No início de fevereiro, uma garota me calçou depois de ler uma de minhas
intervenções inconsequentes no Twitter. Ela teclou:
– Temos
que ter em mente que o PT está no governo, mas não tem o poder. Este continua
com a elite.
Tropiquei,
no sentido baiano do termo, e fui no embalo:
–
Exato. Não tenho ilusão de classe. O que quer dizer que o PT no poder não é o
povo no poder.
Ela
foi enfática, em caixa-alta:
–
EU NÃO DISSE QUE O PT ESTÁ NO PODER. Ele está APENAS NO GOVERNO e tenta fazer o
que pode pelo povo.
Com
aquele jeito falso (e irritante) de quem concorda, e escrevendo classe no
singular para economizar caráter (sem trocadilho), pontifiquei:
– Exato. O PT apenas administra para a classe que está no
poder.
Mas as coisas não devem ser reduzidas a tuítes e
retuítes, como papeizinhos presos em pernas de pombo-correio para determinar o
rumo de uma ação imediata.
Apesar do exuberante
idealismo, a moça não tinha como explicar a que diabo de poder ela se referia, nem
muito menos como exercê-lo. Disse poder em geral, como poderia ter
dito democracia em geral, pois não suponho, de forma nenhuma, que
ela almeje, conscientemente, uma ditadura em particular, um tipo de
Estado. O partido que ela tão ardorosamente defende está “apenas” no governo.
E aqui voltamos ao texto anterior. Ou melhor: ao
desejo expresso nele.
Ter posição definida ao lado dos explorados não é
fácil. Você chama para a briga aqueles que têm longa, secular experiência na
dominação, que envolve a exploração do trabalho, a repressão aberta ou
dissimulada em “segurança pública”, o acesso ao conhecimento e aos meios usados
em benefício dessa dominação e crenças e preconceitos inculcados
cotidianamente, criando a ilusão de que as artes e as ciências e o bem-estar
são bens universais ao alcance de todos. Ou seja, a democracia tem valor
universal, porque engloba tudo isso e mais alguma coisa a que todos,
igualmente, têm direito, mesmo que, de fato, a maioria não tenha direito a
porra nenhuma ou se veja constantemente ameaçada de perder algumas das poucas
conquistas alcançadas a duras penas.
Ora, ter posição definida na luta de classes ao
lado dos oprimidos, sentindo-se um deles ou não, é ser claramente a
favor de uma ditadura em particular: a democracia proletária. Isto
é – para não irritar aqueles que possam alegar que não existem mais pessoas
úteis tão somente para procriar –, a democracia dos pobres, daqueles que, hoje, não
são donos do que produzem.
Não se pode falar de democracia para todos numa
sociedade dividida em classes, em explorados e exploradores. E não se poderá
falar de democracia para ninguém quando não houver classes. Isso é mais do
que reconhecido e discutido – e mais do que sentido pelos oprimidos –, mas muita gente não
entende o seu alcance porque não se pergunta: democracia para quem?
A minha idealista contraditora do início deste
texto intuiu a essência do problema, ao situar, de um lado, um partido político
de extração popular e, de outro, os exploradores, a “elite”. Apenas
intuiu. Porque as classes sociais são representadas por partidos, e é por meio
dos partidos que elas chegam ao poder, ou seja, só assim elas governam. Para
isso, o partido tem que expressar a ideologia dominante, e os partidos
pequeno-burgueses fazem isso muito bem, e em alguns momentos até se superam
nesse papel coadjutor.
Governar sem estar no poder, fazendo “o que pode”,
só mesmo se Deus ou a burguesia quiser. Puro, puríssimo idealismo.
Hamilton Carvalho
(3/4/2015)