quinta-feira, 23 de abril de 2015

Shakespeare, uma nota poética

William Shakespeare nasceu em 23 de abril de 1564 e morreu em 23 de abril de 1616, em Stratford-upon-Avon. Eis um velho poema e alguma referência:

RETORNO
Ah-ah, o outro que se vire
nas mãos do agiota Shakespeare.
Will, Will, que Stratford recolha
teus cansados gonococos,
porque ficamos blasés.
Um dia ela acorda, Will,
a exalar o ácido graxo
de um estômago senil.
Então dirás: “Sou palhaço.”
Como somos imbecis.
Era preciso que houvesse
uma bicota no escuro,
sem dentes e devaneios,
em teatro de bonecos:
o tálamo como palco.
Há toda uma estrada real
entre nós. E o vinho adúltero
alterado da estalagem.
E a peste. E o fogo e o feto,
e o fantasma de meu pai.
Somos como por acaso
no pátio escuso do mundo,
nas estrebarias de Áugias,
sob as vestes fedorentas
e mecenas da rainha.
Acaso. Nos bastidores o verso
incinerado. Eu me compro
ao preço vil do retorno,
mesmo no medo das pontas
atadas do vão destino.
Um dia ela acorda, Will,
e toda crepuscular,
à luz do longo abandono,
te ofertará tua, a própria
caveira.
(Hamilton Carvalho)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Idealismo e democracia

No início de fevereiro, uma garota me calçou depois de ler uma de minhas intervenções inconsequentes no Twitter. Ela teclou:

 Temos que ter em mente que o PT está no governo, mas não tem o poder. Este continua com a elite.

Tropiquei, no sentido baiano do termo, e fui no embalo:

– Exato. Não tenho ilusão de classe. O que quer dizer que o PT no poder não é o povo no poder.

Ela foi enfática, em caixa-alta:

– EU NÃO DISSE QUE O PT ESTÁ NO PODER. Ele está APENAS NO GOVERNO e tenta fazer o que pode pelo povo.

Com aquele jeito falso (e irritante) de quem concorda, e escrevendo classe no singular para economizar caráter (sem trocadilho), pontifiquei:

– Exato. O PT apenas administra para a classe que está no poder.

Mas as coisas não devem ser reduzidas a tuítes e retuítes, como papeizinhos presos em pernas de pombo-correio para determinar o rumo de uma ação imediata.

Apesar do exuberante idealismo, a moça não tinha como explicar a que diabo de poder ela se referia, nem muito menos como exercê-lo. Disse poder em geral, como poderia ter dito democracia em geral, pois não suponho, de forma nenhuma, que ela almeje, conscientemente, uma ditadura em particular, um tipo de Estado. O partido que ela tão ardorosamente defende está “apenas” no governo.

E aqui voltamos ao texto anterior. Ou melhor: ao desejo expresso nele.

Ter posição definida ao lado dos explorados não é fácil. Você chama para a briga aqueles que têm longa, secular experiência na dominação, que envolve a exploração do trabalho, a repressão aberta ou dissimulada em “segurança pública”, o acesso ao conhecimento e aos meios usados em benefício dessa dominação e crenças e preconceitos inculcados cotidianamente, criando a ilusão de que as artes e as ciências e o bem-estar são bens universais ao alcance de todos. Ou seja, a democracia tem valor universal, porque engloba tudo isso e mais alguma coisa a que todos, igualmente, têm direito, mesmo que, de fato, a maioria não tenha direito a porra nenhuma ou se veja constantemente ameaçada de perder algumas das poucas conquistas alcançadas a duras penas.

Ora, ter posição definida na luta de classes ao lado dos oprimidos, sentindo-se um deles ou não, é ser claramente a favor de uma ditadura em particular: a democracia proletária. Isto é – para não irritar aqueles que possam alegar que não existem mais pessoas úteis tão somente para procriar –, a democracia dos pobres, daqueles que, hoje, não são donos do que produzem.

Não se pode falar de democracia para todos numa sociedade dividida em classes, em explorados e exploradores. E não se poderá falar de democracia para ninguém quando não houver classes. Isso é mais do que reconhecido e discutido – e mais do que sentido pelos oprimidos –, mas muita gente não entende o seu alcance porque não se pergunta: democracia para quem?

