[Texto – todos os cantos]
Textos variados de Hamilton Carvalho. (Só crônicas: vidacambaia.blogspot.com. Só poesia: subversos-subversos.blogspot.com e antecipada.blogspot.com)
sábado, 18 de janeiro de 2025
sábado, 20 de julho de 2024
Ciclopes
Busco sempre o que é o centro de tudo,
e sou meio que sempre periférico.
Todas
aquelas árvores molhadas
pela
única lágrima secaram,
e
deteve-se o ritmo das marés
que
faziam a festa dos teus pés.
Todo
o capim cortante amarelou
à
borda de manhãs e voçorocas.
Traçaram-se
divisas entre nós,
retalhando
o universo com seus átomos.
Partimos
e voltamos, tons tantálicos
das
ausências de lá e das de cá,
borradas
nos redutos e nas fugas,
renovadas
em todo tempo velho.
Viemos
de outras horas, as melhores.
As
que se enlameavam do perene
amor
de amar em becos e sarjetas
e
sobreviver mais, sangue lavado.
Todos
os seres eram nosso ser,
amálgama
de lágrimas sozinhas.
Até
que nos restasse só um olho
no
lugar das paredes demolidas.
Colorimos
as perdas e ficamos
sempre
em todos os pontos de partida,
para
ninguém chegar perto do fim
e
das recordações desesperadas.
E
fazemos as vezes de ciclopes,
cada
um na própria solidão e juntos.
O
tato cego com que me contemplas
tem
dois sentidos e uma direção.
As
barricadas nunca serão sempre.
Hamilton Carvalho
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024
Supervivência
![]() |
| [Carlos Costa] |
Sou de escuridão calada.
Vesgo de estradas,
noites maldormidas.
Imagina.
Sou dos que sentem desde longe
a hora da chegada, e vale a pena
até mesmo a hora interrompida.
Sou da véspera das catástrofes,
e o que não é sorrateiro me atrai,
o sol queimando as retinas.
Sou óbvio como as vítimas,
as que morrem ou sufocam.
As que sobrevivem.
Hamilton Carvalho
domingo, 27 de agosto de 2023
A carga
![]() |
| [Jens Rademacher/Unsplash] |
Estou
que me escondo contrabando.
Sim,
Cassandra,
não
mais predigo catástrofes,
estamos
gastos.
Já
fui gângster em Detroit
e
viajei
até
Monterey,
estive
de passagem
na
rua das ilusões perdidas,
ali
no bairro da lata,
e
sei como seria foda
morrer
de overdose em Nova York,
não
na Califórnia de Steinbeck.
Com
o olhar para além da popa
tudo
o que levo
é
de amor a granel
distribuído
em contêineres,
inexpressivo,
sem
trademark
e
sem destino.
(21/8/2023)
Hamilton
Carvalho
———
O romance Cannery Row
(1945), do estadunidense John Steinbeck (1902-1968), tem tradução brasileira, com
o título A Rua das Ilusões Perdidas (A. B. Pinheiro de Lemos), e
portuguesa, com o título Bairro da Lata (Luiza Maria de Eça Leal).
sexta-feira, 23 de junho de 2023
Pacto de sangue
![]() |
| [imagem Depositphotos] |
Teus pulsos pusilânimes
me suprem de sangue morno.
A grama seca, o funchal, o pântano,
qualquer canto
em que me escorra e seja plasma morto
bebido em mandacarus.
Nem teus olhos,
nem teu nariz.
Tudo é deserto
em luxúria única,
com urubus e bundas
ou o perfume
da boca que não engulo.
Tudo no seu tudo
deserto
e sem vez.
Te amo de te amar,
embora me morda vampiro de mim.
E me encontro e me masturbo
quando a estrada que sigo não me segue,
e persegue.
E é quando não quero
a não ser tu.
O teu sangue morno
que me arranca do que serei.
22/6/2023
domingo, 4 de junho de 2023
Platônica
Levo uma vida do meu tamanho,
você seria excesso.
Dói dizer que desejo e não quero,
embora seja pelo desejo aquilo que me vejo,
pois sem ele o presente é nulo
e a minha sobrevida será um gole de café.
Você me inferniza sem ser o meu inferno,
e eu me sonharia o albatroz de Baudelaire.
Estou cercado de sós.
Não rola, amada.
Nem Platão platonizou.
Hamilton Carvalho
(2/6/2023)
quarta-feira, 15 de março de 2023
Gilson, 14 de março de 2023
![]() |
| [Divulgação] |
Ano passado
escrevi, quase brincando, como comentário a uma postagem feita por ele no Facebook:
PARA GILSON CAVALCANTE
A vida é o meu lugar,
ele diz (exorcista
e possuído, poeta
e panteísta, fauno)
porque a vida é o lugar.
Ele diz porque sabe,
e sábio é viver
como raiz de vida,
não bastará morrer.
Viver é habitar
o que perdura e fica
um pouco para sempre
sem ser definitivo.
Então se justifica:
a vida é um lugar.
6/2/2022
Hamilton Carvalho





