segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Paralelas

 

 

tua rua não é a que trafego

nem onde me trafico ao infinito,

com neblinas e sóis.

tua rua é de olhos paralíticos,

a minha é o movimento da matéria

 

e não esmorece no topo de sonhos

e arranha-céus,

tem voz quando se cala,

não se acaba em muros ou barricadas:

busca o vasto céu hegeliano

que se abre para além das nuvens.

 

a tua só ocorre se não chove,

e sempre meramente paralela.

 

 

Hamilton Carvalho

(31/8/2021)

terça-feira, 13 de julho de 2021

Em memória de Lênin




 Há quase um século me boto de olho
nesse futuro, o mesmo.
(O não se arrepender do vir é assim,
nos passos de vem menos e vai mais,
passos em frente e atrás.)
 
Nos hemisférios tudo é convenção,
como orquídeas suarentas nas estufas.
Guatemalas frutíferas e weekends
e outras coisas de Asturias
são descontinuação que continua.
 
Como morrer, se não temos mais tempo?
Como preencher os vácuos da memória
se não há mais espaço?
E como agasalhar todos os sonhos
se somos indigentes?
 
Não, não nos reneguemos, camaradas.
Pois a festa de pão e rosas urge,
necessidade histórica.
E sonhar sem escrúpulos
é ter que perseguir cada um dos sonhos.
 
Hamilton Carvalho
(12/7/2021)

domingo, 4 de julho de 2021

Tua voz

 Não, não é que eu não goste de te ouvir;

é que é direito meu não te escutar.

A voz me absurda por tanto estupor,

mas o que dizes não é o que me podes.

 

Porque não me conjugo, e és o perdido

verbo amar. E não te ouço nem te escuto

ou te ouço por amor, inadequado.

Sou o mais que perfeito no gerúndio.

 

Sim. O tempo nos rege ao jeito dele,

e o verbo é tua boca antes do beijo

eternamente por vir que não vem.

 

Tua voz basta de sublime, amada.

Não me exijas, ou culpes, ou canceles.

É tua voz agora ou não é nada.

 

 

Hamilton Carvalho

(2/7/2021)

terça-feira, 9 de março de 2021

Mensagem



Não é você quem redige

nem é você quem envia.

Você se lembra da fonte

sem passado e sem presente

(vem de trás como futuro)

que você nega lembrar

e é fato que persevera.

 

Nem é você quem recebe

nem é você que a faz cinzas.

Você é sem fatos e atos

meramente quer sofrer

como se fosse do acaso

o gesto de receber.

 

 

Hamilton Carvalho

9/3/2021

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Há muito


 

há muito que eu queria dizer

muito tempo e muitas coisas

se esperei tanto espero mais

se tento engolir o bocado que me engasgue

você se borra de maquiagem na calçada porque chove

e a chuva é de nada porque você chora

 

amei você de doer com minhas cachaças e meus sonrisais

amei assim porque só sei fazer besteira em vez de abraçar

e quando abraço não abarco

 

porque amei no barraco mofado

porque comemos no bandejão do RU terceirizado

porque pichamos descalços para não deixar marcas no keds

e para depois esquentar nossos pés juntos indigentes

 

amei porque não havia alternativa

há muito quero dizer

 

 

21/2/2021

Hamilton Carvalho

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Todo dizer


Todo dizer é sem medo,

me medo quando te digo.

Te digo fica comigo,

e vem um desassossego.

Então não te digo e digo,

estou meio que no meio.

 

Eu.

 

Todo dizer tem resposta,

menos quando me respondes.

E respondes vai embora,

e não sei por que caminho.

Então te digo e não digo,

fazendo ares de complexo.

 

 

Hamilton Carvalho

(6/2/2021)

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Soneto da quarentena


Sem você perco os sentidos, os cinco.

Fico até sem o sentido de ser.

Eu poderia perder até quatro

no total, sem ficar meio pinel,

 

a brincar com você cheio de tato.

Mas pondero: perderia até três,

só. O cheiro de você não é chanel,

que se leva no bolso ou na lapela

 

e tira o sentido do próprio olfato.

E o olfato tem algo a ver com o gosto,

não será mera válvula de escape.

 

Ficar sem vê-la e ouvi-la está posto.

Reclamo? Nem tentar. Vai que me diga

que para áudio e vídeo existe WhatsApp.

 

 

Hamilton Carvalho

(10/8/2020)