Textos variados de Hamilton Carvalho. (Só crônicas: vidacambaia.blogspot.com. Só poesia: subversos-subversos.blogspot.com e antecipada.blogspot.com)
sexta-feira, 24 de abril de 2026
sexta-feira, 10 de abril de 2026
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Uma canção antecipada
Primeiro prêmio (em dinheiro, ufa!) de concurso da UCG (hoje PUC-GO) e publicado no Diário da Manhã na ocasião, talvez início de 1990. Eu não era aluno nem funcionário da UCG. Encenado no teatro de arena da universidade por um grupo do qual, infelizmente, não me lembro do nome.
Uma canção para
nada
O sonho está sentado na praça
comigo sob a árvore.
Na árvore nodosa as formigas sobem
estão quase sem destino
na árvore sem frutos.
Mas há sombra
a sombra ganha a tarde inteira
o que só interessa a mim
e ao sonho que sonha em mim.
Não estou muito para nada
pensativo demais para nada
nada em excesso para nada.
O sol caustica e daqui
é como se estivesse lá fora.
O sol caustica e aqui
é um dentro aconchegante.
Meu sonho tem uma árvore inteira
nele atravessada
a árvore com seus galhos
e seus pássaros empalhados.
O sonho sofre na praça
cada galho é uma forca
cada folha um bilhete sem desígnios
eu mesmo me componho
assim para uma foto ou uma notícia
assim a espera na antessala.
O sonho é apenas algo que se tem
e é quando o sonho é tudo.
O sonho é só todo um mergulho
nada mais o sonho pode ser
nada mais se pode ser.
A árvore sofre a minha presença na
praça
a passagem da tarde sofre
tal uma eternidade.
Cada pássaro canta
a cor cinza de cada nota.
A gota inopinada
será sem dúvida
uma lágrima.
A sombra esfria súbito
feito um calafrio.
No meu abraço não há ninguém
além de mim.
Na forca dos galhos
não há ninguém além de mim
nas folhas e seus oráculos
não há senão o vácuo
que se apossa de mim
que se assenta na praça
que sonha por mim
que canta ante o silêncio
repentino dos pássaros.
Hamilton Carvalho
sábado, 18 de outubro de 2025
Cenários
Nada de
mágico nas palavras
nada
de mágica
com
o estertor
A
dor sobe ao palco
e
rouba a cena
o
cenário
o
mágico
e
ainda leva de quebra
o
contrarregra
que
volta para casa
na
mortalha da tragédia
2
Num
canto de cozinha
assoma
a ponta dura
dos
joelhos de um menino
com
um prato de nada no colo.
É
meio tarde na noite
mas
há um cadáver na sala.
No
quarto
brinquedos
quebrados
estuque
úmido
e
o cheiro remoto da urina
impregnada
no colchão.
Mais
nada
além
do retrato amarelo
e
inútil
numa
carteira de trabalho.
3
A
crise é mesmo assim
dona
menina:
a
banca é rota
e
não advoga nada
os
bastidores eram tudo
mas
não alimentavam
A
vida é assim
esse
menino:
os
brinquedos envelhecem
mas
ainda se brinca
e
se enche o prato
com
sonhos de vitrine
4
Não
há mágica nas palavras
não
há Shakespeare
em
boca atropelada
Não
há mágico
no
espelho trágico
do
palco saqueado
silhueta
contra o pano
(que
esconde a realidade do trabalho)
Mas
o viver ainda escorre
das
cidades ilhadas
no
coração da metrópole
feito
sangue espesso de facada
ou
lágrimas de chumbo
A
dor prepara o cenário do dilúvio
Hamilton Carvalho
(in Subversos, 2012)
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
domingo, 25 de maio de 2025
Nós e ao redor de nós
![]() |
| [Blog Farpas Pombalinas (Portugal)] |
Entre
você e mim
há
o melhor de nós;
ao
redor de nós,
outros
melhores que não somos
nos
destecem,
e
não somos nó dos outros
para
que nos desatem
ou
apertem.
Você
difere de mim na essência,
que
bom,
e
é por isso que somos cada um,
e
cada um ama cada um
em
tecedura,
inteiros
apartados,
e
nosso encontro é agendado
para
todos os dias,
quando
pego um pouco
e você pega um pouco do melhor
(bom ou nem tanto)
que
faz liga
e
exubera entre nós.
Hamilton Carvalho
terça-feira, 15 de abril de 2025
Ipasgo: privatiza que melhora
![]() |
| Cara de Bruno Magalhães D'Abadia no site do instituto |
O presidente do Ipasgo Saúde, Bruno Magalhães D'Abadia, mente descaradamente em documento oficial (“Carta ao beneficiário”, em que estabelece que “o pagamento das coparticipações ESTARÁ restabelecido” em 4 de abril em e-mail enviado no dia 12, querendo enganar com a volta no tempo) ao afirmar que, “... com relação às coparticipações referentes a 2024 e INÍCIO de 2025, OS VALORES SERÃO COBRADOS DE FORMA PARCELADA”. (Os destaques em maiúsculas são meus.) Ele afirma isso ao tratar da coparticipação em consultas e exames que o Ipasgo teria deixado de cobrar desde agosto de 2024, com a “competência” de um serviço público privatizado.
