sexta-feira, 14 de março de 2014

Estou assim como se no patíbulo / O homem é uma fruta


                                                                                                      [Ricardo Geier]

           
                1

A ponte pertinho da água
tão perto que espremia a sombra
a sombra cada vez mais densa
mas a água tinha pontinhas de luz
a água enrugando-se tem luz.
E até onde a ponte não permite a queda,
segurando-nos pelo peito,
eu não fazia o poema.
Eu nem sequer chorava.
O vento secava a saliva de meus lábios
a palavra seca estalava
feito galho pisado numa floresta incinerada.
Eu dizia: Amor me toma pelos braços
mas na verdade sentia a morte nas pernas
uma dor aguda me arrancava a próstata
e eu tinha vontade de comer jabuticaba
à margem do córrego.
Eu não queria saltar a balaustrada
a água estava muito perto
e com a aparência fria de noite que chega ao ar livre.


                    1

O homem pisa no concreto
nem sabe que existe
faz conjeturas e ousa devaneios
curva-se diante duma planta
e a esmaga depois com as mãos.
Na virilha dos dedos a seiva
um verde que adentra poros e veias.
O homem redivive no crime
nem se soubera morto ou fraco
nem se soubera finito ou gente
apenas carrega o medo
um encontro no dia seguinte.
Mas o homem não larga a ponte
e consigo tem a saudade da planta
porque ele fez o estar e o que passou.
O homem cimenta as próprias emoções
mas também faz pontes
e também procura plantas
só que para no meio da ponte
e esmaga a planta.
E ei-lo que se esquece se esquecendo
pelo medo mediterrâneo de ser.


                               2

Não faço o poema
nem sequer me imagino em pranto.
Edito uma postura e saio
ato as palavras e as atiro ao fundo.
Ao fundo de quê? Do nada
que multiplico e deduzo de mim.
As palavras tecidas compõem a antenoite
fluem como o escuro
ou como a água embaixo da ponte
como o escuro que chega
como a água que passa
ou como o que sou e se acaba.
Foi sonho querer inovar
o gesto é lento e maduro
é o mesmo bordado
é o mesmo traçado
mas a cor uma só
um vermelho de sangue e carne crua.
Nem sequer imagino o poema
ele é uma gengiva impregnada
de ideias
com uma risca de sangue
que o dentifrício adultera.


                               2

O homem é tão real quanto uma lágrima
mas sonha impossível o impossível
e quase grita de desespero
quando não encontra no finito a saída.
Frio de existir
água gelada nas têmporas
há uma chuva fininha no vento.
Perfume de ervas arrancadas
pelo dente dos animais
um ruminar vivências e desaconchegos
as estradas são opção no corpo do medo.
A mão próxima que escapa
o galvanizar dos desencontros
na mesma ponte do viver
porque o ser se estratifica para além do ser
e se mira ruínas de si e do outro
pois o homem não é só
uma coluna que resiste única no tempo.
O homem é a ponte para o outro e para si.
O homem é mais real que o mundo.



                               3


Meus dedos estão lívidos no parapeito
a poesia não existe
gaze na ferida recém-aberta.
Logo me vejo ali e me sinto entre mesas
minha geração na voz dos Beatles
nascente feito sangue aos borbotões.
Alguém me bolina nos rins
esqueço o choro que me coça o nariz
e me ergo como o pênis numa ereção sem promessa.
Não peço nada além de um canto
os olhos porém são ávidos de resposta
e as mãos procuram o copo
a garganta quer um gole e um grito.
E eu grito acima da ponte e de mim
sou tão pequeno e a ponte sem trânsito.
Todas as insuficiências me chegam
infladas de hipocrisia alheia
e me premiam com afável sorriso
quando o que quero é carne, sangue
algo violentamente humano e próximo
em que a gente toca e ao qual se transporta.



                               3

O homem é a concreção de si
um cruzamento de estrias e passos
um caminho desandado
um ermo.
O homem é o homem sem propósito
um pedaço de ponte caído na água
a palavra errada nos lábios mais certos.
O homem é um sacolejar de vísceras
promessa de amor promessa de amor
e um repente de solidão e agonia
a única arma é o suicídio
que repousa inquieto nas mãos.
Um dito sem resposta é o homem
o poema é o dito impossível
e o verso está na conta do sonho
e nada é como é: sério.
E o homem brinca consigo
crê apenas que morre um dia
mas a dor em ser é a maior
e é ao mesmo tempo a quimera.
O homem é uma merda qualquer
e vale por si a grandeza de tudo
até a luz no fim do túnel.


                               4

Não é preciso ter-me beijado
para saber do amargo.
Basta um olhar ou um verso de soslaio
uma letra numa cripta ou um exame de urina
um calendário marcado
uns lábios que não aceitam compromissos falsos.
Nem é preciso buscar-me à ponte
para saber da inclinação à morte
não cultivo estações nem gozo nas coxas
sou agudo nas intenções concretas
já pronto para as recusas querentes.
Não é preciso ter-me encontrado bêbado
para saber da embriaguez
acumulo porres e vômitos históricos
minha filosofia está grudada nos dedos
e não se pode esperar que eu a traia num brado alcoólico.
Não é preciso querer-me beijar
só quero curtir uma vulva intumescida.



