domingo, 25 de maio de 2025

Nós e ao redor de nós

 

                                                                                                        [Blog Farpas Pombalinas (Portugal)]

Entre você e mim

há o melhor de nós;

ao redor de nós,

outros melhores que não somos

nos destecem,

e não somos nó dos outros

para que nos desatem

ou apertem.

 

Você difere de mim na essência,

que bom,

e é por isso que somos cada um,

e cada um ama cada um

em tecedura,

inteiros apartados,

e nosso encontro é agendado

para todos os dias,

quando pego um pouco

e você pega um pouco do melhor 

(bom ou nem tanto)

que faz liga

e exubera entre nós.

 

 

23/5/2025
Hamilton Carvalho

terça-feira, 15 de abril de 2025

Ipasgo: privatiza que melhora

Cara de Bruno Magalhães D'Abadia no site do instituto


O presidente do Ipasgo Saúde, Bruno Magalhães D'Abadia, mente descaradamente em documento oficial (“Carta ao beneficiário, em que estabelece que o pagamento das coparticipações ESTARÁ restabelecido em 4 de abril em e-mail enviado no dia 12, querendo enganar com a volta no tempo) ao afirmar que, “... com relação às coparticipações referentes a 2024 e INÍCIO de 2025, OS VALORES SERÃO COBRADOS DE FORMA PARCELADA”. (Os destaques em maiúsculas são meus.) Ele afirma isso ao tratar da coparticipação em consultas e exames que o Ipasgo teria deixado de cobrar desde agosto de 2024, com a “competência” de um serviço público privatizado.

Assinei autorização de débito em conta de mensalidades para o dia 10 de cada mês. A cobrança de consultas e exames médicos é feita individualmente, na medida em que tais consultas e exames são realizados e informados pelas clínicas, que pedem confirmação de débito em conta da parte que cabe ao “beneficiário”, que tem a opção de pagar no ato de atendimento.

Pois mandaram um pacote de coparticipações de JANEIRO (que, suponho, é início de ano) para os lançamentos futuros do banco, pacote a ser debitado AMANHÃ, dia 15, inclusive a cobrança de um exame feito em NOVEMBRO, o que, por si só, determina a nulidade de toda essa palhaçada. Inviabilizam o pagamento de um erro que não foi meu: não encontrarão saldo. Outra mentira do deslumbrado presidente: “As parcelas estarão disponíveis a partir de 5 de MAIO de 2025 COM PAGAMENTO A PARTIR DO DIA 15.”

Entrei em contato com o Ipasgo por meio dos canais a que pude ter acesso e me informaram, coerentemente, apenas o que podia ser informado, ou seja, em conformidade com a “Carta” do aéreo e desinformado presidente. Fui empurrado até a Ouvidoria, que me abriu um corredor polonês de burocracia de volta aos mesmos “canais” que já havia consultado, porque assim são os “procedimentos”.

Vejam os prints, se tiverem paciência.

 

 

14/4/2025

Hamilton Carvalho






sábado, 20 de julho de 2024

Ciclopes

 
                                                                                    [Getty Images]

O tato cego com que te contemplo
erra às vezes, às vezes tremeluz.
Busco sempre o que é o centro de tudo,
e sou meio que sempre periférico.

 

Todas aquelas árvores molhadas

pela única lágrima secaram,

e deteve-se o ritmo das marés

que faziam a festa dos teus pés.

 

Todo o capim cortante amarelou

à borda de manhãs e voçorocas.

Traçaram-se divisas entre nós,

retalhando o universo com seus átomos.

 

Partimos e voltamos, tons tantálicos

das ausências de lá e das de cá,

borradas nos redutos e nas fugas,

renovadas em todo tempo velho.

 

Viemos de outras horas, as melhores.

As que se enlameavam do perene

amor de amar em becos e sarjetas

e sobreviver mais, sangue lavado.

 

Todos os seres eram nosso ser,

amálgama de lágrimas sozinhas.

Até que nos restasse só um olho

no lugar das paredes demolidas.

 

Colorimos as perdas e ficamos

sempre em todos os pontos de partida,

para ninguém chegar perto do fim

e das recordações desesperadas.

 

E fazemos as vezes de ciclopes,

cada um na própria solidão e juntos.

O tato cego com que me contemplas

tem dois sentidos e uma direção.

 

As barricadas nunca serão sempre.

 

 

(20/7/2024)
Hamilton Carvalho

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Supervivência

                                                                    [Carlos Costa]


Não sou do teu amor de passos furtivos.

Sou de escuridão calada.

Vesgo de estradas,

noites maldormidas.

 

Imagina.

 

Sou dos que sentem desde longe

a hora da chegada, e vale a pena

até mesmo a hora interrompida.

 

Sou da véspera das catástrofes,

e o que não é sorrateiro me atrai,

o sol queimando as retinas.

 

Sou óbvio como as vítimas,

as que morrem ou sufocam.

As que sobrevivem.

 

 

Hamilton Carvalho

(25/7/2022)

domingo, 27 de agosto de 2023

A carga


                                                                                   [Jens Rademacher/Unsplash]


  

 

Estou que me escondo contrabando.

 

Sim, Cassandra,

não mais predigo catástrofes,

estamos gastos.

Já fui gângster em Detroit

e viajei

até Monterey,

estive de passagem

na rua das ilusões perdidas,

ali no bairro da lata,

e sei como seria foda

morrer de overdose em Nova York,

não na Califórnia de Steinbeck.

 

Com o olhar para além da popa

tudo o que levo

é de amor a granel

distribuído em contêineres,

inexpressivo,

sem trademark

e sem destino.

 

 

(21/8/2023)

 

 Hamilton Carvalho

 

 

———
O romance Cannery Row (1945), do estadunidense John Steinbeck (1902-1968), tem tradução brasileira, com o título A Rua das Ilusões Perdidas (A. B. Pinheiro de Lemos), e portuguesa, com o título Bairro da Lata (Luiza Maria de Eça Leal).

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Pacto de sangue

                                                             [imagem Depositphotos]


Teus pulsos pusilânimes

me suprem de sangue morno.

A grama seca, o funchal, o pântano,

qualquer canto

em que me escorra e seja plasma morto

bebido em mandacarus.

 

Nem teus olhos,

nem teu nariz.

Tudo é deserto

em luxúria única,

com urubus e bundas

ou o perfume

da boca que não engulo.

Tudo no seu tudo

deserto

e sem vez.

 

Te amo de te amar,

embora me morda vampiro de mim.

E me encontro e me masturbo

quando a estrada que sigo não me segue,

e persegue.

 

E é quando não quero

a não ser tu.

 

O teu sangue morno

que me arranca do que serei.

 

 

22/6/2023

Hamilton Carvalho