segunda-feira, 14 de outubro de 2013

MAIAKÓVSKI | As tempestades do poeta






                                                                                                        Comigo
                                                                                                                             a anatomia ficou louca.
                                                                                                                             Eu sou todo coração –
                                                                                                                             ele bate em todo o corpo.
                                                                                                                             V.M.

O poeta Vladímir Vladímirovitch Maiakóvski morreu aos 37 anos. Acionando o gatilho de um velho revólver, acabou com a própria vida em 14 de abril de 1930. Dois dias antes havia escrito a carta de despedida, em que anotou os versos: “Como se diz / o incidente está encerrado. / O barco do amor / quebrou-se contra a vida quotidiana. / Estou quite com a vida. / Inútil passar em revista / as dores / as desgraças / e os erros recíprocos.” (Tradução de E. Carrera Guerra.)
Nascido na aldeia de Bagdádi, Geórgia, em 7 de julho de 1893 (19 de julho pelo calendário que passou a vigorar após a Revolução de Outubro), Maiakóvski teve uma vida agitada. Os anos em que viveu equivalem, no dizer de Carrera Guerra, a séculos. Já em 1905, com apenas 12 anos, participa das manifestações contra o czarismo, em Kutaíssi, onde cursa o ginásio. Também ali chegam os reflexos da Revolução de 1905, a cuja derrota se seguem atos de terrorismo policial.

Preso três vezes
No ano seguinte, com a morte do pai, a família se transfere para Moscou, vivendo na penúria. O poeta vai mal nos estudos. Em 1908, abandona o ginásio e ingressa na ala bolchevique do Partido Operário Social-Democrático da Rússia. É preso numa tipografia clandestina e, para não comprometer os companheiros, come o bloco de notas, “com endereços e capa dura”. Sofre mais duas prisões, em 1909, a última delas custando-lhe onze meses de reclusão. Lê muito e faz versos num caderninho que será retido pelos guardas, aos quais agradecerá na pequena autobiografia (Eu mesmo), escrita em estilo telegráfico: “Obrigado aos guardas: ao soltar-me, tiraram aquilo. Senão, era capaz de publicar!”
Fora da prisão, sente necessidade de estudar e, para tanto, abandona a atividade partidária. Ele se pergunta se a revolução não lhe exigirá uma “escola séria”. Anota: “Sou ignorante. Devo passar por uma escola séria. E eu fora expulso até do ginásio. Se ficar no partido, tenho de passar à clandestinidade. E como clandestino, parecia-me, não poderia estudar.” Dedica-se à pintura, mas após um ano percebe que está aprendendo “prendas domésticas”. Torna-se, então, aluno do pintor P.I. Kélin, a respeito de quem fará comentário elogioso.

Amigos futuristas
Depois de um ano “fazendo cabeças”, entra para a Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura, o único lugar em que o aceitam “sem um atestado de bons antecedentes políticos”. Mas daí também será expulso, em 1914, em virtude da agitação que promove como integrante do movimento cubofuturista. Escreve Carrera Guerra: “Burliuk, o animador do grupo, atrai a ira dos mestres, Maiakóvski bate a tecla socialista e o resultado imediato é a agitação na Escola de Belas-Artes, terminando com a expulsão dos alunos iconoclastas.”
O pintor e poeta David Burliuk teve grande importância na vida de Maiakóvski, que fala do surgimento dessa amizade: “Em David havia a ira de um mestre que ultrapassara os contemporâneos, em mim o patético de um socialista, que conhecia o inevitável da queda das velharias. Nascera o futurismo russo.” O amigo lhe dava 50 copeques por dia para que pudesse escrever “sem passar fome”.

“Bofetada no gosto público”
Outra pessoa importante para o poeta foi Elsa Triolet, que ele namorou. Ela recorda: “Eu estava na escola. Maiakóvski, ainda nas Belas-Artes, rachava de fome e fazia parte dum grupo que se chamou mais tarde ‘futurista’... (...) Parecera-me gigantesco, incompreensível, insolente. Eu tinha 15 anos e tive muito medo.”
Nesse tempo Maiakóvski usava uma “escandalosa” blusa amarela e despertava violentas polêmicas. No ano anterior, 1912, havia assinado, juntamente com Burliuk, A. Krutchônikh e V. Khliébnikov, o manifesto “Bofetada no gosto público”. Participava de discussões públicas e fazia leituras de poemas nos cabarés frequentados por intelectuais.
A Primeira Guerra Mundial é recebida por Maiakóvski com entusiasmo patriótico. Mas logo passa a condená-la, na mesma linha dos bolcheviques. Ainda assim, acreditando que, “para falar da guerra, é preciso conhecê-la”, o poeta tenta alistar-se como voluntário. Não o consegue, por causa dos antecedentes políticos.