                               4

O homem se pôs concreto na pista
visualizou-se maneiras e tiques
esborrachou a cara do terror sob os pneus
internou-se na clínica
comeu alface e fez metafísica.
O homem estalou feito coração envenenado
o ar da cidade é pior que o de insolência
havia um punhado de coisas para fazer
inclusive uma mentira e um gesto premeditado
como verso largamente esperado.
O homem é a redundância das comparações
um ônibus lotado que se inclina na beirada da rua
um urubu visto agasalhado no passado chuvoso.
O homem é uma brita mordida.



                               5

Prefiro falar de mim na curva
porque a derrapada é iminente
e prefiro falar de mim à janela
porque posso me fechar de repente.
Fui animal repulsivo
agora me fito no espelho do rio
sou vaso oblíquo para a bundona do burguês
e sou cacófaton bem posto
e sou piolho no saco
sou punheta dantesca
e sou desprezo aceito e fichado em meu arquivo
mas sou sobretudo um jeito.
Prefiro falar de mim no casulo
porque ainda não tenho asas
e prefiro falar de mim sobre o penhasco
porque o salto é a única coisa palpável.
Fui misteriozinho frívolo
agora sou engano que não se decifra.



                               5


O homem é sonho de mar em alto-mar
e é o desinquieto das sobrancelhas
e o sinaleiro da encruzilhada.
Mas é o desvario da posse
e o irresponsável da paz
e o ruído de um copo quebrando-se.
O homem é a silhueta na ponte
e um sapato na correnteza
um rio abaixo
um fio de leite nos lábios
uma coisa antes do trago
um arrepio insolúvel da carne
o que não devia e não o devir.
O homem é um ser encurralado
a ânsia do retorno e a predisposição do fumo.
Mas é a permanência do outro
e a consciência do que é futuro
e a consequência do que é remédio
e é sobretudo o veneno da demência
e a dissolução do pacto.
O homem é o bode expiatório de si
e um pato.


                               6

Estou é na ponte e não em mim
estou fora de mim com as mãos no bolso
uma sensação de orgasmo na boca
e uma frieza descarada nos pés.
Estou assim como se no patíbulo
e miro a água fragmentando-se em luz rápida
impressão inumana de poesia conceitual
falta de crença e de filosofia
reivindicando o nonsense pelo amor de deus
sou uma espécie de vácuo vestido de negro
talhado como terno torto no cabide
uma claraboia imersa no pranto.
Estou e sou tão desencanto
um faxineiro bebendo à porta do bar e pensando no amanhã.
Vou engolir a ponte.


                               6

O homem é fácil
qualquer algo que se move
um caminhão de mudanças
um animal domesticado.
O homem se espelha na árvore podada
e na poluição dos afogados.
Há dias em que o homem tem repentes
mas é a mesma coisa de sempre
a imobilidade
a estatueta de bronze.
Por incrível o homem é mulher
e tem mania de colecionar selos
e escolher ditaduras.
O homem é uma lágrima na gravura
um espinho na unha
um pontapé nos testículos.
O homem é necessário
é aquilo que se ama
uma imensa ternura
um choque tremendo na nuca.
O homem é uma fruta
a boca que ele mesmo colhe e chupa.

Hamilton Carvalho
(Agosto de 1978 Vida Cultural, órgão do Clube Luso-Brasileiro da Universidade do Colorado em Boulder, EUA, n.os 35, 36 e 37)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Três crônicas de carnaval


