domingo, 15 de maio de 2016

[No Facebook]


PULO DO GATO (grátis)

Um dos recursos formais de que gosto na elaboração de poema metrificado (nos não metrificados isso é muito fácil) é usar, conscientemente, rimas que não têm cara de rimas, e nem digo das toantes, que por hábito ou instinto, sei lá, vêm no embalo das palavras e da possível emoção que elas buscam transmitir. Apesar de gostar delas, não abuso delas, para não banalizá-las no conjunto de meus escritos. Há um tipo, em especial, que sobrevive apenas em uns três pequenos poemas menores (não anoto quando esse tipo de rima me ocorre ou, quando anoto, elimino depois). Tenho certeza de dois desses poemas, publicados em blogs que mantenho. Em vez de usar a tônica da rima na última palavra do verso, uso na penúltima palavra. Por força, a última palavra é uma sílaba átona. O leitor sente “algo”, mesmo sem identificar o recurso. Eis as estrofes em que isso ocorre (observem: “vendo as” com “amêndoas” e “cáqui” com “há que”).

Do livro Subversos:

Engulo imagens dissímeis
e sofro mais que ela vendo as
fotos de veias rompidas
e de pânicas amêndoas.

Do livro A Canção Antecipada:

Não, mas não ainda as chamas
de um ateneu deletério.
Porque se faz necessário
andar, atravessar praças
e sentir o brim da roupa
em seu aroma e em seu cáqui.
Porque há o impositivo,
a irredutibilidade.
Não, mas ainda não. Há que
se ter domínio das chamas.

(Hamilton Carvalho)
(15/5/2016)



sábado, 9 de abril de 2016

O nome dela

O nome dela é como se fosse
palavra obscena.
O nome dela exclui o corpo dela,
o que é dela.

O nome dela é palavra
obscena,
não diz da mente dela.

Não posso dizer o nome dela.
Mas abraço o corpo dela
e não digo o nome dela,
é palavra obscena.

Hamilton Carvalho
(9/4/2016)

domingo, 4 de outubro de 2015

Estatuária


Não é preciso que eu fale grego
para entender teu perfil oculto
entre os cabelos, nem é preciso
que eu seja completamente cego
para apenas intuir teu vulto
(às vezes) algo perto de mim.

Não me interessa teu idioma,
nem o que fazes entre os escombros
de Troia, se traduzo teus lábios.
É. Não me importa porra nenhuma
se não me apoias nos magros ombros
que suportam o peso do mundo.

O reencontro é inevitável, embora
meus passos não batam com os teus.
Há sempre a encruzilhada do tempo,
que não é a mesma do chão de agora.
Visitarei todos os museus,
a deixar a mentira dos rastros.

Sim. Não me encontrarás em teus braços.

Hamilton Carvalho
(30/9/2015)

Gostei

Gostei.
Convivi com Edgard Allan, o Poe.
O que estragou foi Charles-Pierre, o Baudelaire,
com tradução de canoa sem seiva de cannabis,
em espécie de périplo paraguaio de Pedro Juan Caballero
com crianças babacas a bordo,
traindo o amante leminskiano de Rimbaud
que nunca se iludiu quanto a aicai ser verso livre.

Gostei, gostei mermo
quando Charles-Pierre, o Baudelaire, quebrou
a perna do albatroz, perfeito poeta em performance perfeita.
Só não gostei porque sei que Charles, o Pierre, comeu uma negra
e Rimbaud foi muito mal comido pelo amante leminskiano,
e assim a poesia ganhou Oswald de Andrade
na Semana de Arte Moderna
e Guilherme de Almeida traduzindo algumas flores, digamos
do mal.


25/9/2015
(Hamilton Carvalho)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Shakespeare, uma nota poética

William Shakespeare nasceu em 23 de abril de 1564 e morreu em 23 de abril de 1616, em Stratford-upon-Avon. Eis um velho poema e alguma referência:

RETORNO
Ah-ah, o outro que se vire
nas mãos do agiota Shakespeare.
Will, Will, que Stratford recolha
teus cansados gonococos,
porque ficamos blasés.
Um dia ela acorda, Will,
a exalar o ácido graxo
de um estômago senil.
Então dirás: “Sou palhaço.”
Como somos imbecis.
Era preciso que houvesse
uma bicota no escuro,
sem dentes e devaneios,
em teatro de bonecos:
o tálamo como palco.
Há toda uma estrada real
entre nós. E o vinho adúltero
alterado da estalagem.
E a peste. E o fogo e o feto,
e o fantasma de meu pai.
Somos como por acaso
no pátio escuso do mundo,
nas estrebarias de Áugias,
sob as vestes fedorentas
e mecenas da rainha.
Acaso. Nos bastidores o verso
incinerado. Eu me compro
ao preço vil do retorno,
mesmo no medo das pontas
atadas do vão destino.
Um dia ela acorda, Will,
e toda crepuscular,
à luz do longo abandono,
te ofertará tua, a própria
caveira.
(Hamilton Carvalho)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Idealismo e democracia

No início de fevereiro, uma garota me calçou depois de ler uma de minhas intervenções inconsequentes no Twitter. Ela teclou:

 Temos que ter em mente que o PT está no governo, mas não tem o poder. Este continua com a elite.

Tropiquei, no sentido baiano do termo, e fui no embalo:

– Exato. Não tenho ilusão de classe. O que quer dizer que o PT no poder não é o povo no poder.

Ela foi enfática, em caixa-alta:

– EU NÃO DISSE QUE O PT ESTÁ NO PODER. Ele está APENAS NO GOVERNO e tenta fazer o que pode pelo povo.