A minha idealista contraditora do início deste texto intuiu a essência do problema, ao situar, de um lado, um partido político de extração popular e, de outro, os exploradores, a “elite”. Apenas intuiu. Porque as classes sociais são representadas por partidos, e é por meio dos partidos que elas chegam ao poder, ou seja, só assim elas governam. Para isso, o partido tem que expressar a ideologia dominante, e os partidos pequeno-burgueses fazem isso muito bem, e em alguns momentos até se superam nesse papel coadjutor.

Governar sem estar no poder, fazendo “o que pode”, só mesmo se Deus ou a burguesia quiser. Puro, puríssimo idealismo.

 

Hamilton Carvalho

(3/4/2015)

domingo, 29 de março de 2015

A pressão ideológica

Seria preciso que me detivesse mais sobre o tema que pretendo (não sei se vou conseguir) abordar aqui, e refletisse mais sobre ele, para que o texto fosse conciso e objetivo, e justificasse o artigo definido do título, tão absoluto.
O caminho mais fácil é, sem dúvida, começar pela experiência pessoal. Mas, no meu caso, isso não funcionaria. Tive o “privilégio” de iniciar a militância política durante a ditadura militar no Brasil. É claro que a ditadura estava ali para defender os interesses das classes dominantes e do imperialismo, era um estado-maior da concentração ideológica pela manutenção do capitalismo.
No entanto, os grupos revolucionários, mesmo com divergências significativas entre si, e apesar do caráter pequeno-burguês predominante neles, eram “amarrados” pelo fio da luta pela democracia.
Que democracia? Veremos depois.
A questão ideológica não era tão crucial como agora, embora sempre e necessariamente presente.
Eu, por exemplo, não tinha que me debater com colegas de trabalho e com a família quanto à minha posição na luta de classes. Dado o secretismo da atuação organizada, o que se via, no máximo, principalmente na efervescência do movimento estudantil, era “coisa de jovens” que, com a idade, “sossegariam”. Havia certa tolerância melosa por parte dos que nos amavam ou daqueles com quem partilhávamos a vida “normal”.
Ou seja, o “abaixo a ditadura”, ainda que pudesse resultar em morte, era aceitável. Dizer hoje “viva a luta pelo socialismo” é coisa de velhos, de dinossauros, de gente perdida no passado. A pressão ideológica sobre a juventude é tremenda.
O problema é mais acentuado quando se trata da militância política organizada. A sociedade burguesa é permeada de organizações – sindicais, religiosas, de jovens, de mulheres, de minorias em geral. Aceitam-se tais organizações, desde que não avancem o sinal da ideologia burguesa e mesmo que elas defendam algumas conquistas que só se efetivarão no socialismo.
Participar de uma organização ideologicamente definida pode ser motivo de vergonha. A ironia, o escárnio, o conselheirismo também são armas das classes dominantes, empunhadas garbosamente pela pequena burguesia “culta”. Aqui se reproduz, mesmo inconscientemente, uma das características do capitalismo que intimida a iniciativa, embota a capacidade de discernimento das pessoas, o poder de decisão delas, seu “livre-arbítrio”.
É assim a “democracia para todos” – expressão que, em si, já é um contrassenso. Para falar com propriedade sobre pressão ideológica seria preciso abordar a questão da democracia “em geral”, a que abstrai a existência da luta de classes. Veremos depois.

Hamilton Carvalho
(29/3/2015)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Sartriana


Que me importa eu
se o outro é você?
Que me importa a merda,
se estamos nela você e eu?

Não é fácil, amiga,
nunca poderia ser fácil.

Eu me curvo,
e culpo você.
Qual é a graça
de me culpar
se a culpa é de todo eu?

Hamilton Carvalho
(9/12/2014)

sábado, 16 de agosto de 2014

Soneto

Não é que eu fique triste, ou me deprima.
É que às vezes me curvo sobre mim,
e você, que venero, está acima
do que não tem começo nem tem fim.

Não é que eu me exiba ou que faça esgrima.
É que às vezes você não é um sim,
nem pode ser não, nem mesmo uma rima,
algo que justifique amor assim.

Mas não estou no meio ou no dilema.
Estou posto no âmago da vida,
que se resolve e em si já é suprema.

É que vejo você acontecida,
não como a chave de ouro de um poema,
mas o peso de noite maldormida.

(13/8/2014)

domingo, 18 de maio de 2014

Direitos autorais, morais etc.


