terça-feira, 13 de setembro de 2016

Poeta é fingidor

Finge tão completamente, claro. Hoje, ao procurar na bagunça de casa um jornal com a entrevista que fiz há anos com um dos atuais candidatos a prefeito de Goiânia (não achei), dei de cara com velho caderninho. Nele um (sofrido) soneto datado de outubro de 1973 que fala em rugas. Poesia é ficção.

No circo

Tuas mãos neste rosto que sofreu
não contam rugas, acarinham só.
Teus dedos rasgam o suor e o pó
mas a máscara ainda não cedeu.

No picadeiro busco algo de meu,
não acho, o riso está no povo só.
A serragem amarga, o amargo pó
em que piso, o meu ser ela sorveu.

Por detrás da cortina tu me esperas:
mas a máscara eu trago ao bastidor
e insisto em ser palhaço para ti.

É que lá fico ainda, exposto às feras
e às cadeiras vazias... E só a dor
e a amargura te fazem rir aqui.


Hamilton Carvalho

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