Assinei autorização de débito em
conta de mensalidades para o dia 10 de cada mês. A cobrança de consultas e
exames médicos é feita individualmente, na medida em que tais consultas e
exames são realizados e informados pelas clínicas, que pedem confirmação de
débito em conta da parte que cabe ao “beneficiário”, que tem a opção de pagar
no ato de atendimento.
Pois mandaram um pacote de
coparticipações de JANEIRO (que, suponho, é início de ano) para os lançamentos
futuros do banco, pacote a ser debitado AMANHÃ, dia 15, inclusive a cobrança de
um exame feito em NOVEMBRO, o que, por si só, determina a nulidade de toda essa
palhaçada. Inviabilizam o pagamento de um erro que não foi meu: não encontrarão
saldo. Outra mentira do deslumbrado presidente: “As parcelas estarão
disponíveis a partir de 5 de MAIO de 2025 COM PAGAMENTO A PARTIR DO DIA 15.”
Entrei em contato com o Ipasgo por
meio dos canais a que pude ter acesso e me informaram, coerentemente, apenas o que
podia ser informado, ou seja, em conformidade com a “Carta” do aéreo e desinformado
presidente. Fui empurrado até a Ouvidoria, que me abriu um corredor polonês de
burocracia de volta aos mesmos “canais” que já havia consultado, porque assim
são os “procedimentos”.
Vejam os prints, se tiverem
paciência.
14/4/2025
sábado, 18 de janeiro de 2025
sábado, 20 de julho de 2024
Ciclopes
Busco sempre o que é o centro de tudo,
e sou meio que sempre periférico.
Todas
aquelas árvores molhadas
pela
única lágrima secaram,
e
deteve-se o ritmo das marés
que
faziam a festa dos teus pés.
Todo
o capim cortante amarelou
à
borda de manhãs e voçorocas.
Traçaram-se
divisas entre nós,
retalhando
o universo com seus átomos.
Partimos
e voltamos, tons tantálicos
das
ausências de lá e das de cá,
borradas
nos redutos e nas fugas,
renovadas
em todo tempo velho.
Viemos
de outras horas, as melhores.
As
que se enlameavam do perene
amor
de amar em becos e sarjetas
e
sobreviver mais, sangue lavado.
Todos
os seres eram nosso ser,
amálgama
de lágrimas sozinhas.
Até
que nos restasse só um olho
no
lugar das paredes demolidas.
Colorimos
as perdas e ficamos
sempre
em todos os pontos de partida,
para
ninguém chegar perto do fim
e
das recordações desesperadas.
E
fazemos as vezes de ciclopes,
cada
um na própria solidão e juntos.
O
tato cego com que me contemplas
tem
dois sentidos e uma direção.
As
barricadas nunca serão sempre.
Hamilton Carvalho
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024
Supervivência
![]() |
| [Carlos Costa] |
Sou de escuridão calada.
Vesgo de estradas,
noites maldormidas.
Imagina.
Sou dos que sentem desde longe
a hora da chegada, e valerá a pena
até mesmo a hora interrompida.
Sou da véspera das catástrofes,
e o que não é sorrateiro me atrai,
sol queimando as retinas.
Sou óbvio como as vítimas,
as que morrem ou sufocam.
As que sobrevivem.
Hamilton Carvalho
domingo, 27 de agosto de 2023
A carga
![]() |
| [Jens Rademacher/Unsplash] |
Estou
que me escondo contrabando.
Sim,
Cassandra,
não
mais predigo catástrofes,
estamos
gastos.
Já
fui gângster em Detroit
e
viajei
até
Monterey,
estive
de passagem
na
rua das ilusões perdidas,
ali
no bairro da lata,
e
sei como seria foda
morrer
de overdose em Nova York,
não
na Califórnia de Steinbeck.
Com
o olhar para além da popa
tudo
o que levo
é
de amor a granel
distribuído
em contêineres,
inexpressivo,
sem
trademark
e
sem destino.
(21/8/2023)
Hamilton
Carvalho
———
O romance Cannery Row
(1945), do estadunidense John Steinbeck (1902-1968), tem tradução brasileira, com
o título A Rua das Ilusões Perdidas (A. B. Pinheiro de Lemos), e
portuguesa, com o título Bairro da Lata (Luiza Maria de Eça Leal).
sexta-feira, 23 de junho de 2023
Pacto de sangue
![]() |
| [imagem Depositphotos] |
Teus pulsos pusilânimes
me suprem de sangue morno.
A grama seca, o funchal, o pântano,
qualquer canto
em que me escorra e seja plasma morto
bebido em mandacarus.
Nem teus olhos,
nem teu nariz.
Tudo é deserto
em luxúria única,
com urubus e bundas
ou o perfume
da boca que não engulo.
Tudo no seu tudo
deserto
e sem vez.
Te amo de te amar,
embora me morda vampiro de mim.
E me encontro e me masturbo
quando a estrada que sigo não me segue,
e persegue.
E é quando não quero
a não ser tu.
O teu sangue morno
que me arranca do que serei.
22/6/2023