Descumprir leis, tudo bem. Em certos casos, a gente faz que não vê, porque são “tantas coisinhas miúdas”, soterradas pela vida, que não tem sentido brigar por causa delas. Ser legalista às vezes dói. Sem falar que legislador tem mania de ao pé da letra, mas sempre faz uma contrapartidazinha para a letra ficar com uma perna maior e precisar de muleta do outro lado. Tacam lá: “Caracteriza-se como tal coisa a ação tal, desde que...” O desde-que deixa tamanha brecha que há quem acredite que o melhor é “administrar” as coisas e tirar proveito delas, pois, sem-vergonhamente, caráter existe mesmo é para se ausentar.
Mas façamos “de conta que o tempo passou”, e passou tão bem que endireitou toda a legislação do planeta, ajustando-a primorosamente à vida, à realidade, às necessidades humanas. É então que nos damos conta de que existe, chamejante como a espada do rei Artur, uma lei chamada “do direito autoral”, a navegar, soberana, no éter dos céus do Brasil (sem, todavia, ser etérea).
Agora, sim, nada de descumprir lei. Os músicos – antigamente “esses moços, pobres moços” – estão garantidos. Não são mais (só) românticos, nem diletantes, nem pedintes de “incentivos culturais”. São “operários em construção” – embora o termo operário pegue muito mal em intelectual e avacalhe com os calos alheios.
Suponhamos que tudo seja de fato assim mesmo: músicos produzindo e recebendo pelo que produzem. A cultura se enriquece, o espírito das massas se amplia e o povo passa a “cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”, ainda que pague imposto e tenha de tolerar Djavan (que não é o autor do trecho entre aspas).
Eis a viger, em toda a plenitude, a augusta Lei do Direito Autoral.
Só que, admitamos, ela é um tanto presunçosa. Quer ir além do estômago dos autores e passa a tratar também da parte moral. A lei chegou até aqui todo-poderosa; agora não o é mais. Ela é durona – ainda de acordo com a nossa suposição, que está mais para cínica do que para cênica – quanto aos aspectos materiais, mas não pode fazer nada no que diz respeito à moralidade dos tempos e das têmperas.
Um dos direitos morais do criador preconizados pela 9.610 é “o de ter seu nome, pseudônimo ou sinal convencional indicado ou anunciado, como sendo o do autor, na utilização de sua obra”. Afora o horrível “como sendo”, o tempero moral não chega a arder ou fazer que a pressão arterial suba.
Acontece que moral não se bota, feito ovo. Não há decreto que faça canalha moralizar-se. Não há dever moral que se determine por lei. Então, cria-se jurisprudência. E, assim, todos nós, transgressores e transgredidos, ficamos numa boa, na harmonia do deixa pra lá.
As rádios – particularmente as FMs ditas de classe A ou classes A e B – não informam o nome dos autores das músicas, nem antes nem depois da execução, muito menos anunciam, o que pressupõe a informação antes da execução. Depois que são tocadas três ou quatro músicas, irrompe em nossos ouvidos a voz cavernosa de um homem ou a xaroposa de uma mulher informando o nome dos intérpretes – a começar pela derradeira executada, o que endoidece qualquer entendimento. E isso, ainda por cima, só até determinada hora da noite. A partir daí – e nos fins de semana –, nem autores nem intérpretes têm o direito moral respeitado. Antes da lei, bem antes, o nome dos autores – que raramente gravavam as próprias músicas – era reconhecido pelo público.
Até hoje se ouve falar de Evaldo Gouveia, Jair Amorim, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Cartola, Pixinguinha – e mais um punhado. Antigamente, anunciava-se a canção de um desconhecido Tom Jobim em parceria com Dolores Duran, uma estrela, sem o menor constrangimento. Sabia-se até o nome de autor de marcha de carnaval, que, pelo fato de arrastar multidão nos salões e nas ruas, caía facilmente no domínio público, e público festivo não se preocupa com memória. Mas era sabido: “Ó abre alas” foi composta por Chiquinha Gonzaga.
Sem rigor de lei, os comunicadores daqueles tempos pareciam cultivar a honestidade intelectual, ou mesmo – vá lá – a ética.
Hoje, dono de veículo de comunicação não respeita compositor. Assim, o público não pode respeitar compositor. Não se pode respeitar o que não se conhece. Nesse caso, descumprir lei não dói. Fica a dormência da omissão.