No meio da folia
            
Antes que coleguinha sádico me venha perguntar como foi meu carnaval, vou desconcertá-lo: caí na folia. Como de paraquedas. Na verdade, não fui atrás do carnaval. Foi ele que veio até mim. Ou, digamos, nos encontramos por acaso. Eu me vi no meio do carnaval, ainda que na periferia.
Nem me lembrava dessa festa pagã. Só pensava que não deveria pensar em nada. Saí à procura de um boteco mixuruca, que não tivesse muito movimento, para lavar a caveira e dar sumiço em tenebrosas teias de aranha cerebrais.
Havia muitas mesas na calçada, mas apenas uma estava ocupada. Com três mulheres mais deprimentes que sala de espera de posto de saúde e um sujeito mais chato – se possível – que líder de excursão, daqueles que ficam cantando “Índia teus cabelos, índia teus cabelos, índia teus cabelos” a viagem inteira.
Por incrível que pareça, nessa noite eu não estava com muito espírito de caçador. Estava mesmo era blasé, enjoado, tanto que nem liguei em ficar exposto naquela cadeira à beira de avenida de subúrbio, engolindo fuligem e ouvindo ronco de moto velha, eu, que gosto de cantos escusos, meia-luz, música em surdina e, principalmente, cheiro e gosto de mulher boa.
Nem me ocorria que era antevéspera de carnaval. De repente, uma caminhonete para e o motorista começa a descarregar aparelhos de som.
Com inacreditável lerdeza de raciocínio fui-me desentorpecendo até ficar zonzo com a rapidez com que as mesas foram tomadas. Uma barulheira infernal começou e arrebatadíssimas garotas pularam para a pista improvisada. Continuei imóvel, sem vontade até mesmo de ir embora. Afinal, sou bom voyeur, e ali havia farto material para ser apreciado.
Imagine, leitor desmotivado, no meio daquela explosiva, sensual e arrebatadora alegria, esta sóbria e pálida figura, vestida de preto, barba por fazer, faltando apenas óculos escuros para que a indumentária de funeral ficasse completa...
Sentado ali, cercado de shortinhos meia-bunda, seios trepidantes, odor de mulher molhadinha, mas molhadinha mesmo, de suor, sentado ali deixei o tempo correr. Mas devia ser bem estranho aquele sujeito magro, sisudo, imóvel, bebendo Bavária e fumando Bill (marca de cigarro).
Repentinamente, o som foi interrompido. É que, lá de baixo, na avenida, vinha – acredite – uma escola de samba. Escola de samba com carro alegórico, cabrochas, tudo, até uma esfuziante imitação de Joãozinho Trinta. [O autor acha que “Joãosinho”, com esse, é muita veadagem.]
Em cima de estrado colocado numa caminhonete da década de 60 ou 70 três garotas acenavam gloriosamente para um público deslumbrado. Nesse momento me levantei. Afinal, era preciso reverenciar aqueles bumbuns que faziam sumir a roupa que vestiam.
Em seguida, mais friamente, passei a analisar os frenéticos bumbuns. Um, macérrimo, era jovem e rebolava duro. Outro, já meio para o idoso, era caidaço e rebolava mole. Mas se comportava com muito brio e, como é de preceito, frequentemente se jogava na direção do público. E todas as vezes que isso ocorria eu tinha a impressão de que enorme buldogue me olhava.
Ah, já o terceiro bumbum, este sim. Tem 25 anos de idade e sua dona fuma com moderação e bebe um pouco para o demais, e fala, fala muito, que é para explorar a voz rouquinha, sensual.
Como é que sei disso tudo? Ora, leitor intrometido, o carnaval apenas começava.
A escola se foi avenida afora e o boteco voltou a funcionar a todo o vapor. Com o sangue mais ativo nas veias e nos corpos cavernosos, fui retomando os ímpetos de caçador compulsivo. Passei a observar as cercanias.
As três feias da mesa do chato não eram do tamanho que eu calço. Sem falar que o chato, alternadamente (já que não podia ser simultaneamente), as beijava o tempo todo. E aí, meu irmão, não sou de bater soro nem em saliva.
Como nada neste mundo está perdido, comecei a ser retribuído com alguns olhares. Elas, que dizem que só gostam de “filezinhos”, na prática não sabem dispensar um maduro, porém elegante, cavalheiro solitário.
É claro que eu, que já provoquei muita discórdia entre casais e procuro me regenerar, estava com muito cuidado para não ferir os sentimentos de algum namorado incompetente. Mesmo assim, estava quase sucumbindo ao charme de uma dama acompanhada. O casal acabou brigando. Enquanto ela me lançava olhares, ele me fitava com aquela cara de ejaculação precoce.
Depois o indivíduo passou a tentar a reconciliação, mas não conseguia sequer segurar a mãozinha da amada. Foi então que apareceu, toda saracoteante, a bicha mais tresloucada do pedaço.
“Ela” me conhecia apenas de vista, mas veio com tudo para o meu lado. E me cumprimentou com tanta efusão, como se me conhecesse de intimidades que só reservo para as amadas, que me deixou desarmado. Quando se afastou, vi que o casal, à mesa próxima, bem abraçadinho, olhava para mim rindo sem nenhum pudor.
A garota, acreditando que perdia tempo com suposto enrustido, se reconciliou com o namorado, favas contadas. Disfarcei um pouco e logo me mandei dali. Para não frustrar de todo a minha noite, subi a avenida à procura da dispersão da escola de samba. Mas o que aconteceu depois é outra história, e essa eu não conto.

Hamilton Carvalho
(Gazeta de Goiás, n.º 48, 1.º/3/1998)


