Comigo
a
anatomia ficou louca.
Eu
sou todo coração –
ele
bate em todo o corpo.
V.M.
O poeta Vladímir Vladímirovitch Maiakóvski
morreu aos 37 anos. Acionando o gatilho de um velho revólver, acabou com a
própria vida em 14 de abril de 1930. Dois dias antes havia escrito a carta de
despedida, em que anotou os versos: “Como se diz / o incidente está encerrado.
/ O barco do amor / quebrou-se contra a vida quotidiana. / Estou quite com a
vida. / Inútil passar em revista / as dores / as desgraças / e os erros
recíprocos.” (Tradução de E. Carrera Guerra.)
Nascido na aldeia de Bagdádi, Geórgia, em 7
de julho de 1893 (19 de julho pelo calendário que passou a vigorar após a
Revolução de Outubro), Maiakóvski teve uma vida agitada. Os anos em que viveu
equivalem, no dizer de Carrera Guerra, a séculos. Já em 1905, com apenas 12
anos, participa das manifestações contra o czarismo, em Kutaíssi, onde cursa o
ginásio. Também ali chegam os reflexos da Revolução de 1905, a cuja derrota se seguem
atos de terrorismo policial.
Preso três vezes
No ano seguinte, com a morte do pai, a
família se transfere para Moscou, vivendo na penúria. O poeta vai mal nos
estudos. Em 1908, abandona o ginásio e ingressa na ala bolchevique do Partido
Operário Social-Democrático da Rússia. É preso numa tipografia clandestina e,
para não comprometer os companheiros, come o bloco de notas, “com endereços e
capa dura”. Sofre mais duas prisões, em 1909, a última delas custando-lhe onze
meses de reclusão. Lê muito e faz versos num caderninho que será retido pelos
guardas, aos quais agradecerá na pequena autobiografia (Eu mesmo), escrita em
estilo telegráfico: “Obrigado aos guardas: ao soltar-me, tiraram aquilo. Senão,
era capaz de publicar!”
Fora da prisão, sente necessidade de estudar
e, para tanto, abandona a atividade partidária. Ele se pergunta se a revolução
não lhe exigirá uma “escola séria”. Anota: “Sou ignorante. Devo passar por uma
escola séria. E eu fora expulso até do ginásio. Se ficar no partido, tenho de
passar à clandestinidade. E como clandestino, parecia-me, não poderia estudar.”
Dedica-se à pintura, mas após um ano percebe que está aprendendo “prendas
domésticas”. Torna-se, então, aluno do pintor P.I. Kélin, a respeito de quem
fará comentário elogioso.
Amigos futuristas
Depois de um ano “fazendo cabeças”, entra
para a Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura, o único lugar em que o
aceitam “sem um atestado de bons antecedentes políticos”. Mas daí também será
expulso, em 1914, em virtude da agitação que promove como integrante do
movimento cubofuturista. Escreve Carrera Guerra: “Burliuk, o animador do grupo,
atrai a ira dos mestres, Maiakóvski bate a tecla socialista e o resultado
imediato é a agitação na Escola de Belas-Artes, terminando com a expulsão dos
alunos iconoclastas.”
O pintor e poeta David Burliuk teve grande
importância na vida de Maiakóvski, que fala do surgimento dessa amizade: “Em
David havia a ira de um mestre que ultrapassara os contemporâneos, em mim o
patético de um socialista, que conhecia o inevitável da queda das velharias.
Nascera o futurismo russo.” O amigo lhe dava 50 copeques por dia para que
pudesse escrever “sem passar fome”.
“Bofetada no gosto
público”
Outra pessoa importante para o poeta foi Elsa
Triolet, que ele namorou. Ela recorda: “Eu estava na escola. Maiakóvski, ainda
nas Belas-Artes, rachava de fome e fazia parte dum grupo que se chamou mais
tarde ‘futurista’... (...) Parecera-me gigantesco, incompreensível, insolente.
Eu tinha 15 anos e tive muito medo.”
Nesse tempo Maiakóvski usava uma
“escandalosa” blusa amarela e despertava violentas polêmicas. No ano anterior,
1912, havia assinado, juntamente com Burliuk, A. Krutchônikh e V. Khliébnikov,
o manifesto “Bofetada no gosto público”. Participava de discussões públicas e
fazia leituras de poemas nos cabarés frequentados por intelectuais.
A Primeira Guerra Mundial é recebida por
Maiakóvski com entusiasmo patriótico. Mas logo passa a condená-la, na mesma
linha dos bolcheviques. Ainda assim, acreditando que, “para falar da guerra,
é preciso conhecê-la”, o poeta tenta alistar-se como voluntário. Não o
consegue, por causa dos antecedentes políticos.
As lágrimas de
Górki
Com o dinheiro que ganhou num jogo, vai à
Finlândia e passa algum tempo em Kuokkala (hoje Riépino), que naquela época era
lugar de veraneio de artistas e escritores. Faz uma visita a M. Górki e lê para
ele alguns versos. Registrará na autobiografia: “Sensibilizado, Górki me cobriu
de lágrimas todo o colete. Fiquei um tanto orgulhoso. Logo ficou claro, porém,
que Górki chorava sobre todo colete de poeta.”
