Seria preciso que me detivesse mais sobre o
tema que pretendo (não sei se vou conseguir) abordar aqui, e refletisse mais
sobre ele, para que o texto fosse conciso e objetivo, e justificasse o artigo
definido do título, tão absoluto.
O caminho mais fácil é, sem dúvida, começar
pela experiência pessoal. Mas, no meu caso, isso não funcionaria. Tive o
“privilégio” de iniciar a militância política durante a ditadura militar no
Brasil. É claro que a ditadura estava ali para defender os interesses das
classes dominantes e do imperialismo, era um estado-maior da concentração
ideológica pela manutenção do capitalismo.
No entanto, os grupos revolucionários, mesmo
com divergências significativas entre si, e apesar do caráter pequeno-burguês predominante
neles, eram “amarrados” pelo fio da luta pela democracia.
Que democracia? Veremos depois.
A questão ideológica não era tão crucial como
agora, embora sempre e necessariamente presente.
Eu, por exemplo, não tinha que me debater com
colegas de trabalho e com a família quanto à minha posição na luta de classes.
Dado o secretismo da atuação organizada, o que se via, no máximo,
principalmente na efervescência do movimento estudantil, era “coisa de jovens”
que, com a idade, “sossegariam”. Havia certa tolerância melosa por parte dos
que nos amavam ou daqueles com quem partilhávamos a vida “normal”.
Ou seja, o “abaixo a ditadura”, ainda que
pudesse resultar em morte, era aceitável. Dizer hoje “viva a luta pelo
socialismo” é coisa de velhos, de dinossauros, de gente perdida no passado. A
pressão ideológica sobre a juventude é tremenda.
O problema é mais acentuado quando se trata
da militância política organizada. A sociedade burguesa é permeada de
organizações – sindicais, religiosas, de jovens, de mulheres, de minorias em
geral. Aceitam-se tais organizações, desde que não avancem o sinal da ideologia
burguesa e mesmo que elas defendam algumas conquistas que só se efetivarão no socialismo.
Participar de uma organização ideologicamente
definida pode ser motivo de vergonha. A ironia, o escárnio, o conselheirismo
também são armas das classes dominantes, empunhadas garbosamente pela pequena
burguesia “culta”. Aqui se reproduz, mesmo inconscientemente, uma das
características do capitalismo que intimida a iniciativa, embota a capacidade
de discernimento das pessoas, o poder de decisão delas, seu “livre-arbítrio”.
É assim a “democracia para todos” – expressão
que, em si, já é um contrassenso. Para falar com propriedade sobre pressão
ideológica seria preciso abordar a questão da democracia “em geral”, a que
abstrai a existência da luta de classes. Veremos depois.
Hamilton Carvalho
(29/3/2015)