quarta-feira, 5 de outubro de 2016

É preciso ser justo

Poema “renegado”, escrito há séculos, que às vezes me vem à cabeça

É preciso ser justo
na medida implacável do tempo presente

Não apenas colher frutos
mas também compreender
a existência das sementes
o gesto
a elaboração
o movimento da matéria

Proclamar princípios
não é ainda
mover a pedra fundamental
muito menos
encaixá-la com as demais peças
do edifício solto no ar

Semear não basta
há o momento da rega

E um gesto
não é o significado
do outro gesto
na medida do tempo presente

Se compreendo porém
a espiral deste mundo no espaço
em algum ponto da vida
gesta-se o futuro
de mim
que venho lá de trás
de outra geração
noutra hora do cultivo

(Hamilton Carvalho)

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Poeta é fingidor

Finge tão completamente, claro. Hoje, ao procurar na bagunça de casa um jornal com a entrevista que fiz há anos com um dos atuais candidatos a prefeito de Goiânia (não achei), dei de cara com velho caderninho. Nele um (sofrido) soneto datado de outubro de 1973 que fala em rugas. Poesia é ficção.

No circo

Tuas mãos neste rosto que sofreu
não contam rugas, acarinham só.
Teus dedos rasgam o suor e o pó
mas a máscara ainda não cedeu.

No picadeiro busco algo de meu,
não acho, o riso está no povo só.
A serragem amarga, o amargo pó
em que piso, o meu ser ela sorveu.

Por detrás da cortina tu me esperas:
mas a máscara eu trago ao bastidor
e insisto em ser palhaço para ti.

É que lá fico ainda, exposto às feras
e às cadeiras vazias... E só a dor
e a amargura te fazem rir aqui.


Hamilton Carvalho

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A foto


A foto não é feia, gripada,
e desgrenhada, e suja das ruas.
E não tem nada disso ou daquilo.
É só ela, com o sorriso dela.

Hamilton Carvalho
(20/6/2016)

domingo, 15 de maio de 2016

[No Facebook]


PULO DO GATO (grátis)

Um dos recursos formais de que gosto na elaboração de poema metrificado (nos não metrificados isso é muito fácil) é usar, conscientemente, rimas que não têm cara de rimas, e nem digo das toantes, que por hábito ou instinto, sei lá, vêm no embalo das palavras e da possível emoção que elas buscam transmitir. Apesar de gostar delas, não abuso delas, para não banalizá-las no conjunto de meus escritos. Há um tipo, em especial, que sobrevive apenas em uns três pequenos poemas menores (não anoto quando esse tipo de rima me ocorre ou, quando anoto, elimino depois). Tenho certeza de dois desses poemas, publicados em blogs que mantenho. Em vez de usar a tônica da rima na última palavra do verso, uso na penúltima palavra. Por força, a última palavra é uma sílaba átona. O leitor sente “algo”, mesmo sem identificar o recurso. Eis as estrofes em que isso ocorre (observem: “vendo as” com “amêndoas” e “cáqui” com “há que”).

Do livro Subversos:

Engulo imagens dissímeis
e sofro mais que ela vendo as
fotos de veias rompidas
e de pânicas amêndoas.

Do livro A Canção Antecipada:

Não, mas não ainda as chamas
de um ateneu deletério.
Porque se faz necessário
andar, atravessar praças
e sentir o brim da roupa
em seu aroma e em seu cáqui.
Porque há o impositivo,
a irredutibilidade.
Não, mas ainda não. Há que
se ter domínio das chamas.

(Hamilton Carvalho)
(15/5/2016)



sábado, 9 de abril de 2016

O nome dela

O nome dela é como se fosse
palavra obscena.
O nome dela exclui o corpo dela,
o que é dela.

O nome dela é palavra
obscena,
não diz da mente dela.

Não posso dizer o nome dela.
Mas abraço o corpo dela
e não digo o nome dela,
é palavra obscena.

Hamilton Carvalho
(9/4/2016)

domingo, 4 de outubro de 2015

Estatuária


Não é preciso que eu fale grego
para entender teu perfil oculto
entre os cabelos, nem é preciso
que eu seja completamente cego
para apenas intuir teu vulto
(às vezes) algo perto de mim.

Não me interessa teu idioma,
nem o que fazes entre os escombros
de Troia, se traduzo teus lábios.
É. Não me importa porra nenhuma
se não me apoias nos magros ombros
que suportam o peso do mundo.

O reencontro é inevitável, embora
meus passos não batam com os teus.
Há sempre a encruzilhada do tempo,
que não é a mesma do chão de agora.
Visitarei todos os museus,
a deixar a mentira dos rastros.

Sim. Não me encontrarás em teus braços.

Hamilton Carvalho
(30/9/2015)

Gostei

Gostei.
Convivi com Edgard Allan, o Poe.
O que estragou foi Charles-Pierre, o Baudelaire,
com tradução de canoa sem seiva de cannabis,
em espécie de périplo paraguaio de Pedro Juan Caballero
com crianças babacas a bordo,
traindo o amante leminskiano de Rimbaud
que nunca se iludiu quanto a aicai ser verso livre.

Gostei, gostei mermo
quando Charles-Pierre, o Baudelaire, quebrou
a perna do albatroz, perfeito poeta em performance perfeita.
Só não gostei porque sei que Charles, o Pierre, comeu uma negra
e Rimbaud foi muito mal comido pelo amante leminskiano,
e assim a poesia ganhou Oswald de Andrade
na Semana de Arte Moderna
e Guilherme de Almeida traduzindo algumas flores, digamos
do mal.


25/9/2015
(Hamilton Carvalho)