com o argumento de que, quanto mais “influenciadores” vierem para o “nosso” lado, mais condições “teremos” de vencer as próximas eleições (quaisquer que sejam elas). Não sou de natureza tão boazinha. Principalmente quando isso significa abrir mão do imprescindível, embora árduo, trabalho de conscientização no sentido que verdadeiramente importa. Nem falo da possibilidade de um ou outro pequeno contrabando ideológico, já que o produto em oferta é de qualidade tão ruim que a ruindade predominaria na mistura, e a massa seria péssima, seria mesmo massa de manobra.
Não
se deve aceitar como infinito o horizonte da ideologia dominante. Quem não
parte do ponto de vista da luta de classes como ela é fica ao sabor das ilusões
parlamentaristas, sem o menor vislumbre de um mundo, agora sim, de infinitas
possibilidades. É preciso se lançar no caminho da luta aprendendo e fazendo
aprender. A autocrítica que tem tudo para valer, em princípio, até que a
prática a confirme, é a de quem esteve e está do nosso lado e cometeu erros.
Aos que querem pongar: sejam bem-vindos. O que não se pode fazer é botar a
carreta da nossa luta a reboque de feiticeiros ou gurus.
Tentar reduzir a dimensão humana a votos num sistema injusto é coisa de canalhas e sabujos. E é cretinismo
parlamentar ao extremo querer “atrair” para nós líderes a granel, sejam eles velhos caciques ou cacifados novos.
É
truísmo, mas a realidade dada tem os seus dados conceitos em validade: é necessário organizar, e organizar com perspectiva revolucionária. Ah, mas o que querem é escamotear qualquer crise que possa servir a esse propósito para preservar “estado
de direito”, “democracia”, tudo e todo mundo juntos e diluídos, numa incriteriosa
“aliança ampla de salvação nacional”. Têm a pressa e a urgência da pequena
burguesia inflamada de dores e pensando em votos. Não se fala mais em
estratégia, agora é “tática geral”. Não é busca de unidade contra o fascismo, mas salto
no escuro para um amontoado informe, sem combatividade e sem direção precisa e
sem o que pôr no lugar de um Estado irremediavelmente contaminado, sem direito
nem democracia para quem trabalha e produz, porque se parte do oco, e não de um
movimento de massas organizado ou a se organizar.
Não há como singularizar as “esquerdas”. Tenho que me diluir nesse espectro
indefinível, ou “brigar” no meu partido ou na minha organização para focar
naquilo que, repito, verdadeiramente importa? Não vou aproveitar o momento em
que a feia palavra comunismo circula como nunca e juntar a ela esta bela
cara de futuro? Comunista que se preza não precisa de atravessadores. E complacência
com os que acreditam nisso seria puro manilovismo.
Hamilton Carvalho
(19/5/2020)