terça-feira, 19 de maio de 2020

Uma “esquerda” à procura de atravessadores


Dizia velho camarada: o parlamentarismo burguês amolece os ossos. Neste início de conversa, seria aceitável alguma complacência com as pessoas de boa-fé que se deixam levar na onda suave das que defendem a acolhida de adversários não de ontem, mas de agorinha mesmo, com o argumento de que, quanto mais “influenciadores” vierem para o “nosso” lado, mais condições “teremos” de vencer as próximas eleições (quaisquer que sejam elas). Não sou de natureza tão boazinha. Principalmente quando isso significa abrir mão do imprescindível, embora árduo, trabalho de conscientização no sentido que verdadeiramente importa. Nem falo da possibilidade de um ou outro pequeno contrabando ideológico, já que o produto em oferta é de qualidade tão ruim que a ruindade predominaria na mistura, e a massa seria péssima, seria mesmo massa de manobra.
Não se deve aceitar como infinito o horizonte da ideologia dominante. Quem não parte do ponto de vista da luta de classes como ela é fica ao sabor das ilusões parlamentaristas, sem o menor vislumbre de um mundo, agora sim, de infinitas possibilidades. É preciso se lançar no caminho da luta aprendendo e fazendo aprender. A autocrítica que tem tudo para valer, em princípio, até que a prática a confirme, é a de quem esteve e está do nosso lado e cometeu erros. Aos que querem pongar: sejam bem-vindos. O que não se pode fazer é botar a carreta da nossa luta a reboque de feiticeiros ou gurus.
Tentar reduzir a dimensão humana a votos num sistema injusto é coisa de canalhas e sabujos. E é cretinismo parlamentar ao extremo querer atrair para nós líderes a granel, sejam eles velhos caciques ou cacifados novos.
É truísmo, mas a realidade dada tem os seus dados conceitos em validade: é necessário organizar, e organizar com perspectiva revolucionária. Ah, mas o que querem é escamotear qualquer crise que possa servir a esse propósito para preservar “estado de direito”, “democracia”, tudo e todo mundo juntos e diluídos, numa incriteriosa “aliança ampla de salvação nacional”. Têm a pressa e a urgência da pequena burguesia inflamada de dores e pensando em votos. Não se fala mais em estratégia, agora é “tática geral”. Não é busca de unidade contra o fascismo, mas salto no escuro para um amontoado informe, sem combatividade e sem direção precisa e sem o que pôr no lugar de um Estado irremediavelmente contaminado, sem direito nem democracia para quem trabalha e produz, porque se parte do oco, e não de um movimento de massas organizado ou a se organizar.
Não há como singularizar as “esquerdas”. Tenho que me diluir nesse espectro indefinível, ou brigar no meu partido ou na minha organização para focar naquilo que, repito, verdadeiramente importa? Não vou aproveitar o momento em que a feia palavra comunismo circula como nunca e juntar a ela esta bela cara de futuro? Comunista que se preza não precisa de atravessadores. E complacência com os que acreditam nisso seria puro manilovismo.


Hamilton Carvalho
(19/5/2020)

sábado, 17 de novembro de 2018

Bagagem



Não amo.
Minha vida está sem arestas,
sem rota de fuga
e sem coisas portáveis.
Você me encurrala
mostrando a saída:
a porta dos fundos.

Não amo
porque já não nos somo.

Minha aritmética é aquilo
que você dispõe,
noves fora
o que somos
e o que levo.

Nada.


Hamilton Carvalho
(17/11/2018)

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Exceção

Vou abrir uma exceção.
Não importa o que sou dentro
de suposta solidão.
Não importa. Tenho o vício
de um pouco de multidão.

Abro exceção, e te digo:
quando teu cheiro primal
se perder, existem outros
a que possa recorrer,
assim meio que arrogante.

Assim meio, não de tudo.
Porque ainda faz falta
um pouco do que me iludo
(não me eludo) em solidão,
apesar da multidão.

Não importa. Tenho o vício
de um pouco de solidão.

Hamilton Carvalho
(14/4/2017)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Dialética escancarada









Cantei outubro em todos os novembros,
e vice-versa.
Jamais quis alcançar a estratosfera,
nem isso espero.
Agora é colher frutos de uma terra
sem estações,
apenas para que não haja outono
na primavera?