Com aquele jeito falso (e irritante) de quem concorda, e escrevendo classe no singular para economizar caráter (sem trocadilho), pontifiquei:

– Exato. O PT apenas administra para a classe que está no poder.

Mas as coisas não devem ser reduzidas a tuítes e retuítes, como papeizinhos presos em pernas de pombo-correio para determinar o rumo de uma ação imediata.

Apesar do exuberante idealismo, a moça não tinha como explicar a que diabo de poder ela se referia, nem muito menos como exercê-lo. Disse poder em geral, como poderia ter dito democracia em geral, pois não suponho, de forma nenhuma, que ela almeje, conscientemente, uma ditadura em particular, um tipo de Estado. O partido que ela tão ardorosamente defende está “apenas” no governo.

E aqui voltamos ao texto anterior. Ou melhor: ao desejo expresso nele.

Ter posição definida ao lado dos explorados não é fácil. Você chama para a briga aqueles que têm longa, secular experiência na dominação, que envolve a exploração do trabalho, a repressão aberta ou dissimulada em “segurança pública”, o acesso ao conhecimento e aos meios usados em benefício dessa dominação e crenças e preconceitos inculcados cotidianamente, criando a ilusão de que as artes e as ciências e o bem-estar são bens universais ao alcance de todos. Ou seja, a democracia tem valor universal, porque engloba tudo isso e mais alguma coisa a que todos, igualmente, têm direito, mesmo que, de fato, a maioria não tenha direito a porra nenhuma ou se veja constantemente ameaçada de perder algumas das poucas conquistas alcançadas a duras penas.

Ora, ter posição definida na luta de classes ao lado dos oprimidos, sentindo-se um deles ou não, é ser claramente a favor de uma ditadura em particular: a democracia proletária. Isto é – para não irritar aqueles que possam alegar que não existem mais pessoas úteis tão somente para procriar –, a democracia dos pobres, daqueles que, hoje, não são donos do que produzem.

Não se pode falar de democracia para todos numa sociedade dividida em classes, em explorados e exploradores. E não se poderá falar de democracia para ninguém quando não houver classes. Isso é mais do que reconhecido e discutido – e mais do que sentido pelos oprimidos –, mas muita gente não entende o seu alcance porque não se pergunta: democracia para quem?

A minha idealista contraditora do início deste texto intuiu a essência do problema, ao situar, de um lado, um partido político de extração popular e, de outro, os exploradores, a “elite”. Apenas intuiu. Porque as classes sociais são representadas por partidos, e é por meio dos partidos que elas chegam ao poder, ou seja, só assim elas governam. Para isso, o partido tem que expressar a ideologia dominante, e os partidos pequeno-burgueses fazem isso muito bem, e em alguns momentos até se superam nesse papel coadjutor.

Governar sem estar no poder, fazendo “o que pode”, só mesmo se Deus ou a burguesia quiser. Puro, puríssimo idealismo.

 

Hamilton Carvalho

(3/4/2015)

domingo, 29 de março de 2015

A pressão ideológica

Seria preciso que me detivesse mais sobre o tema que pretendo (não sei se vou conseguir) abordar aqui, e refletisse mais sobre ele, para que o texto fosse conciso e objetivo, e justificasse o artigo definido do título, tão absoluto.
O caminho mais fácil é, sem dúvida, começar pela experiência pessoal. Mas, no meu caso, isso não funcionaria. Tive o “privilégio” de iniciar a militância política durante a ditadura militar no Brasil. É claro que a ditadura estava ali para defender os interesses das classes dominantes e do imperialismo, era um estado-maior da concentração ideológica pela manutenção do capitalismo.
No entanto, os grupos revolucionários, mesmo com divergências significativas entre si, e apesar do caráter pequeno-burguês predominante neles, eram “amarrados” pelo fio da luta pela democracia.
Que democracia? Veremos depois.
A questão ideológica não era tão crucial como agora, embora sempre e necessariamente presente.
Eu, por exemplo, não tinha que me debater com colegas de trabalho e com a família quanto à minha posição na luta de classes. Dado o secretismo da atuação organizada, o que se via, no máximo, principalmente na efervescência do movimento estudantil, era “coisa de jovens” que, com a idade, “sossegariam”. Havia certa tolerância melosa por parte dos que nos amavam ou daqueles com quem partilhávamos a vida “normal”.
Ou seja, o “abaixo a ditadura”, ainda que pudesse resultar em morte, era aceitável. Dizer hoje “viva a luta pelo socialismo” é coisa de velhos, de dinossauros, de gente perdida no passado. A pressão ideológica sobre a juventude é tremenda.
O problema é mais acentuado quando se trata da militância política organizada. A sociedade burguesa é permeada de organizações – sindicais, religiosas, de jovens, de mulheres, de minorias em geral. Aceitam-se tais organizações, desde que não avancem o sinal da ideologia burguesa e mesmo que elas defendam algumas conquistas que só se efetivarão no socialismo.
Participar de uma organização ideologicamente definida pode ser motivo de vergonha. A ironia, o escárnio, o conselheirismo também são armas das classes dominantes, empunhadas garbosamente pela pequena burguesia “culta”. Aqui se reproduz, mesmo inconscientemente, uma das características do capitalismo que intimida a iniciativa, embota a capacidade de discernimento das pessoas, o poder de decisão delas, seu “livre-arbítrio”.
É assim a “democracia para todos” – expressão que, em si, já é um contrassenso. Para falar com propriedade sobre pressão ideológica seria preciso abordar a questão da democracia “em geral”, a que abstrai a existência da luta de classes. Veremos depois.

Hamilton Carvalho
(29/3/2015)