sábado, 20 de julho de 2024

Ciclopes

 
                                                                                    [Getty Images]

O tato cego com que te contemplo
erra às vezes, às vezes tremeluz.
Busco sempre o que é o centro de tudo,
e sou meio que sempre periférico.

 

Todas aquelas árvores molhadas

pela única lágrima secaram,

e deteve-se o ritmo das marés

que faziam a festa dos teus pés.

 

Todo o capim cortante amarelou

à borda de manhãs e voçorocas.

Traçaram-se divisas entre nós,

retalhando o universo com seus átomos.

 

Partimos e voltamos, tons tantálicos

das ausências de lá e das de cá,

borradas nos redutos e nas fugas,

renovadas em todo tempo velho.

 

Viemos de outras horas, as melhores.

As que se enlameavam do perene

amor de amar em becos e sarjetas

e sobreviver mais, sangue lavado.

 

Todos os seres eram nosso ser,

amálgama de lágrimas sozinhas.

Até que nos restasse só um olho

no lugar das paredes demolidas.

 

Colorimos as perdas e ficamos

sempre em todos os pontos de partida,

para ninguém chegar perto do fim

e das recordações desesperadas.

 

E fazemos as vezes de ciclopes,

cada um na própria solidão e juntos.

O tato cego com que me contemplas

tem dois sentidos e uma direção.

 

As barricadas nunca serão sempre.

 

 

(20/7/2024)
Hamilton Carvalho

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Supervivência

                                                                    [Carlos Costa]


Não sou do teu amor de passos furtivos.

Sou de escuridão calada.

Vesgo de estradas,

noites maldormidas.

 

Imagina.

 

Sou dos que sentem desde longe

a hora da chegada, e vale a pena

até mesmo a hora interrompida.

 

Sou da véspera das catástrofes,

e o que não é sorrateiro me atrai,

o sol queimando as retinas.

 

Sou óbvio como as vítimas,

as que morrem ou sufocam.

As que sobrevivem.

 

 

Hamilton Carvalho

(25/7/2022)

domingo, 27 de agosto de 2023

A carga


                                                                                   [Jens Rademacher/Unsplash]


  

 

Estou que me escondo contrabando.

 

Sim, Cassandra,

não mais predigo catástrofes,

estamos gastos.

Já fui gângster em Detroit

e viajei

até Monterey,

estive de passagem

na rua das ilusões perdidas,

ali no bairro da lata,

e sei como seria foda

morrer de overdose em Nova York,

não na Califórnia de Steinbeck.

 

Com o olhar para além da popa

tudo o que levo

é de amor a granel

distribuído em contêineres,

inexpressivo,

sem trademark

e sem destino.

 

 

(21/8/2023)

 

 Hamilton Carvalho

 

 

———
O romance Cannery Row (1945), do estadunidense John Steinbeck (1902-1968), tem tradução brasileira, com o título A Rua das Ilusões Perdidas (A. B. Pinheiro de Lemos), e portuguesa, com o título Bairro da Lata (Luiza Maria de Eça Leal).

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Pacto de sangue

                                                             [imagem Depositphotos]


Teus pulsos pusilânimes

me suprem de sangue morno.

A grama seca, o funchal, o pântano,

qualquer canto

em que me escorra e seja plasma morto

bebido em mandacarus.

 

Nem teus olhos,

nem teu nariz.

Tudo é deserto

em luxúria única,

com urubus e bundas

ou o perfume

da boca que não engulo.

Tudo no seu tudo

deserto

e sem vez.

 

Te amo de te amar,

embora me morda vampiro de mim.

E me encontro e me masturbo

quando a estrada que sigo não me segue,

e persegue.

 

E é quando não quero

a não ser tu.

 

O teu sangue morno

que me arranca do que serei.

 

 

22/6/2023

Hamilton Carvalho

domingo, 4 de junho de 2023

Platônica

                                                      [imagem: Vangelis Aragiannis | Dreamstime.com]


Não vai rolar, amiga.
Dói dizer.
Levo uma vida do meu tamanho,
você seria excesso.
 
Dói dizer que desejo e não quero,
embora seja pelo desejo aquilo que me vejo,
pois sem ele o presente é nulo
e a minha sobrevida será um gole de café.
 
Você me inferniza sem ser o meu inferno,
e eu me sonharia o albatroz de Baudelaire.
 
Estou cercado de sós.
 
Não rola, amada.
Nem Platão platonizou.
 
 
Hamilton Carvalho
(2/6/2023)

quarta-feira, 15 de março de 2023

Gilson, 14 de março de 2023

                                                                                            [Divulgação]


Ano passado escrevi, quase brincando, como comentário a uma postagem feita por ele no Facebook:

 

 

PARA GILSON CAVALCANTE

 

 

A vida é o meu lugar,

ele diz (exorcista

e possuído, poeta

e panteísta, fauno)

porque a vida é o lugar.

 

Ele diz porque sabe,

e sábio é viver

como raiz de vida,

não bastará morrer.

Viver é habitar

 

o que perdura e fica

um pouco para sempre

sem ser definitivo.

Então se justifica:

a vida é um lugar.

 

 

6/2/2022

Hamilton Carvalho