domingo, 4 de outubro de 2015

Estatuária


Não é preciso que eu fale grego
para entender teu perfil oculto
entre os cabelos, nem é preciso
que eu seja completamente cego
para apenas intuir teu vulto
(às vezes) algo perto de mim.

Não me interessa teu idioma,
nem o que fazes entre os escombros
de Troia, se traduzo teus lábios.
É. Não me importa porra nenhuma
se não me apoias nos magros ombros
que suportam o peso do mundo.

O reencontro é inevitável, embora
meus passos não batam com os teus.
Há sempre a encruzilhada do tempo,
que não é a mesma do chão de agora.
Visitarei todos os museus,
a deixar a mentira dos rastros.

Sim. Não me encontrarás em teus braços.

Hamilton Carvalho
(30/9/2015)

Gostei

Gostei.
Convivi com Edgard Allan, o Poe.
O que estragou foi Charles-Pierre, o Baudelaire,
com tradução de canoa sem seiva de cannabis,
em espécie de périplo paraguaio de Pedro Juan Caballero
com crianças babacas a bordo,
traindo o amante leminskiano de Rimbaud
que nunca se iludiu quanto a aicai ser verso livre.

Gostei, gostei mermo
quando Charles-Pierre, o Baudelaire, quebrou
a perna do albatroz, perfeito poeta em performance perfeita.
Só não gostei porque sei que Charles, o Pierre, comeu uma negra
e Rimbaud foi muito mal comido pelo amante leminskiano,
e assim a poesia ganhou Oswald de Andrade
na Semana de Arte Moderna
e Guilherme de Almeida traduzindo algumas flores, digamos
do mal.


25/9/2015
(Hamilton Carvalho)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Shakespeare, uma nota poética

William Shakespeare nasceu em 23 de abril de 1564 e morreu em 23 de abril de 1616, em Stratford-upon-Avon. Eis um velho poema e alguma referência:

RETORNO
Ah-ah, o outro que se vire
nas mãos do agiota Shakespeare.
Will, Will, que Stratford recolha
teus cansados gonococos,
porque ficamos blasés.
Um dia ela acorda, Will,
a exalar o ácido graxo
de um estômago senil.
Então dirás: “Sou palhaço.”
Como somos imbecis.
Era preciso que houvesse
uma bicota no escuro,
sem dentes e devaneios,
em teatro de bonecos:
o tálamo como palco.
Há toda uma estrada real
entre nós. E o vinho adúltero
alterado da estalagem.
E a peste. E o fogo e o feto,
e o fantasma de meu pai.
Somos como por acaso
no pátio escuso do mundo,
nas estrebarias de Áugias,
sob as vestes fedorentas
e mecenas da rainha.
Acaso. Nos bastidores o verso
incinerado. Eu me compro
ao preço vil do retorno,
mesmo no medo das pontas
atadas do vão destino.
Um dia ela acorda, Will,
e toda crepuscular,
à luz do longo abandono,
te ofertará tua, a própria
caveira.
(Hamilton Carvalho)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Idealismo e democracia

No início de fevereiro, uma garota me calçou depois de ler uma de minhas intervenções inconsequentes no Twitter. Ela teclou:

 Temos que ter em mente que o PT está no governo, mas não tem o poder. Este continua com a elite.

Tropiquei, no sentido baiano do termo, e fui no embalo:

– Exato. Não tenho ilusão de classe. O que quer dizer que o PT no poder não é o povo no poder.

Ela foi enfática, em caixa-alta:

– EU NÃO DISSE QUE O PT ESTÁ NO PODER. Ele está APENAS NO GOVERNO e tenta fazer o que pode pelo povo.

Com aquele jeito falso (e irritante) de quem concorda, e escrevendo classe no singular para economizar caráter (sem trocadilho), pontifiquei:

– Exato. O PT apenas administra para a classe que está no poder.

Mas as coisas não devem ser reduzidas a tuítes e retuítes, como papeizinhos presos em pernas de pombo-correio para determinar o rumo de uma ação imediata.

Apesar do exuberante idealismo, a moça não tinha como explicar a que diabo de poder ela se referia, nem muito menos como exercê-lo. Disse poder em geral, como poderia ter dito democracia em geral, pois não suponho, de forma nenhuma, que ela almeje, conscientemente, uma ditadura em particular, um tipo de Estado. O partido que ela tão ardorosamente defende está “apenas” no governo.

E aqui voltamos ao texto anterior. Ou melhor: ao desejo expresso nele.