As lágrimas de Górki
Com o dinheiro que ganhou num jogo, vai à Finlândia e passa algum tempo em Kuokkala (hoje Riépino), que naquela época era lugar de veraneio de artistas e escritores. Faz uma visita a M. Górki e lê para ele alguns versos. Registrará na autobiografia: “Sensibilizado, Górki me cobriu de lágrimas todo o colete. Fiquei um tanto orgulhoso. Logo ficou claro, porém, que Górki chorava sobre todo colete de poeta.”
Também nesse ano (1915), ao estabelecer-se em Petrogrado, conhece o grande amor de sua vida, Lília Brik, mulher do estudioso de literatura Óssip Brik e irmã de Elsa Triolet. Aí é convocado para a guerra, mas já não pretende ir para a linha de frente. Então “finge” ser desenhista e vai trabalhar na Escola de Automobilismo. Só que, na condição de soldado, se vê proibido de publicar seus escritos. Óssip Brik, no entanto, compra todos os seus poemas, a 50 copeques por linha.

O poeta e a revolução
A Rússia, sofrendo constantes derrotas nas frentes de combate, com um povo faminto e cansado da guerra, vive intensa agitação político-partidária e caminha para a primeira revolução de 1917, a de fevereiro. Em 25 de outubro (7 de novembro pelo calendário gregoriano) irrompe a revolução socialista que coloca os bolcheviques no poder. Maiakóvski participa ativamente das tarefas revolucionárias. Dirá com orgulho: “A minha revolução. Fui ao Smólni. Trabalhei. Tudo o que era preciso.” (O Instituto Smólni era um internato para moças da nobreza, transformado em quartel-general dos bolcheviques.)
Em 1919, muda-se para Moscou e entra para a Agência Telegráfica Russa (Rosta). Viaja muito, realizando conferências e leituras de poemas. Daí por diante trabalha intensamente na propaganda, juntando-se ao esforço para vencer as dificuldades impostas pela guerra civil. Escreve e publica livros, monta peça teatral, participa de filmes, organiza com os futuristas a revista Lef e não para de viajar pela União Soviética. Vai, também, à Europa e aos Estados Unidos.

Ideia de suicídio
Mas aquele gigante impetuoso, cheio de dinamismo, sofre contradição íntima com a obsessão pelo suicídio. Resiste por muito tempo e se mostra contrário a tal solução. Sustenta-se – diz Carrera Guerra – à custa da sólida construção orgânica e da convicção política, humanista. Vive, porém, em tempos dificílimos, sem dinheiro e se envolvendo em batalhas políticas que o desgastam profundamente. Seu temperamento arrebatado faz que seja conflituoso o relacionamento com Lília, a quem dedica poemas cheios de ternura.
Num desses poemas – “Lílitchka!” – transparece a luta do poeta contra a ideia que o persegue: “... o meu amor / – duro fardo por certo – / pesará sobre ti / onde quer que te encontres. / Deixa que o fel da mágoa ressentida / num último grito estronde. / (...) / Afora o teu amor / para mim / não há mar, / e a dor do teu amor nem a lágrima alivia. / (...) / Afora o teu amor / para mim / não há sol. / (...) / a mim / nenhum som importa / afora o som do teu nome que eu adoro. / E não me lançarei no abismo, / e não beberei veneno, / e não poderei apertar na têmpora o gatilho. / Afora / o teu olhar / nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.” (Trad. de Augusto de Campos.)
 
                                      Lília Brik              [Aleksandr Rodchenko]  


O gesto que faltou
Em outro poema, “A Sierguiéi Iessiêni”, também há reflexo dessa luta. O amigo Iessiêni, antes de se enforcar num quarto de hotel, cortou os pulsos e escreveu com sangue: “Se morrer, nesta vida, não é novo, / Tampouco há novidade em estar vivo.” (Trad. de Augusto de Campos.) Maiakóvski parafraseou esses versos no poema que serve de base para o seu famoso ensaio Como fazer versos?. Na tradução de Haroldo de Campos: “Nesta vida / morrer não é difícil. / O difícil / é a vida e seu ofício.”
“A desmedida sensibilidade de Maiakóvski”, diz Carrera Guerra, exemplificando com o gosto que o poeta demonstrava pelas hipérboles, “o estado de tensão criadora em que permanentemente vivia, fazendo-o taciturno, sombrio, excessivamente concentrado, a alternância de profundas depressões com alegrias ruidosas, produziam não poucas dificuldades ao seu convívio social.” Lília, que ele amou até o fim e quem, “com um só gesto, apaziguava qualquer de suas tempestades”, não estava lá quando o poeta virou a arma contra o próprio coração. E ele era todo coração.

Hamilton Carvalho
(Revista Oásis, ano XXXI, n.º 110 – 1993)

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As citações foram retiradas dos seguintes trabalhos: A Poética de Maiakóvski, de Boris Schnaiderman; Antologia Poética, organizada e traduzida por E. Carrera Guerra, acompanhada de estudo biográfico; Poemas, traduções de Augusto e Haroldo de Campos, com a revisão ou a colaboração de Boris Schnaiderman. Os versos da epígrafe constam do livro de Fernando Peixoto sobre a vida e a obra de Maiakóvski.