Textos variados de Hamilton Carvalho. (Só crônicas: vidacambaia.blogspot.com. Só poesia: subversos-subversos.blogspot.com e antecipada.blogspot.com)
domingo, 4 de outubro de 2015
Estatuária
Gostei
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Shakespeare, uma nota poética
nas mãos do agiota Shakespeare.
Will, Will, que Stratford recolha
teus cansados gonococos,
porque ficamos blasés.
a exalar o ácido graxo
de um estômago senil.
Então dirás: “Sou palhaço.”
Como somos imbecis.
uma bicota no escuro,
sem dentes e devaneios,
em teatro de bonecos:
o tálamo como palco.
entre nós. E o vinho adúltero
alterado da estalagem.
E a peste. E o fogo e o feto,
e o fantasma de meu pai.
no pátio escuso do mundo,
nas estrebarias de Áugias,
sob as vestes fedorentas
e mecenas da rainha.
incinerado. Eu me compro
ao preço vil do retorno,
mesmo no medo das pontas
atadas do vão destino.
e toda crepuscular,
à luz do longo abandono,
te ofertará tua, a própria
caveira.
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Idealismo e democracia
No início de fevereiro, uma garota me calçou depois de ler uma de minhas
intervenções inconsequentes no Twitter. Ela teclou:
– Temos
que ter em mente que o PT está no governo, mas não tem o poder. Este continua
com a elite.
Tropiquei,
no sentido baiano do termo, e fui no embalo:
–
Exato. Não tenho ilusão de classe. O que quer dizer que o PT no poder não é o
povo no poder.
Ela
foi enfática, em caixa-alta:
–
EU NÃO DISSE QUE O PT ESTÁ NO PODER. Ele está APENAS NO GOVERNO e tenta fazer o
que pode pelo povo.
Com
aquele jeito falso (e irritante) de quem concorda, e escrevendo classe no
singular para economizar caráter (sem trocadilho), pontifiquei:
– Exato. O PT apenas administra para a classe que está no
poder.
Mas as coisas não devem ser reduzidas a tuítes e
retuítes, como papeizinhos presos em pernas de pombo-correio para determinar o
rumo de uma ação imediata.
Apesar do exuberante
idealismo, a moça não tinha como explicar a que diabo de poder ela se referia, nem
muito menos como exercê-lo. Disse poder em geral, como poderia ter
dito democracia em geral, pois não suponho, de forma nenhuma, que
ela almeje, conscientemente, uma ditadura em particular, um tipo de
Estado. O partido que ela tão ardorosamente defende está “apenas” no governo.
E aqui voltamos ao texto anterior. Ou melhor: ao
desejo expresso nele.
Ter posição definida ao lado dos explorados não é
fácil. Você chama para a briga aqueles que têm longa, secular experiência na
dominação, que envolve a exploração do trabalho, a repressão aberta ou
dissimulada em “segurança pública”, o acesso ao conhecimento e aos meios usados
em benefício dessa dominação e crenças e preconceitos inculcados
cotidianamente, criando a ilusão de que as artes e as ciências e o bem-estar
são bens universais ao alcance de todos. Ou seja, a democracia tem valor
universal, porque engloba tudo isso e mais alguma coisa a que todos,
igualmente, têm direito, mesmo que, de fato, a maioria não tenha direito a
porra nenhuma ou se veja constantemente ameaçada de perder algumas das poucas
conquistas alcançadas a duras penas.
Ora, ter posição definida na luta de classes ao
lado dos oprimidos, sentindo-se um deles ou não, é ser claramente a
favor de uma ditadura em particular: a democracia proletária. Isto
é – para não irritar aqueles que possam alegar que não existem mais pessoas
úteis tão somente para procriar –, a democracia dos pobres, daqueles que, hoje, não
são donos do que produzem.
Não se pode falar de democracia para todos numa
sociedade dividida em classes, em explorados e exploradores. E não se poderá
falar de democracia para ninguém quando não houver classes. Isso é mais do
que reconhecido e discutido – e mais do que sentido pelos oprimidos –, mas muita gente não
entende o seu alcance porque não se pergunta: democracia para quem?
A minha idealista contraditora do início deste
texto intuiu a essência do problema, ao situar, de um lado, um partido político
de extração popular e, de outro, os exploradores, a “elite”. Apenas
intuiu. Porque as classes sociais são representadas por partidos, e é por meio
dos partidos que elas chegam ao poder, ou seja, só assim elas governam. Para
isso, o partido tem que expressar a ideologia dominante, e os partidos
pequeno-burgueses fazem isso muito bem, e em alguns momentos até se superam
nesse papel coadjutor.
Governar sem estar no poder, fazendo “o que pode”,
só mesmo se Deus ou a burguesia quiser. Puro, puríssimo idealismo.
Hamilton Carvalho