Garoto de aluguel

Sem ressaca, de alma limpa (mais ou menos), entro no início de curta semana meio de cintura dura. É que escrevo esta bendita na quarta-feira depois do carnaval, e ainda tenho que dar conta de outros recadinhos.
Estivesse de ressaca, tudo seria mais fácil. Sentiria as vibrações da folia – animadíssimo, portanto, para o cumprimento do dever.
O leitor de memória grata a este cronista de subúrbio sabe que o meu carnaval do ano passado não foi de todo mau. Quebrei umas, entortei outras, apreciei até desfile de escola de samba.
Este ano, zerei-me no catre, livro em punho (livro), e joguei-me em reflexões.
Ora, esse negócio de reflexões é pura frescura. Fiquei mesmo foi pensando (não é o lugar-comum) em outros carnavais. Não tive muitos, o que quer dizer que não pensei muito. Aliás, pensar é hábito besta de quem tem preguiça de produzir.
Lembrei-me, por exemplo, de certo entardecer de carnaval. Sentadão em boteco virado para o poente, pálido e sem perspectiva, arriava-me na melancolia. Além de mim, nada de freguês.
O dono do bar sintonizou uma FM, que naquele tempo somente tocava música, música popular brasileira. [Rádio FM era como TV paga hoje, mas sem “comerciais”; um luxo.] Àquele som, eu modornava com o diabo do solzinho me comendo pelas pernas.
Não tinha apetite nem para a cerva, cuja temperatura subia a olhos vistos. Eu sentia cada centígrado. E o gosto de barata falecida na véspera.
O fato é que estávamos ali, a cerveja e eu, ambos imprestáveis para o carnaval.
Eis que figurinha me cai diante dos olhos e arrasta cadeira e senta. “Oi, belezinha.” Teria preferido que ela dissesse “bonitão”, mas vai ver não captara a essência máscula de minha alma.
Era uma vizinha. Prestava completos e variados serviços na Boate Cafona. Naquele momento, roupinha simples e sem maquiagem, estava mais deliciosa do que quando de plantão.
Não, leitor depravado, nunca a havia derrubado. Na Cafona, eu fazia apenas turismo visual, a recolher “subsídios” para romance que jamais seria escrito. Acredite...
Se quiser. Não estou aqui para dar conta de minha vida privada.
A mocinha, deliciosa, puxou conversinha. Fiquei meio desconfiado com seus modos afáveis, até mesmo aconchegantes. Ela nunca daria bola para sujeitinho inexpressivo como eu. Estava interessada em alguma coisa.
Bebida? Meu deus, ela era puta fina, tinha dinheiro e gosto. Sexo? Ora, sem comentário.
Depois de oferecer e ela aceitar, mandei servir cerveja saidinha do congelador. Não ofereci mais nada, viu?
A bela tomou elegante gole, com dedinho levantado, acendeu um Hollywood, olhou-me pensativamente, boca aberta, da qual escapava lenta e grossa espiral de fumaça, e mandou: “Quero alugar você.”
É claro que a moça teve que repetir a pretensão, e eu tive que rir. Disse-lhe que fizesse a proposta à minha proprietária, que, caso aceitasse, haveria de desalojar-se do meu coração.
Aí ela explicou, sem sequer levar em conta a suposta existência de alguém na minha vida: “É só para brincar o carnaval, só esta noite.” E fez a ressalva: “Nada de sexo, nadinha de sexo, faço questão.”
Mesmo que eu fizesse questão da coisa, aceitei a proposta e todos os seus termos. Ela pagaria as despesas, que representariam o preço do “aluguel”, e eu me comportaria como bom menino, sem pensar em besteira.
O bom menino queria apenas aventura, e à noite estava no boteco, cheiroso e arrumadinho, embora não se vestisse muito adequadamente para cair na folia. Esperou.
E ela apareceu, saia curta e folgada, barriguinha de fora, com ares e jeito de mocinha de família discretamente preparada para o carnaval. Pegamos um táxi, cuja corrida seria paga por ela, e fomos parar num clube distante.
A noite inteira brincamos e suamos de mãozinhas dadas, sem malícia aparente. Éramos irmãos. Até fomos convidados para mesa “de família”, fizemos amizades, e com novos amigos participamos de um cordão de foliões que evoluía pelo salão e liderava a festa.
Ah, leitor carnavalesco, desde certo baile, na infância, não ousava entrar em pista de dança daquele tipo. A dama da noite transformou meu trauma em confete e serpentina. Sacudi o saco pra valer.
Não permiti que ela pagasse despesa. Nós, com nossas carências, nos completamos e fomos felizes por uma noite sem mercantilismo.
Voltamos para nosso bairro de ônibus, diazão comendo solto, nós irmãos no cansaço gostoso e na alegria pura.
Com os sacolejos do veículo por ruas esburacadas, com a sonolência que me desarmava, com a proximidade da garota que cheirava a promessas implícitas, senti o inconfundível formigar. A ereção.
Por um instante, senti-me infame incestuoso. Por um breve instante.

