quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Em face do improviso


Artigo de apenas quatro calibrados parágrafos me transformou em cronista regular de jornal. Eu disse várias vezes (e acredito que até por escrito) que não sou muito chegado a crônicas. Respeitava dois ou três autores nos meus tempos de garotão no Rio de Janeiro. Aqui, em Goiás, viria a dar a publicar dois ou três textos que poderiam ser qualificados de crônicas – e os textos só chegaram ao editor do caderno cultural do diário porque ele se sentava não muito longe de onde eu labutava com assuntos do cotidiano.
Claro, há exagero aí em cima, no começo. O pequeno artigo – publicado no n.º 28 de um semanário – só chamou a atenção do dono do jornal em razão da dificuldade que já enfrentava com a folha de pagamento. O engraçado é que ficou agradavelmente surpreso ao descobrir na Redação alguém que sabia escrever. Ora, carambolas. Ele vinha pagando um casal de cronistas (como naqueles anúncios, um casal casado) para poetizar o caderno voltado para artes e variedades.
O proprietário da empresa (novinha e à beira da falência) mandou que sondassem este ser insubmisso. Eu me esquivava, até que me enchi e disse a um preposto: “Não sou diletante, não escrevo de graça.” Encolhi no meu canto, mas não pude impedir que o casal de cronistas fosse dispensado e os espaços dele preenchidos com frivolidades de agência. Aproveitaram para dispensar, também, um articulista de opinião remunerado (“ecológico demais”).
Senti que a coisa ficaria feia para o meu lado quando, certo dia, o patrão irrompeu na Redação. Sem olhar para ninguém – muito menos para mim –, engrossou alto: “Jornal sem crônica não é jornal; pra mim não dá, não dá!” Girou nos calcanhares e rumou para a saída. Ao chegar à porta parou e, sem olhar para trás: “Não dá.” E sumiu de vez.
Prometeram-me, para quando o semanário se equilibrasse financeiramente, “um extra” pelas crônicas. A promessa serviu para manter a minha bruxuleante dignidade. O semanário cresceu, transformou-se em diário, e nada de extra.
O que me levou a escrever o famigerado artigo?
O editor de política era um sujeitinho chato, superficial e incompetente. Em dia de fechamento de edição, o desgraçado começava a se coçar para ir embora às 5 horas da tarde. Quando se tratava de entrevista, por exemplo, largava gravador e fita com o digitador e se mandava. Em seguida, eu tinha que fazer a edição, montando a entrevista e reescrevendo o texto de abertura que o vil elemento deixava como se fosse um favor.
Naquele dia, durante bate-boca dele com o editor de arte, responsável pela diagramação, percebi que o embromador queria ir embora sem completar o fechamento da página 2. “Faz qualquer coisa aí pra tapar o buraco”, pedia o editor de arte. O malcagado relutava.
Peguei a oportunidade para me ver livre dele e do texto que faria. Era incrivelmente mais fácil e rápido produzir um do que reescrever o dele. “Pode deixar que resolvo isso.” E, assim, improvisei o artigo da página 2 da edição de 12 de outubro de 1997 da Gazeta de Goiás. Ei-lo:


Golpe de um crônico

Todas as qualidades do mundo concentram-se numa só pessoa: Fernando Collor de Mello. Esta é a impressão que poderia ficar (se as pessoas fossem tão imbecis) depois da leitura do primeiro capítulo do livro Crônica de um Golpe – A versão de quem viveu o fato. Mas a aversão pelo que viveu o fato se acentua com a catadupa de adjetivos, arroubos de bravura, “nobreza” de sentimentos e megalomania derramados em linguagem que pretende ser a de um “estadista”. (Segundo um editor da Gazeta, a linguagem do ex-presidente parece a de quem teve formação literária unicamente à base de “best sellers norte-americanos de banca de jornal”.)
O capítulo foi publicado pela revista Veja, na edição do dia 1.º, que, por erro de avaliação, tem como destaque de capa João Paulo II. Collor deve ter-se sentido injustiçado. “Fez-se escuro”, proclamaria. Mas não se dobraria, pois é um bravo, e manteria aquela postura rígida, como se estivesse empalado. E Rosane estaria ali, leal e firme, porque nela “se alevantara a tal valentia sertaneja”, enquanto ambos, de mãos dadas, seguiriam “imparáveis”. (Aliás, já desconfio que Magri se apossou daquele “imexível”, que, pelo estilão, deve ter sido criado pelo chefe.)
Não há no texto a mais leve sombra de autocrítica, mesmo daquelas parciais, oportunistas. E lá se vão adjetivos para reduzir os inimigos a vermes e “alevantar” às alturas o gênio da Casa da Dinda. Ele consegue ir além do ridículo em seus delírios de estadista: “O seu comportamento (de Ulysses Guimarães) mudaria quando se iniciou as articulações para garantir a tomada do poder através de um golpe de mão.” (A revisão aqui do jornal se sentiu tentada a corrigir: “... quando se iniciaram as...”.)
A impressão que fica mesmo é a de que Collor é um mal crônico. Os sintomas de que ele não vai desistir de “chegar lá” são assustadores. O livro em si é um golpe besta, como jogada de marketing, mas um golpe significativo na revelação de uma mente doentia, obsessiva pelo poder. É de meter medo; afinal, o homem é imparável. Se não voltar à Presidência da República, vai chegar à Academia Brasileira de Letras.