Hamilton Carvalho
(Notícias de Goiás, n.º 27, 28/12/2006)

sexta-feira, 14 de março de 2014

Estou assim como se no patíbulo / O homem é uma fruta


                                                                                                      [Ricardo Geier]

           
                1

A ponte pertinho da água
tão perto que espremia a sombra
a sombra cada vez mais densa
mas a água tinha pontinhas de luz
a água enrugando-se tem luz.
E até onde a ponte não permite a queda,
segurando-nos pelo peito,
eu não fazia o poema.
Eu nem sequer chorava.
O vento secava a saliva de meus lábios
a palavra seca estalava
feito galho pisado numa floresta incinerada.
Eu dizia: Amor me toma pelos braços
mas na verdade sentia a morte nas pernas
uma dor aguda me arrancava a próstata
e eu tinha vontade de comer jabuticaba
à margem do córrego.
Eu não queria saltar a balaustrada
a água estava muito perto
e com a aparência fria de noite que chega ao ar livre.


                    1

O homem pisa no concreto
nem sabe que existe
faz conjeturas e ousa devaneios
curva-se diante duma planta
e a esmaga depois com as mãos.
Na virilha dos dedos a seiva
um verde que adentra poros e veias.
O homem redivive no crime
nem se soubera morto ou fraco
nem se soubera finito ou gente
apenas carrega o medo
um encontro no dia seguinte.
Mas o homem não larga a ponte
e consigo tem a saudade da planta
porque ele fez o estar e o que passou.
O homem cimenta as próprias emoções
mas também faz pontes
e também procura plantas
só que para no meio da ponte
e esmaga a planta.
E ei-lo que se esquece se esquecendo
pelo medo mediterrâneo de ser.


                               2

Não faço o poema
nem sequer me imagino em pranto.
Edito uma postura e saio
ato as palavras e as atiro ao fundo.
Ao fundo de quê? Do nada
que multiplico e deduzo de mim.
As palavras tecidas compõem a antenoite
fluem como o escuro
ou como a água embaixo da ponte
como o escuro que chega
como a água que passa
ou como o que sou e se acaba.
Foi sonho querer inovar
o gesto é lento e maduro
é o mesmo bordado
é o mesmo traçado
mas a cor uma só
um vermelho de sangue e carne crua.
Nem sequer imagino o poema
ele é uma gengiva impregnada
de ideias
com uma risca de sangue
que o dentifrício adultera.


                               2

O homem é tão real quanto uma lágrima
mas sonha impossível o impossível
e quase grita de desespero
quando não encontra no finito a saída.
Frio de existir
água gelada nas têmporas
há uma chuva fininha no vento.
Perfume de ervas arrancadas
pelo dente dos animais
um ruminar vivências e desaconchegos
as estradas são opção no corpo do medo.
A mão próxima que escapa
o galvanizar dos desencontros
na mesma ponte do viver
porque o ser se estratifica para além do ser
e se mira ruínas de si e do outro
pois o homem não é só
uma coluna que resiste única no tempo.
O homem é a ponte para o outro e para si.
O homem é mais real que o mundo.



                               3


Meus dedos estão lívidos no parapeito
a poesia não existe
gaze na ferida recém-aberta.
Logo me vejo ali e me sinto entre mesas
minha geração na voz dos Beatles
nascente feito sangue aos borbotões.
Alguém me bolina nos rins
esqueço o choro que me coça o nariz
e me ergo como o pênis numa ereção sem promessa.
Não peço nada além de um canto
os olhos porém são ávidos de resposta
e as mãos procuram o copo
a garganta quer um gole e um grito.
E eu grito acima da ponte e de mim
sou tão pequeno e a ponte sem trânsito.
Todas as insuficiências me chegam
infladas de hipocrisia alheia
e me premiam com afável sorriso
quando o que quero é carne, sangue
algo violentamente humano e próximo
em que a gente toca e ao qual se transporta.



                               3

O homem é a concreção de si
um cruzamento de estrias e passos
um caminho desandado
um ermo.
O homem é o homem sem propósito
um pedaço de ponte caído na água
a palavra errada nos lábios mais certos.
O homem é um sacolejar de vísceras
promessa de amor promessa de amor
e um repente de solidão e agonia
a única arma é o suicídio
que repousa inquieto nas mãos.
Um dito sem resposta é o homem
o poema é o dito impossível
e o verso está na conta do sonho
e nada é como é: sério.
E o homem brinca consigo
crê apenas que morre um dia
mas a dor em ser é a maior
e é ao mesmo tempo a quimera.
O homem é uma merda qualquer
e vale por si a grandeza de tudo
até a luz no fim do túnel.