Ter posição definida ao lado dos explorados não é fácil. Você chama para a briga aqueles que têm longa, secular experiência na dominação, que envolve a exploração do trabalho, a repressão aberta ou dissimulada em “segurança pública”, o acesso ao conhecimento e aos meios usados em benefício dessa dominação e crenças e preconceitos inculcados cotidianamente, criando a ilusão de que as artes e as ciências e o bem-estar são bens universais ao alcance de todos. Ou seja, a democracia tem valor universal, porque engloba tudo isso e mais alguma coisa a que todos, igualmente, têm direito, mesmo que, de fato, a maioria não tenha direito a porra nenhuma ou se veja constantemente ameaçada de perder algumas das poucas conquistas alcançadas a duras penas.

Ora, ter posição definida na luta de classes ao lado dos oprimidos, sentindo-se um deles ou não, é ser claramente a favor de uma ditadura em particular: a democracia proletária. Isto é – para não irritar aqueles que possam alegar que não existem mais pessoas úteis tão somente para procriar –, a democracia dos pobres, daqueles que, hoje, não são donos do que produzem.

Não se pode falar de democracia para todos numa sociedade dividida em classes, em explorados e exploradores. E não se poderá falar de democracia para ninguém quando não houver classes. Isso é mais do que reconhecido e discutido – e mais do que sentido pelos oprimidos –, mas muita gente não entende o seu alcance porque não se pergunta: democracia para quem?

A minha idealista contraditora do início deste texto intuiu a essência do problema, ao situar, de um lado, um partido político de extração popular e, de outro, os exploradores, a “elite”. Apenas intuiu. Porque as classes sociais são representadas por partidos, e é por meio dos partidos que elas chegam ao poder, ou seja, só assim elas governam. Para isso, o partido tem que expressar a ideologia dominante, e os partidos pequeno-burgueses fazem isso muito bem, e em alguns momentos até se superam nesse papel coadjutor.

Governar sem estar no poder, fazendo “o que pode”, só mesmo se Deus ou a burguesia quiser. Puro, puríssimo idealismo.

 

Hamilton Carvalho

(3/4/2015)

domingo, 29 de março de 2015

A pressão ideológica

Seria preciso que me detivesse mais sobre o tema que pretendo (não sei se vou conseguir) abordar aqui, e refletisse mais sobre ele, para que o texto fosse conciso e objetivo, e justificasse o artigo definido do título, tão absoluto.
O caminho mais fácil é, sem dúvida, começar pela experiência pessoal. Mas, no meu caso, isso não funcionaria. Tive o “privilégio” de iniciar a militância política durante a ditadura militar no Brasil. É claro que a ditadura estava ali para defender os interesses das classes dominantes e do imperialismo, era um estado-maior da concentração ideológica pela manutenção do capitalismo.
No entanto, os grupos revolucionários, mesmo com divergências significativas entre si, e apesar do caráter pequeno-burguês predominante neles, eram “amarrados” pelo fio da luta pela democracia.
Que democracia? Veremos depois.
A questão ideológica não era tão crucial como agora, embora sempre e necessariamente presente.
Eu, por exemplo, não tinha que me debater com colegas de trabalho e com a família quanto à minha posição na luta de classes. Dado o secretismo da atuação organizada, o que se via, no máximo, principalmente na efervescência do movimento estudantil, era “coisa de jovens” que, com a idade, “sossegariam”. Havia certa tolerância melosa por parte dos que nos amavam ou daqueles com quem partilhávamos a vida “normal”.
Ou seja, o “abaixo a ditadura”, ainda que pudesse resultar em morte, era aceitável. Dizer hoje “viva a luta pelo socialismo” é coisa de velhos, de dinossauros, de gente perdida no passado. A pressão ideológica sobre a juventude é tremenda.
O problema é mais acentuado quando se trata da militância política organizada. A sociedade burguesa é permeada de organizações – sindicais, religiosas, de jovens, de mulheres, de minorias em geral. Aceitam-se tais organizações, desde que não avancem o sinal da ideologia burguesa e mesmo que elas defendam algumas conquistas que só se efetivarão no socialismo.
Participar de uma organização ideologicamente definida pode ser motivo de vergonha. A ironia, o escárnio, o conselheirismo também são armas das classes dominantes, empunhadas garbosamente pela pequena burguesia “culta”. Aqui se reproduz, mesmo inconscientemente, uma das características do capitalismo que intimida a iniciativa, embota a capacidade de discernimento das pessoas, o poder de decisão delas, seu “livre-arbítrio”.
É assim a “democracia para todos” – expressão que, em si, já é um contrassenso. Para falar com propriedade sobre pressão ideológica seria preciso abordar a questão da democracia “em geral”, a que abstrai a existência da luta de classes. Veremos depois.

Hamilton Carvalho
(29/3/2015)