Hamilton Carvalho

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Almirante e mestre-sala





Perdi a oportunidade de escrever, no ano passado [2006], sobre a Revolta da Chibata, em seu 96.º aniversário. Também não me interessava escrever para não publicar.
Em novembro, aquele movimento – tão pouco relevado pela nossa historiografia – estará completando 97 anos. Ainda não é número redondo, como pede um bom pretexto para registro de efeméride. Mas isso é besteira. Se até lá eu não fizer nada a respeito, fica aqui a sugestão para alguém de maior talento – e sem precisar do pretexto de efeméride, porque qualquer tempo é tempo de amar.
O que o leitor deve estar-se perguntando é a propósito de quê toco neste assunto. Coisa boba: noite passada ouvia no rádio o samba “O mestre-sala dos mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, lançado em 1974 pela vibrante voz de Elis Regina. Só que a versão não era com Elis Regina, e sim com um ser não identificado (já que, como denunciei neste espaço, a partir de determinada hora emissoras de rádio não informam sequer o nome dos intérpretes).
Aquela interpretação anêmica me parecia recente; pelo menos não me lembro de tê-la ouvido antes. Aí me perguntei: se a gravação é recente, por que a letra de Aldir Blanc continua censurada pela ditadura militar?
Cito aqui parte da primeira estrofe, sob censura. Ela fala do líder da revolta, João Cândido, o Almirante Negro:
“Há muito tempo / Nas águas da Guanabara / O dragão do mar reapareceu / Na figura de um bravo feiticeiro / A quem a história não esqueceu / Conhecido como o navegante negro (...)”.
Como revelaria depois o próprio Aldir, em lugar das palavras “feiticeiro” e “navegante”, ele havia escrito, respectivamente, “marinheiro” e “almirante”.
O homem era um perigo. Então, os sábios da censura fizeram com que outros versos saíssem mais ajeitados e igualmente não atentassem contra a segurança nacional:
“Rubras cascatas / Jorravam das costas dos santos / Entre cantos e chibatas / Inundando o coração / Do pessoal do porão / Que a exemplo do feiticeiro gritava, então: / Salve o navegante negro / Que tem por monumento / As pedras pisadas do cais”.
Puxa, os desgraçados dos censores não conseguiram enfear os versos, apesar de negros serem transformados em santos que sangram.
O levante aconteceu em 1910, no governo Hermes da Fonseca. Foi então que um jornal, o Correio da Manhã, fez referência ao marinheiro como “o ‘almirante’ João Cândido”. Mais de sessenta anos depois, o termo, já incorporado à História, seria proibido – coisa que não foi feita nem pelos militares da época da revolta, responsáveis pela morte de dezenas de marinheiros, quase todos negros.
Ora, falamos de samba. Vale a pena repetir os últimos versos de “O mestre-sala dos mares”, grifando as palavras censuradas da versão original:
“Rubras cascatas / Jorravam das costas dos negros / Entre cantos e chibatas / Inundando o coração / Do pessoal do porão / Que a exemplo do marinheiro gritava, então: / Salve o almirante negro / Que tem por monumento / As pedras pisadas do cais”. O derradeiro verso saiu da garganta de Elis feito ironia gemida: “Mas faz muito tempo...”
Quase cem anos. Mas, sem dúvida, ainda estamos na pré-história.

Hamilton Carvalho
(Notícias de Goiás, n.º 32, 1.º/2/2007)

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Retorno


Ah-ah, o outro que se vire
nas mãos do agiota Shakespeare.
Will, Will, que Stratford recolha
teus cansados gonococos,
porque ficamos blasés.
                              
Um dia ela acorda, Will,
a exalar o ácido graxo
de um estômago senil.
Então dirás: “Sou palhaço.”
Como somos imbecis.

Era preciso que houvesse
uma bicota no escuro,
sem dentes e devaneios,
em teatro de bonecos:
o tálamo como palco.

Há toda uma estrada real
entre nós. E o vinho adúltero
alterado da estalagem.
E a peste. E o fogo e o feto,
e o fantasma de meu pai.

Somos como por acaso
no pátio escuso do mundo,
nas estrebarias de Áugias,
sob as vestes fedorentas
e mecenas da rainha.

Acaso. Nos bastidores o verso
incinerado. Eu me compro
ao preço vil do retorno,
mesmo no medo das pontas
atadas do vão destino.

Um dia ela acorda, Will,
e toda crepuscular,
à luz do longo abandono,
te ofertará tua, a própria
caveira.

(Junho de 2007)
Hamilton Carvalho