Hamilton Carvalho
(Gazeta de Goiás, n.º 85, 21/2/1999)


Líquido e certo

Ao pé do balcão do Bar e Mercearia Silva, parolava eu com o dono do estabelecimento. O leitor já conhece Tiãozinho, e deve deduzir, de má vontade, que daqui não sairá nada de relevante. “É líquido e certo que lá vem besteira”, dirá a si mesmo. Ora, é carnaval. Um pouco de paciência não custará nada ao leitor solitário que não tem quem o arraste para a folia.
Aproveitei o fim de um dos casos longos e repetitivos do dono do bar para provocá-lo. Lembrei-lhe de fato ocorrido ali em carnaval passado. Para minha surpresa, dessa vez Tiãozinho não se sentiu provocado. Pelo contrário: não me deixou continuar, assenhorando-se da história. Daí a pouco, dois ou três frequentadores do bar entraram na conversa.
Seres humanos costumam formar estranhas confrarias.
O bar do Tião, na parte em que ficam os diminutos balcões e prateleiras, é pequeno e abafado. Do lado de fora há ampla e arejada área com mesas (e cadeiras, claro) que era, naturalmente, o lugar preferido dos fregueses. Eu – como faço sempre que me acontece de cair em bar frequentado quase exclusivamente por machos – ficava junto do balcão, sem intenção de me demorar.
Houve uma inversão. Hoje não é mais assim.
Antes, as pessoas se sentavam do lado fora e faziam seus pedidos aos berros, até perceberem definitivamente que Tião é lerdo e costuma fingir que não ouve enquanto não terminar um caso. Fregueses impacientes passaram, eles mesmos, a vir buscar a cerveja e o tira-gosto. E começou a inversão.
Quando chegava da área para arrancar do comerciante mais uma cerveja ou uma tira de pele de porco, o cliente tinha de esperar o desfecho de um caso que ele era de início obrigado a ouvir. Não adiantava que eu fizesse gestos para que Tião desse uma pausa e atendesse o freguês, que passava a prestar atenção nas babaquices e a rir delas.
Hoje, lá fora, as mesas vivem literalmente às moscas, com exceção de uma ou outra, geralmente quando há mulher. Dentro, homens se amontoam diante dos dois pequenos balcões, plateia ativa e cativa do vendeiro. Já eu passei a ficar mais do lado de fora, empurrado pelo fedor de homem e pela fumaça de WS.
Acredito que, se não fosse pela mulher, que o ajuda no atendimento quando não está na cozinha da casa que fica atrás da mercearia, Tião teria que montar circo para sobreviver ou se dedicar exclusivamente ao pedaço de terra e às vacas que possui.
Por falar em circo, parece que a briga acabou. Até ontem havia dois circos “luxuosamente” armados em meu bairro. Um deles anunciava, por meio de fanhoso alto-falante instalado em Kombi de provecta idade: “Crianças e adultos só paga 5 reais.”
O concorrente, que instalara aparelho de som em algo semelhante a uma Parati, apelou. Ontem, que seria o último dia de ambos os circos na cidade (outra coincidência?), declarava o massacre ao garantir espetáculo “totalmente grátis”.
Confesso que vibrava quando via os carros se cruzarem. Os gritos esganiçados que saíam com entusiasmo sofrido dos alto-falantes davam a impressão de ser da mesma pessoa.
Onde é que eu estava mesmo? Ah, sim.
Em carnaval passado notei quando um casal se sentou a uma mesa. O homem era um solteirão que morava ali perto. Não reconheci a garota. Os dois estavam com os cabelos úmidos, como se tivessem tomado banho juntos. Ele não esperou muito. Já conhecia o modus operandi do dono do lugar. Veio para dentro e aproximou o rosto do de Tião, como se fosse dizer um segredo. Mas todos que estavam no recinto ouvimos.
“Tiãozinho, veja que gata peguei ontem”, disse com um sorrisão, a jogar um polegar por cima do ombro. Depois pediu: “Antes da cerveja, dois Engov, pois neste carnaval vou arrasar.” Meu amigo serviu meio copo de água (ele é econômico) e descascou os comprimidos que havia tirado da gaveta. O homem os colocou na boca, despejou água por cima, engoliu, fechou as mãos e sacudiu os punhos como se comemorasse um gol.
Enquanto me falava do tempo em que trabalhou em fazenda de gado, o botequeiro ia brincando com um dos invólucros do medicamento que lhe ficara entre os dedos. De repente, parou a brincadeira e pronunciou meu nome em tom de alarme. Olhei para o papelzinho. “Lactopurga”.
Tiãozinho ficou apavorado. “E agora, o que é que eu faço?” Retruquei: “Nada; espera pra ver.” Virei-me de costas, apoiei os cotovelos no balcão e olhei para o casal sentado à mesa lá fora, ele com um sorrisão nos lábios. Deliciado (ou invejoso), ainda sentenciei: “É líquido e certo que ele não vai arrastar a moça para a folia.”

Hamilton Carvalho
(Vida Cambaia, 22/2/2012)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Vitrine

O perfil é belo e lânguido,
a propor bicos de pena
e carícias de través.
Mas quem se atreve, morena,
tocá-la (sem retocá-la)
nessa longínqua vitrine?

Do lado de cá estão
os párias e os operários
carregados de quimeras,
fascinados por você
como se por um confeito.

Vista assim ao meio-dia,
bem nel mezzo del cammin,
tem algo de suculento,
feito uma jabuticaba.

Vista através da vidraça
se parece com um ícone
desenhado numa lágrima.