                               4

Não é preciso ter-me beijado
para saber do amargo.
Basta um olhar ou um verso de soslaio
uma letra numa cripta ou um exame de urina
um calendário marcado
uns lábios que não aceitam compromissos falsos.
Nem é preciso buscar-me à ponte
para saber da inclinação à morte
não cultivo estações nem gozo nas coxas
sou agudo nas intenções concretas
já pronto para as recusas querentes.
Não é preciso ter-me encontrado bêbado
para saber da embriaguez
acumulo porres e vômitos históricos
minha filosofia está grudada nos dedos
e não se pode esperar que eu a traia num brado alcoólico.
Não é preciso querer-me beijar
só quero curtir uma vulva intumescida.



                               4

O homem se pôs concreto na pista
visualizou-se maneiras e tiques
esborrachou a cara do terror sob os pneus
internou-se na clínica
comeu alface e fez metafísica.
O homem estalou feito coração envenenado
o ar da cidade é pior que o de insolência
havia um punhado de coisas para fazer
inclusive uma mentira e um gesto premeditado
como verso largamente esperado.
O homem é a redundância das comparações
um ônibus lotado que se inclina na beirada da rua
um urubu visto agasalhado no passado chuvoso.
O homem é uma brita mordida.



                               5

Prefiro falar de mim na curva
porque a derrapada é iminente
e prefiro falar de mim à janela
porque posso me fechar de repente.
Fui animal repulsivo
agora me fito no espelho do rio
sou vaso oblíquo para a bundona do burguês
e sou cacófaton bem posto
e sou piolho no saco
sou punheta dantesca
e sou desprezo aceito e fichado em meu arquivo
mas sou sobretudo um jeito.
Prefiro falar de mim no casulo
porque ainda não tenho asas
e prefiro falar de mim sobre o penhasco
porque o salto é a única coisa palpável.
Fui misteriozinho frívolo
agora sou engano que não se decifra.



                               5


O homem é sonho de mar em alto-mar
e é o desinquieto das sobrancelhas
e o sinaleiro da encruzilhada.
Mas é o desvario da posse
e o irresponsável da paz
e o ruído de um copo quebrando-se.
O homem é a silhueta na ponte
e um sapato na correnteza
um rio abaixo
um fio de leite nos lábios
uma coisa antes do trago
um arrepio insolúvel da carne
o que não devia e não o devir.
O homem é um ser encurralado
a ânsia do retorno e a predisposição do fumo.
Mas é a permanência do outro
e a consciência do que é futuro
e a consequência do que é remédio
e é sobretudo o veneno da demência
e a dissolução do pacto.
O homem é o bode expiatório de si
e um pato.


                               6

Estou é na ponte e não em mim
estou fora de mim com as mãos no bolso
uma sensação de orgasmo na boca
e uma frieza descarada nos pés.
Estou assim como se no patíbulo
e miro a água fragmentando-se em luz rápida
impressão inumana de poesia conceitual
falta de crença e de filosofia
reivindicando o nonsense pelo amor de deus
sou uma espécie de vácuo vestido de negro
talhado como terno torto no cabide
uma claraboia imersa no pranto.
Estou e sou tão desencanto
um faxineiro bebendo à porta do bar e pensando no amanhã.
Vou engolir a ponte.


                               6

O homem é fácil
qualquer algo que se move
um caminhão de mudanças
um animal domesticado.
O homem se espelha na árvore podada
e na poluição dos afogados.
Há dias em que o homem tem repentes
mas é a mesma coisa de sempre
a imobilidade
a estatueta de bronze.
Por incrível o homem é mulher
e tem mania de colecionar selos
e escolher ditaduras.
O homem é uma lágrima na gravura
um espinho na unha
um pontapé nos testículos.
O homem é necessário
é aquilo que se ama
uma imensa ternura
um choque tremendo na nuca.
O homem é uma fruta
a boca que ele mesmo colhe e chupa.

Hamilton Carvalho
(Agosto de 1978 Vida Cultural, órgão do Clube Luso-Brasileiro da Universidade do Colorado em Boulder, EUA, n.os 35, 36 e 37)