(21/11/2016)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Pernambués



A voz e as vozes na noite
com certa alegria. O chão
sobe como um corcoveio.
A moça de saltos altos
é mais leve que o estrangeiro
e seus sapatos cambaios.

Uma cachaça no aguardo,
a amizade como antiga,
o vibrar do ar musical
sob os sovacos, a argila
das paredes milagrosas:
inaugura-se o convívio,
o insuspeitado convívio.

A noite é de todo dia.


2

Onde estariam os gatos,
os cães? Onde os percevejos,
as libélulas, o medo
atento dos socavões?


Hamilton Carvalho
(in subversos-subversos.blogspot.com)

terça-feira, 25 de outubro de 2016

De pé quebrado


Não tenho fixação por métrica. Mas, antes que eu passasse a escrever aquilo que poderia considerar poesia, me impus um “treinamento” mais ou menos longo: conhecer, em regra, o “martírio” de bater os dedos a contar sílabas. A tal ponto que cheguei a não precisar mais contar sílabas em poemas curtos ou no início de alguns mais longos, embora procurasse, às vezes, ajustá-las: os versos saíam medidos, por hábito ou “de ouvido”, por causa do ritmo viciado. Não é o caso do poema abaixo; pouquíssimas vezes usei o hendecassílabo.
Escrevi o poema sentado num banco da Praça Cívica voltado para a descida da Avenida Araguaia, em Goiânia. Depois de ter andado quilômetros a pé, por ruas e avenidas de Goiânia e de Aparecida de Goiânia, saltei de um ônibus na Praça Cívica. (Narraria essa experiência em crônica com cara de ficção.) Já ao me levantar do assento, senti que o pé direito não obedecia ao comando do cérebro. Tinha “esfriado”. Arrastando o pé morto, aos pulos, cheguei ao banco da praça. Escrevi o poema, para “dar um tempo”.
Fiquei em dúvida com relação à métrica. Versos de 11 sílabas têm a acentuação tônica nas segunda, quinta, oitava e décima primeira sílabas, se você for rigoroso. Eu não tinha condições, ali, bestamente, de ser rigoroso. Optei pela lição, mais flexível, do gramático Domingos Paschoal Cegalla – juntei mais duas opções: quinta e décima primeira; terceira, sétima e décima primeira. Mesmo assim, o último verso seria pé-quebrado, isto é, não se enquadraria nos cânones.
Mas era exatamente o que eu queria dizer, sem inversões, adaptações, contorções. A métrica que se foda. Era a queda de duas personagens masculinas marcantes de Victor Hugo fundidas numa só. Quebre a métrica, eu me disse. Mas deixe a Esmeralda de fora. Foi o que fiz. E hoje me ocorre que então me sentia com o pé quebrado. Fechou.
Por que me lembro agora desse poema? Não vem ao caso.


Quasímodo

Enigma será a palavra que gravo
na parede antiga de intensos silêncios
quando já não há nem pátios nem milagres
nem o carrilhão louco nas altas torres
Turbilhão alegre do povo na praça
e eu patético me embeveço olhando a dança
e no desengonço meu divirto a massa
Depois mudo e só cruzo sombrios átrios
para viver meu tormento e minha dor
Tudo é grande e lancinante aqui no peito
em que ecoa como os sinos a paixão
Sinto ainda o morno corpo nos meus braços
e há uma vontade tanta que machuca
Subo então às altas torres sempre minhas
nas ásperas pedras inscrevo este nome
este nome trágico que me resume
eu Quasímodo numa queda absoluta

Hamilton Carvalho
(24/10/2016)

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

É preciso ser justo

Poema “renegado”, escrito há séculos, que às vezes me vem à cabeça

É preciso ser justo
na medida implacável do tempo presente

Não apenas colher frutos
mas também compreender
a existência das sementes
o gesto
a elaboração
o movimento da matéria

Proclamar princípios
não é ainda
mover a pedra fundamental
muito menos
encaixá-la com as demais peças
do edifício solto no ar

Semear não basta
há o momento da rega

E um gesto
não é o significado
do outro gesto
na medida do tempo presente

Se compreendo porém
a espiral deste mundo no espaço
em algum ponto da vida
gesta-se o futuro
de mim
que venho lá de trás
de outra geração
noutra hora do cultivo

(Hamilton Carvalho)