Hamilton Carvalho
(in subversos-subversos.blogspot.com)

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

MAIAKÓVSKI | As tempestades do poeta






                                                                                                        Comigo
                                                                                                                             a anatomia ficou louca.
                                                                                                                             Eu sou todo coração –
                                                                                                                             ele bate em todo o corpo.
                                                                                                                             V.M.

O poeta Vladímir Vladímirovitch Maiakóvski morreu aos 37 anos. Acionando o gatilho de um velho revólver, acabou com a própria vida em 14 de abril de 1930. Dois dias antes havia escrito a carta de despedida, em que anotou os versos: “Como se diz / o incidente está encerrado. / O barco do amor / quebrou-se contra a vida quotidiana. / Estou quite com a vida. / Inútil passar em revista / as dores / as desgraças / e os erros recíprocos.” (Tradução de E. Carrera Guerra.)
Nascido na aldeia de Bagdádi, Geórgia, em 7 de julho de 1893 (19 de julho pelo calendário que passou a vigorar após a Revolução de Outubro), Maiakóvski teve uma vida agitada. Os anos em que viveu equivalem, no dizer de Carrera Guerra, a séculos. Já em 1905, com apenas 12 anos, participa das manifestações contra o czarismo, em Kutaíssi, onde cursa o ginásio. Também ali chegam os reflexos da Revolução de 1905, a cuja derrota se seguem atos de terrorismo policial.

Preso três vezes
No ano seguinte, com a morte do pai, a família se transfere para Moscou, vivendo na penúria. O poeta vai mal nos estudos. Em 1908, abandona o ginásio e ingressa na ala bolchevique do Partido Operário Social-Democrático da Rússia. É preso numa tipografia clandestina e, para não comprometer os companheiros, come o bloco de notas, “com endereços e capa dura”. Sofre mais duas prisões, em 1909, a última delas custando-lhe onze meses de reclusão. Lê muito e faz versos num caderninho que será retido pelos guardas, aos quais agradecerá na pequena autobiografia (Eu mesmo), escrita em estilo telegráfico: “Obrigado aos guardas: ao soltar-me, tiraram aquilo. Senão, era capaz de publicar!”
Fora da prisão, sente necessidade de estudar e, para tanto, abandona a atividade partidária. Ele se pergunta se a revolução não lhe exigirá uma “escola séria”. Anota: “Sou ignorante. Devo passar por uma escola séria. E eu fora expulso até do ginásio. Se ficar no partido, tenho de passar à clandestinidade. E como clandestino, parecia-me, não poderia estudar.” Dedica-se à pintura, mas após um ano percebe que está aprendendo “prendas domésticas”. Torna-se, então, aluno do pintor P.I. Kélin, a respeito de quem fará comentário elogioso.

Amigos futuristas
Depois de um ano “fazendo cabeças”, entra para a Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura, o único lugar em que o aceitam “sem um atestado de bons antecedentes políticos”. Mas daí também será expulso, em 1914, em virtude da agitação que promove como integrante do movimento cubofuturista. Escreve Carrera Guerra: “Burliuk, o animador do grupo, atrai a ira dos mestres, Maiakóvski bate a tecla socialista e o resultado imediato é a agitação na Escola de Belas-Artes, terminando com a expulsão dos alunos iconoclastas.”
O pintor e poeta David Burliuk teve grande importância na vida de Maiakóvski, que fala do surgimento dessa amizade: “Em David havia a ira de um mestre que ultrapassara os contemporâneos, em mim o patético de um socialista, que conhecia o inevitável da queda das velharias. Nascera o futurismo russo.” O amigo lhe dava 50 copeques por dia para que pudesse escrever “sem passar fome”.

“Bofetada no gosto público”
Outra pessoa importante para o poeta foi Elsa Triolet, que ele namorou. Ela recorda: “Eu estava na escola. Maiakóvski, ainda nas Belas-Artes, rachava de fome e fazia parte dum grupo que se chamou mais tarde ‘futurista’... (...) Parecera-me gigantesco, incompreensível, insolente. Eu tinha 15 anos e tive muito medo.”
Nesse tempo Maiakóvski usava uma “escandalosa” blusa amarela e despertava violentas polêmicas. No ano anterior, 1912, havia assinado, juntamente com Burliuk, A. Krutchônikh e V. Khliébnikov, o manifesto “Bofetada no gosto público”. Participava de discussões públicas e fazia leituras de poemas nos cabarés frequentados por intelectuais.
A Primeira Guerra Mundial é recebida por Maiakóvski com entusiasmo patriótico. Mas logo passa a condená-la, na mesma linha dos bolcheviques. Ainda assim, acreditando que, “para falar da guerra, é preciso conhecê-la”, o poeta tenta alistar-se como voluntário. Não o consegue, por causa dos antecedentes políticos.

