sábado, 20 de julho de 2024

Ciclopes

 
                                                                                    [Getty Images]

O tato cego com que te contemplo
erra às vezes, às vezes tremeluz.
Busco sempre o que é o centro de tudo,
e sou meio que sempre periférico.

 

Todas aquelas árvores molhadas

pela única lágrima secaram,

e deteve-se o ritmo das marés

que faziam a festa dos teus pés.

 

Todo o capim cortante amarelou

à borda de manhãs e voçorocas.

Traçaram-se divisas entre nós,

retalhando o universo com seus átomos.

 

Partimos e voltamos, tons tantálicos

das ausências de lá e das de cá,

borradas nos redutos e nas fugas,

renovadas em todo tempo velho.

 

Viemos de outras horas, as melhores.

As que se enlameavam do perene

amor de amar em becos e sarjetas

e sobreviver mais, sangue lavado.

 

Todos os seres eram nosso ser,

amálgama de lágrimas sozinhas.

Até que nos restasse só um olho

no lugar das paredes demolidas.

 

Colorimos as perdas e ficamos

sempre em todos os pontos de partida,

para ninguém chegar perto do fim

e das recordações desesperadas.

 

E fazemos as vezes de ciclopes,

cada um na própria solidão e juntos.

O tato cego com que me contemplas

tem dois sentidos e uma direção.

 

As barricadas nunca serão sempre.

 

 

(20/7/2024)
Hamilton Carvalho

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