terça-feira, 13 de setembro de 2016

Poeta é fingidor

Finge tão completamente, claro. Hoje, ao procurar na bagunça de casa um jornal com a entrevista que fiz há anos com um dos atuais candidatos a prefeito de Goiânia (não achei), dei de cara com velho caderninho. Nele um (sofrido) soneto datado de outubro de 1973 que fala em rugas. Poesia é ficção.

No circo

Tuas mãos neste rosto que sofreu
não contam rugas, acarinham só.
Teus dedos rasgam o suor e o pó
mas a máscara ainda não cedeu.

No picadeiro busco algo de meu,
não acho, o riso está no povo só.
A serragem amarga, o amargo pó
em que piso, o meu ser ela sorveu.

Por detrás da cortina tu me esperas:
mas a máscara eu trago ao bastidor
e insisto em ser palhaço para ti.

É que lá fico ainda, exposto às feras
e às cadeiras vazias... E só a dor
e a amargura te fazem rir aqui.


Hamilton Carvalho

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A foto


A foto não é feia, gripada,
e desgrenhada, e suja das ruas.
E não tem nada disso ou daquilo.
É só ela, com o sorriso dela.

Hamilton Carvalho
(20/6/2016)

domingo, 15 de maio de 2016

[No Facebook]


PULO DO GATO (grátis)

Um dos recursos formais de que gosto na elaboração de poema metrificado (nos não metrificados isso é muito fácil) é usar, conscientemente, rimas que não têm cara de rimas, e nem digo das toantes, que por hábito ou instinto, sei lá, vêm no embalo das palavras e da possível emoção que elas buscam transmitir. Apesar de gostar delas, não abuso delas, para não banalizá-las no conjunto de meus escritos. Há um tipo, em especial, que sobrevive apenas em uns três pequenos poemas menores (não anoto quando esse tipo de rima me ocorre ou, quando anoto, elimino depois). Tenho certeza de dois desses poemas, publicados em blogs que mantenho. Em vez de usar a tônica da rima na última palavra do verso, uso na penúltima palavra. Por força, a última palavra é uma sílaba átona. O leitor sente “algo”, mesmo sem identificar o recurso. Eis as estrofes em que isso ocorre (observem: “vendo as” com “amêndoas” e “cáqui” com “há que”).

Do livro Subversos:

Engulo imagens dissímeis
e sofro mais que ela vendo as
fotos de veias rompidas
e de pânicas amêndoas.

Do livro A Canção Antecipada:

Não, mas não ainda as chamas
de um ateneu deletério.
Porque se faz necessário
andar, atravessar praças
e sentir o brim da roupa
em seu aroma e em seu cáqui.
Porque há o impositivo,
a irredutibilidade.
Não, mas ainda não. Há que
se ter domínio das chamas.

(Hamilton Carvalho)
(15/5/2016)



sábado, 9 de abril de 2016

O nome dela

O nome dela é como se fosse
palavra obscena.
O nome dela exclui o corpo dela,
o que é dela.

O nome dela é palavra
obscena,
não diz da mente dela.

Não posso dizer o nome dela.
Mas abraço o corpo dela
e não digo o nome dela,
é palavra obscena.

Hamilton Carvalho
(9/4/2016)

domingo, 4 de outubro de 2015

Estatuária


Não é preciso que eu fale grego
para entender teu perfil oculto
entre os cabelos, nem é preciso
que eu seja completamente cego
para apenas intuir teu vulto
(às vezes) algo perto de mim.

Não me interessa teu idioma,
nem o que fazes entre os escombros
de Troia, se traduzo teus lábios.
É. Não me importa porra nenhuma
se não me apoias nos magros ombros
que suportam o peso do mundo.

O reencontro é inevitável, embora
meus passos não batam com os teus.
Há sempre a encruzilhada do tempo,
que não é a mesma do chão de agora.
Visitarei todos os museus,
a deixar a mentira dos rastros.

Sim. Não me encontrarás em teus braços.

Hamilton Carvalho
(30/9/2015)

Gostei

Gostei.
Convivi com Edgard Allan, o Poe.
O que estragou foi Charles-Pierre, o Baudelaire,
com tradução de canoa sem seiva de cannabis,
em espécie de périplo paraguaio de Pedro Juan Caballero
com crianças babacas a bordo,
traindo o amante leminskiano de Rimbaud
que nunca se iludiu quanto a aicai ser verso livre.

Gostei, gostei mermo
quando Charles-Pierre, o Baudelaire, quebrou
a perna do albatroz, perfeito poeta em performance perfeita.
Só não gostei porque sei que Charles, o Pierre, comeu uma negra
e Rimbaud foi muito mal comido pelo amante leminskiano,
e assim a poesia ganhou Oswald de Andrade
na Semana de Arte Moderna
e Guilherme de Almeida traduzindo algumas flores, digamos
do mal.


25/9/2015
(Hamilton Carvalho)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Shakespeare, uma nota poética

William Shakespeare nasceu em 23 de abril de 1564 e morreu em 23 de abril de 1616, em Stratford-upon-Avon. Eis um velho poema e alguma referência:

RETORNO
Ah-ah, o outro que se vire
nas mãos do agiota Shakespeare.
Will, Will, que Stratford recolha
teus cansados gonococos,
porque ficamos blasés.
Um dia ela acorda, Will,
a exalar o ácido graxo
de um estômago senil.
Então dirás: “Sou palhaço.”
Como somos imbecis.
Era preciso que houvesse
uma bicota no escuro,
sem dentes e devaneios,
em teatro de bonecos:
o tálamo como palco.
Há toda uma estrada real
entre nós. E o vinho adúltero
alterado da estalagem.
E a peste. E o fogo e o feto,
e o fantasma de meu pai.
Somos como por acaso
no pátio escuso do mundo,
nas estrebarias de Áugias,
sob as vestes fedorentas
e mecenas da rainha.
Acaso. Nos bastidores o verso
incinerado. Eu me compro
ao preço vil do retorno,
mesmo no medo das pontas
atadas do vão destino.
Um dia ela acorda, Will,
e toda crepuscular,
à luz do longo abandono,
te ofertará tua, a própria
caveira.
(Hamilton Carvalho)