As lágrimas de Górki
Com o dinheiro que ganhou num jogo, vai à Finlândia e passa algum tempo em Kuokkala (hoje Riépino), que naquela época era lugar de veraneio de artistas e escritores. Faz uma visita a M. Górki e lê para ele alguns versos. Registrará na autobiografia: “Sensibilizado, Górki me cobriu de lágrimas todo o colete. Fiquei um tanto orgulhoso. Logo ficou claro, porém, que Górki chorava sobre todo colete de poeta.”
Também nesse ano (1915), ao estabelecer-se em Petrogrado, conhece o grande amor de sua vida, Lília Brik, mulher do estudioso de literatura Óssip Brik e irmã de Elsa Triolet. Aí é convocado para a guerra, mas já não pretende ir para a linha de frente. Então “finge” ser desenhista e vai trabalhar na Escola de Automobilismo. Só que, na condição de soldado, se vê proibido de publicar seus escritos. Óssip Brik, no entanto, compra todos os seus poemas, a 50 copeques por linha.

O poeta e a revolução
A Rússia, sofrendo constantes derrotas nas frentes de combate, com um povo faminto e cansado da guerra, vive intensa agitação político-partidária e caminha para a primeira revolução de 1917, a de fevereiro. Em 25 de outubro (7 de novembro pelo calendário gregoriano) irrompe a revolução socialista que coloca os bolcheviques no poder. Maiakóvski participa ativamente das tarefas revolucionárias. Dirá com orgulho: “A minha revolução. Fui ao Smólni. Trabalhei. Tudo o que era preciso.” (O Instituto Smólni era um internato para moças da nobreza, transformado em quartel-general dos bolcheviques.)
Em 1919, muda-se para Moscou e entra para a Agência Telegráfica Russa (Rosta). Viaja muito, realizando conferências e leituras de poemas. Daí por diante trabalha intensamente na propaganda, juntando-se ao esforço para vencer as dificuldades impostas pela guerra civil. Escreve e publica livros, monta peça teatral, participa de filmes, organiza com os futuristas a revista Lef e não para de viajar pela União Soviética. Vai, também, à Europa e aos Estados Unidos.

Ideia de suicídio
Mas aquele gigante impetuoso, cheio de dinamismo, sofre contradição íntima com a obsessão pelo suicídio. Resiste por muito tempo e se mostra contrário a tal solução. Sustenta-se – diz Carrera Guerra – à custa da sólida construção orgânica e da convicção política, humanista. Vive, porém, em tempos dificílimos, sem dinheiro e se envolvendo em batalhas políticas que o desgastam profundamente. Seu temperamento arrebatado faz que seja conflituoso o relacionamento com Lília, a quem dedica poemas cheios de ternura.
Num desses poemas – “Lílitchka!” – transparece a luta do poeta contra a ideia que o persegue: “... o meu amor / – duro fardo por certo – / pesará sobre ti / onde quer que te encontres. / Deixa que o fel da mágoa ressentida / num último grito estronde. / (...) / Afora o teu amor / para mim / não há mar, / e a dor do teu amor nem a lágrima alivia. / (...) / Afora o teu amor / para mim / não há sol. / (...) / a mim / nenhum som importa / afora o som do teu nome que eu adoro. / E não me lançarei no abismo, / e não beberei veneno, / e não poderei apertar na têmpora o gatilho. / Afora / o teu olhar / nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.” (Trad. de Augusto de Campos.)
 
                                      Lília Brik              [Aleksandr Rodchenko]  


O gesto que faltou
Em outro poema, “A Sierguiéi Iessiêni”, também há reflexo dessa luta. O amigo Iessiêni, antes de se enforcar num quarto de hotel, cortou os pulsos e escreveu com sangue: “Se morrer, nesta vida, não é novo, / Tampouco há novidade em estar vivo.” (Trad. de Augusto de Campos.) Maiakóvski parafraseou esses versos no poema que serve de base para o seu famoso ensaio Como fazer versos?. Na tradução de Haroldo de Campos: “Nesta vida / morrer não é difícil. / O difícil / é a vida e seu ofício.”
“A desmedida sensibilidade de Maiakóvski”, diz Carrera Guerra, exemplificando com o gosto que o poeta demonstrava pelas hipérboles, “o estado de tensão criadora em que permanentemente vivia, fazendo-o taciturno, sombrio, excessivamente concentrado, a alternância de profundas depressões com alegrias ruidosas, produziam não poucas dificuldades ao seu convívio social.” Lília, que ele amou até o fim e quem, “com um só gesto, apaziguava qualquer de suas tempestades”, não estava lá quando o poeta virou a arma contra o próprio coração. E ele era todo coração.

Hamilton Carvalho
(Revista Oásis, ano XXXI, n.º 110 – 1993)

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As citações foram retiradas dos seguintes trabalhos: A Poética de Maiakóvski, de Boris Schnaiderman; Antologia Poética, organizada e traduzida por E. Carrera Guerra, acompanhada de estudo biográfico; Poemas, traduções de Augusto e Haroldo de Campos, com a revisão ou a colaboração de Boris Schnaiderman. Os versos da epígrafe constam do livro de Fernando Peixoto sobre a vida e a obra de Maiakóvski.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Chá das 5


Já não tenho o amor assim,
ao embalo das palavras.
Quero um gole do teu chá
da tarde, enquanto me é cedo.