Também nesse ano (1915), ao estabelecer-se em
Petrogrado, conhece o grande amor de sua vida, Lília Brik, mulher do estudioso
de literatura Óssip Brik e irmã de Elsa Triolet. Aí é convocado para a guerra,
mas já não pretende ir para a linha de frente. Então “finge” ser desenhista e
vai trabalhar na Escola de Automobilismo. Só que, na condição de soldado, se vê
proibido de publicar seus escritos. Óssip Brik, no entanto, compra todos os
seus poemas, a 50 copeques por linha.
O poeta e a
revolução
A Rússia, sofrendo constantes derrotas nas
frentes de combate, com um povo faminto e cansado da guerra, vive intensa
agitação político-partidária e caminha para a primeira revolução de 1917, a de
fevereiro. Em 25 de outubro (7 de novembro pelo calendário gregoriano) irrompe
a revolução socialista que coloca os bolcheviques no poder. Maiakóvski
participa ativamente das tarefas revolucionárias. Dirá com orgulho: “A minha
revolução. Fui ao Smólni. Trabalhei. Tudo o que era preciso.” (O Instituto
Smólni era um internato para moças da nobreza, transformado em quartel-general
dos bolcheviques.)
Em 1919, muda-se para Moscou e entra para a
Agência Telegráfica Russa (Rosta). Viaja muito, realizando conferências e
leituras de poemas. Daí por diante trabalha intensamente na propaganda,
juntando-se ao esforço para vencer as dificuldades impostas pela guerra civil.
Escreve e publica livros, monta peça teatral, participa de filmes, organiza com
os futuristas a revista Lef e não
para de viajar pela União Soviética. Vai, também, à Europa e aos Estados
Unidos.
Ideia de suicídio
Mas aquele gigante impetuoso, cheio de
dinamismo, sofre contradição íntima com a obsessão pelo suicídio. Resiste
por muito tempo e se mostra contrário a tal solução. Sustenta-se – diz Carrera
Guerra – à custa da sólida construção orgânica e da convicção política,
humanista. Vive, porém, em tempos dificílimos, sem dinheiro e se envolvendo em
batalhas políticas que o desgastam profundamente. Seu temperamento arrebatado
faz que seja conflituoso o relacionamento com Lília, a quem dedica poemas
cheios de ternura.
Num desses poemas – “Lílitchka!” –
transparece a luta do poeta contra a ideia que o persegue: “... o meu amor / –
duro fardo por certo – / pesará sobre ti / onde quer que te encontres. / Deixa
que o fel da mágoa ressentida / num último grito estronde. / (...) / Afora o
teu amor / para mim / não há mar, / e a dor do teu amor nem a lágrima alivia. /
(...) / Afora o teu amor / para mim / não há sol. / (...) / a mim / nenhum som
importa / afora o som do teu nome que eu adoro. / E não me lançarei no abismo,
/ e não beberei veneno, / e não poderei apertar na têmpora o gatilho. / Afora /
o teu olhar / nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.” (Trad. de Augusto de
Campos.)
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| Lília Brik [Aleksandr Rodchenko] |
O gesto que faltou
Em outro poema, “A Sierguiéi Iessiêni”,
também há reflexo dessa luta. O amigo Iessiêni, antes de se enforcar num quarto
de hotel, cortou os pulsos e escreveu com sangue: “Se morrer, nesta vida, não é
novo, / Tampouco há novidade em estar vivo.” (Trad. de Augusto de Campos.)
Maiakóvski parafraseou esses versos no poema que serve de base para o seu
famoso ensaio Como fazer versos?. Na tradução de Haroldo de Campos: “Nesta
vida / morrer não é difícil. / O difícil / é a vida e seu ofício.”
“A desmedida sensibilidade de Maiakóvski”,
diz Carrera Guerra, exemplificando com o gosto que o poeta demonstrava pelas
hipérboles, “o estado de tensão criadora em que permanentemente vivia,
fazendo-o taciturno, sombrio, excessivamente concentrado, a alternância de
profundas depressões com alegrias ruidosas, produziam não poucas dificuldades
ao seu convívio social.” Lília, que ele amou até o fim e quem, “com um só gesto,
apaziguava qualquer de suas tempestades”, não estava lá quando o poeta virou a
arma contra o próprio coração. E ele era todo coração.
Hamilton Carvalho
(Revista Oásis,
ano XXXI, n.º 110 – 1993)
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As citações foram retiradas dos seguintes trabalhos: A Poética de Maiakóvski, de Boris
Schnaiderman; Antologia Poética,
organizada e traduzida por E. Carrera Guerra, acompanhada de estudo biográfico;
Poemas, traduções de Augusto e
Haroldo de Campos, com a revisão ou a colaboração de Boris Schnaiderman. Os
versos da epígrafe constam do livro de Fernando Peixoto sobre a vida e a obra
de Maiakóvski.