Só lembro porque relembro
na cadeia dos teus versos.
Então és antes de tudo:
cada  gole que te bebo,

cada lágrima que sugo.
Mas não valho nada, sei.
Nem o açúcar do teu choro,

nem o ritmo do que dizes.
O chá é tarde, e talvez
só a chávena que sujo.

Hamilton Carvalho

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Ensaios no porão


Dois sonetos me marcaram. Tomei conhecimento deles em pequeno livro de ensaios encontrado num porão (e posteriormente resgatado de um incêndio): Camões, o Bruxo, de Augusto Meyer (1902-1970). A edição é de 1958 (Livraria São José, Rio).
São cinco ensaios, a começar pelo que traz o nome do livro, em que o autor comenta, entre outras coisas, o jogo de combinações vocálicas em ai, io, au, eu, ei, ou e ia no soneto “Náiades, vós, que os rios habitais”, assinalando em nota de rodapé que seguia a lição de Costa Pimpão (1902-1984) para o primeiro verso do primeiro terceto:

Náiades, vós, que os rios habitais
Que os saudosos campos vão regando,
De meus olhos vereis estar manando
Outros, que quase aos vossos são iguais.

Dríades, vós, que as setas atirais,
Os fugitivos cervos derrubando,
Outros olhos vereis, que triunfando
Derrubam corações, que valem mais.

Deixai a aljava logo, e as águas frias,
E vinde, Ninfas minhas, se quereis
Saber como de uns olhos nascem mágoas.

Vereis como se passam em vão os dias;
Mas não vireis em vão, que cá achareis
Nos seus as setas, e nos meus as águas.

O último estudo do livro é todo dedicado a um soneto de Sá de Miranda (1481-1558). Para a análise, Meyer segue integralmente a lição de Rodrigues Lapa (1897-1989), embora apresente mais quatro versões do poema, comentando-as. Ele observa: “A hesitação das lições reproduz de algum modo a própria hesitação do autor, que enveredava pelos atalhos das variantes, numa verdadeira doença de escrúpulos.” Apoiando-me na edição de 1960 de Poesias Escolhidas (Editora Itatiaia, Belo Horizonte), com seleção, prefácio e notas do professor Rodrigues Lapa, coloquei “sombras” no primeiro verso do primeiro terceto e ponto e vírgula no fim do segundo verso do último terceto, em vez de, respectivamente, “sombra”, no singular, e dois-pontos, como está em Meyer.

O sol é grande, caem co’a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que soe ser fria;
esta água que d’alto cai acordar-m’-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu’em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m’eu fiz doutras cores;
e tudo o mais renova, isto é sem cura!

É verdade: estes poemetos (com decassílabos que fariam arrepiar um bom parnasiano) marcaram a minha vida de versejador. Nunca diria – nem saberia dizer, se isso fosse possível – quais são os meus autores favoritos em toda a literatura que cabe no mundo, ou apenas no meu pequeno universo. Não para ocultar de eventual leitor alguma influência. É que realmente não sei. Agora, não tenho receio de dar, aqui e ali, uma ou outra pista do pouco que li, como se isso tivesse importância para quem quer que seja. Então? Há indícios de Sá de Miranda e Luís de Camões na composição abaixo, retirada do meu livrinho (inédito em papel) Subversos. O poema se chama “No côncavo da noite”.

Estrelas estalactites
no côncavo da noite
Uma nave navega feito besouro
e meu coração é uma Beirute
e partilha seus conflitos
nos subúrbios em ruína
Ficar triste faz parte de mim
meus momentos de bomba H me redimem

Mas então amo a noite
sem qualquer razão
e faço minha Baixa Idade Média
para renascer de repente
Meus dentes sorriem sorrisos de séculos
e não duram mais que minutos
apenas para romper a pátina
de meus velhos objetos

Há um brilho intenso entre as sombras
as sombras frias dos corredores da história
onde um Colombo louco
encontra uma pedra américa
pedra nel mezzo
e minhas Índias ficam para outrora
Mas circum-navego para aqui
e aqui é meu destino depois do mar

Um sonho guardo na raiz das pirâmides
amar as tágides de Camões
às margens transbordantes do Nilo
náiades vós que os rios habitais
e fazer um discurso triunfal de posse
antes que os faraós votem meu impeachment
e Rosencreutz desapareça
nas ruas lisboetas

Fiat lux com fósforo multimídia
que fascina meus olhos de hipnose
e transmigro tal a pomba da paz
para uma interdita Palestina
e não adianta nada que Kissinger
trace os destinos econômicos da China
pois que falo português brasileiro
e não sei traduzir o paideuma de Pound

Mas ando solitário
por Matacavalos
capitulado por um beijo na nuca
Passo uma noite na taverna
e escrevo ao escrivão Isaías
que leu sem avidez meus cadernos de poesia
E caem com tal calma as aves
que a vida me parece fria

Hamilton Carvalho